Teresa Freitas

Ilustração por: Vicente nirō

Entrevista feita por: João Miguel Fernandes

teresa freitas photography

Ocupação: Fotógrafa

Clica aqui para leres a entrevista em Inglês


1 – Fala-me de um momento da tua infância que te tenha marcado particularmente.

A minha infância foi muito normal, sem complicações. Uma das minhas coisas preferidas era ver os meus irmãos a jogar videojogos. Lembro-me de um deles estar a jogar um third-person shooter de acção-aventura na Nintendo 64 e eu estava tão entusiasmada com aquilo que o meu irmão, com toda a sua paciência, ia-me convidando para assistir sempre que jogava. Um dos objectivos do jogo era encontrar as peças para reconstruir o sidekick da personagem, um robot voador chamado Floyd. Lembro-me de ficar muito contente quando finalmente “conseguimos” todas as peças. Pouco tempo a seguir, como habitual, estava a mexer no segundo comando e a carregar em botões aleatórios – até que carreguei num que fez com que o Floyd se activasse e começasse a disparar ao meu comando. Fiquei muito feliz – podia participar no jogo e ajudar o meu irmão a vencer os maus. É este o género de momentos que me lembro… (e, se me lembro, é porque me marcaram – não sou daquelas pessoas que sabem o que almoçaram anteontem).

2 – Que pessoa(as) mais te influenciaram na tua vida?

É difícil evitar a resposta “família” nesta pergunta. Na verdade, acho que há mais coisas que  me influenciaram do que pessoas em si. Como a regra de ouro do Confucius.

3 – O que é que nos aproxima e afasta enquanto seres humanos?

Magnetismo. Temos um lado que aproxima e outro que afasta, depende para qual estamos virados quando saímos da cama.

“A fotografia e a partilha tornaram-se democráticas. Os bons fotógrafos continuam a ser bons fotógrafos, a diferença é que agora há mais, porque tornou-se fácil para cada um descobrir e explorar o seu potencial.”

4 – A evolução digital revolucionou a forma como partilhamos o nosso trabalho e como podemos explorar colaborações e novos mercados. De que forma é que esta evolução alterou a noção de fotografar no geral?

Acho que acima de tudo trouxe muitas – muitas – pessoas para a área da fotografia, pessoas que anteriormente nunca se arriscariam a considerar-se fotógrafos. Antigamente, quem fotografava com uma câmara analógica, sabia quão caro iria ser. Era uma coisa séria à qual precisavam de se comprometer para que funcionasse. E muitos não conseguiam singrar. Hoje, muitas dessas pessoas teriam as suas imagens à vista de milhares e talvez conseguissem. E estes milhares que veêm as nossas fotografias, na sua maioria, não são donos de galerias, críticos de arte ou de alguma forma envolvidos nesse mundo – são pessoas de todas as áreas, espalhadas pelo mundo, que no imediato estão a criar o teu sucesso. A fotografia e a partilha tornaram-se democráticas. Os bons fotógrafos continuam a ser bons fotógrafos, a diferença é que agora há mais, porque tornou-se fácil para cada um descobrir e explorar o seu potencial.

5 – O teu estilo poético, com cores pastel, ilusões visuais e elementos surrealistas lembram-me o trabalho de alguns directores de fotografia como Robert Yeoman, Luciano Tovoli (em particular o Suspiria de 1977) ou Rafael Corkidi (em particular o filme Holy Mountain). Gostarias de trabalhar em cinema?

Sim, muito – até porque o cinema foi e é uma das maiores influências no meu trabalho. Por exemplo, o Edward Scissorhands (um filme que devo ter visto demasiado cedo para a minha idade, sendo responsável por alguns pesadelos dessa época) tem umas imagens incríveis do bairro americano onde as pessoas moravam. Acabou por ser isso o que ficou na minha memória, muito mais do que aquelas mãos assustadoras. Hei de fazer filmes que sejam só imagens assim. E sem aquela parte chata do meio onde algo tem que correr mal para que depois acabe bem. Aliás, sem grande mal e sem grande bem, estórias simples que se concentram muito mais na imagem do que na narrativa.

6 – Algumas das tuas fotos lembra-me uma parte especifica do filme “Dreams” do Akira Kurosawa, em que o protagonista entra dentro de um dos quadros de Van Gogh e conhece o próprio pintor no seu “universo”. Isto porque o teu trabalho me parece bastante “vivo” e em “movimento”. Nunca pensaste desenvolver a tua arte em motion design? Ou colaborar com um escritor e criares uma espécie de comic book com fotografias?

A minha mente estava mais vazia antes desta entrevista. Não pensei nessas possibilidades. Embora seja designer de formação, não sinto vontade de misturar esses dois mundos. Agora, um comic book com as minhas fotografias – isso sim já me agrada. Fico à espera de propostas.

“Há uma ideia de utilidade – “não faças artes porque não vais ser artista” – a ideia de que algumas disciplinas são úteis e outras não. E assim podemos estar a negar a descoberta das pessoas do seu potencial, quer estejam interessadas em ciências ou artes.”

7 – Hayao Miyazaki em grande parte dos seus filmes retrata diversas fases das estações do ano, focando-se nas suas cores para lhes dar personalidade, funcionando esse elemento como uma componente de um personagem vivo. Quando fotografas uma paisagem também consideras que seja um elemento vivo? Qual a principal diferença caso tenhas uma pessoa no plano a nível de preparação?

Quando escolho o que e como fotografar estou à procura de uma coisa imediata: puro prazer visual. Para mim, começa por aí. Se está vivo ou morto, passe a expressão, não é propriamente uma preocupação. É muito do que os filmes de Miyazaki me trouxeram: são estupidamente bonitos, com esquemas de cores e elementos que nos trazem aquela sensação feel-good. Há um sentido nos tons usados que nos ajuda a moldar a sensação que temos – e que querem que tenhamos – ao ver cada imagem.

E não há grande diferença na preparação, mas se for uma pessoa a passar na rua em frente, tenho que ser rápida, ao contrário de uma paisagem. Ou então tenho que esperar que alguém passe outra vez.

8 – Numa entrevista anterior disseste que antigamente capturavas o que vias e agora capturas o que pensas. O que capturas agora tem uma componente mais estratégica e uma narrativa mais fundamentada do que anteriormente?

Na verdade quando disse isso estava numa fase em que as minhas fotografias eram muito menos representativas e reais do que agora. Acabei por desenvolver o meu trabalho de forma a continuar a capturar o que vejo, mas a trabalhar posteriormente cada imagem para que se torne algo ligeiramente diferente. Algo que existe mas que ao mesmo tempo não bate certo. Eis que entra a ideia do cinemático.

9 – O surrealismo está presente em vários das tuas obras. Consideras essencial esticarmos a nossa mente para diferentes realidades?

Não. Tudo depende. É essencial para uns, não para outros. Considero essencial que cada pessoa use grande parte do seu tempo disponível para aprender e aprofundar aquilo que gosta ou quer fazer bem. No meu caso, foi importante. Quando comecei a fotografar com o telemóvel fazia edições surrealistas muito literais que acabaram por não ser o que queria fazer. Mas sempre gostei da sensação de estranheza/fantasia e por isso fui trabalhando nesse sentido, até chegar a um efeito muito mais subtil que me enche as medidas.

10 – De que forma é que vês o panorama actual do ensino das artes em Portugal? O que achas que deve mudar ou ser acrescentado?

Não me focaria no ensino das artes, mas no ensino em geral. Temos um sistema de educação antigo que funciona como um processo industrial focado em produzir certos tipos de pessoas. Há uma hierarquia muito clara, onde certas disciplinas são vistas como sendo muito mais importantes do que outras, e eventualmente uma separação total das áreas. E como efeito acaba-se por excluir ou desconsiderar uma série de crianças e jovens que são interessados por essas matérias. Há uma ideia de utilidade – “não faças artes porque não vais ser artista” – a ideia de que algumas disciplinas são úteis e outras não. E assim podemos estar a negar a descoberta das pessoas do seu potencial, quer estejam interessadas em ciências ou artes. Acabamos por dividir estas disciplinas porque achamos que são totalmente diferentes e não pensamos como o processo criativo pode ser o mesmo – que a aprendizagem de uma pode trazer vantagens à aprendizagem da outra. Quando sabemos que precisamos de pessoas criativas e inovadoras nas economias emergentes porque a tecnologia está a avançar mais rápido do que nunca, a população a crescer e há uma exploração extrema dos recursos naturais da terra, não estamos a pensar nos nativos digitais que estão nas nossas escolas e a prepará-los. Em vez disso, continuamos num modelo antigo criado para as economias do passado.

11 – O Willy Wonka de Gene Wilder é um ser algo maníaco, insano e psicótico, enquanto o de Johnny Depp é mais goofy e cómico. Com qual dos dois te identificas mais e porque é que este personagem é tão relevante para ti?

Felizmente não me identifico pessoalmente com nenhum, mas a ideia de ter uma fábrica de chocolates parece-me um excelente projecto de vida.

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