Sara Feio

Ilustração por: Mariana Cáceres

Entrevista por: João Miguel Fernandes

Ocupação: Ilustradora

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1 – Fala-me de algumas pessoas que mais te tenham influenciado na tua vida.

A minha avó, sem dúvida. Quando era miúda andava sempre entre os bastidores, porque a minha mãe me levava para o trabalho, ou então em casa da minha avó, porque os meus pais trabalhavam durante o fim de semana e então ficava lá muitas vezes. Ela era professora de arte, então tinha sempre vários livros de arte e materiais para fazer colagens.
A minha avó tem o chão da sala num material fácil de desenhar em giz, parecido a azulejo, então deixava-me riscar o chão todo, coisas desse género que estavam sempre ligada às artes.

De um ponto de vista mais profissional, um professor que tive em Londres, o Paul Bowman. Tinha um feitio bastante complicado, assim do tipo do Gordon Ramsay, e influenciou-me bastante. Em Portugal há muito o hábito de se pedir desculpa quando se chega atrasado a uma aula, mas para um inglês isso é impensável. Eles esperam que venhas quinze minutos antes e não te deixam dar desculpas caso chegues atrasado. E esse professor era bastante rígido, não podias falhar em nada. Eu tinha pânico de ir às aulas porque tinha medo de falhar em alguma coisa, mas quando alguém assim elogia o teu trabalho é uma sensação incrível.

2 – Fala-me de um momento da tua vida que tenha sido particularmente desafiante.

Voltar para Portugal foi um grande desafio. Não voltei propriamente porque quis, apesar de ter sido uma decisão minha, voltei por causa de familia.
Até há pouco tempo estive sempre a questionar se não era altura de voltar para Londres. Eu gosto muito de Lisboa, há coisas incríveis aqui, a parte social, o facto de ser tudo mais acessível, visto que é a cultura em que nasci, mas Londres dava-me algo profissionalmente que não consigo aqui.
A primeira pergunta que os meus amigos que vivem em Londres me fazem quando lá volto é a que exposições é que tenho ido, enquanto cá em Portugal não me costumam perguntar isso e é algo que sinto falta, essa comunicação por vezes mais cultural.
Há pessoas incríveis em Portugal, muita coisa a acontecer, mas em Londres, obviamente, há mais desafios, é um mercado diferente, são realidades diferentes.

Em Portugal há um grande orgulho popular na área musical, mas a ilustração e a fotografia são fenómenos recentes para as massas (as artes visuais), em Londres essas duas áreas são valorizadas há bastante mais tempo.
As pessoas estão mais interessadas e curiosas em Portugal, as coisas estão a acontecer, mas naturalmente ainda não temos os mesmos hábitos e interesse que países como a Inglaterra, por exemplo.

3 – Achas que a crise económica em Portugal fomenta, de certa forma, a produção artística? Achas que as pessoas arranjam outros meios quando estão mais limitadas?

Acho que quanto mais te castram mais necessidade tens de te expressar, ou seja, tens que arranjar uma forma mais criativa de te expressares. Isso é interessante, a crise não é necessariamente uma coisa má criativamente.
Se calhar tens momentos em que não podes investir em materiais “xpto”, mas podes usar materiais reciclados ou outras alternativas que impulsionam a tua criatividade.
Não é por acaso que houve um grande boom criativo na música em momentos de crise. É bom não andar a viver num mundo viciado em que quem tem muito dinheiro é que gere a área criativa.

4 – Se mandasses em Portugal o que fazias?

A nível cultural, tens um número gigante de turistas a virem a Lisboa por ser a cidade que é e ter as coisas que tem, mas não há investimento suficiente na cultura genuina da cidade. Não é só lojas gourmet ou hamburgarias artesanais que devem abrir em Portugal, isso há em todo o lado. É bom viajarmos e conhecermos outras coisas, mas é bom termos orgulho na nossa identidade e apoiar os nossos artistas.

Noutros aspectos mais políticos, não vejo porque é que é sequer uma opção discutir aquilo que considero direitos humanos básicos como a adopção de crianças por parte de casais homossexuais, mudança de sexo ou outros tópicos que dizem respeito às vidas individuais de cada um como o aborto. Como é que é melhor ter crianças em instituições muitas vezes sem condições, do que ter dois pais ou duas mães que os vão amar, educar e proteger? As pessoas têm medo da mudança, mas muitas vezes a mudança é uma coisa positiva.

“Não quero ficar parada só na ilustração enquanto desenho, gosto de explorar outros caminhos. Eu considero-me ilustradora porque acho que é um termo muito abrangente que não se contém apenas no desenho.”

5 – Achas que o conceito de agência tem sentido ou o artista pode fazer o mesmo trabalho que uma agência?

Eu acho que uma agência é muito importante, mas dentro do bom senso, ou seja, se vais ser agenciado por alguém que vai levar 50% de tudo o que tu fazes, acho que não compensa. Acho que uma agência consegue e tem tempo para chegar a sítios onde tu podes não ter tempo, tendo em conta que és um artista queres ter foco no teu trabalho e falo por experiência própria, porque eu perco muito tempo em burocracias.
Além disso, pode dar azo a alguma frustração, porque se recebes muitos “nãos” começas a ficar desmotivada, enquanto uma agência trata de tudo isso e facilita o teu trabalho.
Não conheço muitas agências em Portugal que façam um trabalho com a mesma qualidade que lá fora, possivelmente porque cá não há uma procura tão grande como lá fora e os valores não compensam.

6 – Como é que a ilustração nasceu em ti? Como é que decidiste que querias ser ilustradora?

Não sei se alguma vez decidi ser ilustradora, sempre fui uma pessoa muito indecisa. Acho que nunca decidi isso completamente, embora tenha estudado ilustração e sempre desenhei. Sempre fui muito boa nas aulas de artes visuais e menos boa a decorar, portanto isso ajudou-me a seguir um caminho.
Eu estudei na António Arroio durante um ano e meio e na ETIC. Nessa altura estava indecisa entre audiovisuais e design gráfico, mas como tinhas que escolher uma área especifica de audiovisuais, acabei por escolher design gráfico, porque sabia que não me conseguia comprometer a algo tão especifico como, por exemplo, apenas video. Depois acabei por fazer bastante ilustração dentro desse curso e quando surgiu a possibilidade de ir estudar para fora candidatei-me a Amesterdão e Londres. Quando visitei Amesterdão achei que a cidade era muito pequena, do tamanho de Lisboa e eu queria algo mais caótico, então escolhi Londres.
Um dos problemas que encontrei em Londres quando tentei ser agenciada é que eles procuravam pessoas que soubessem fazer algo especifico e eu trabalho em várias áreas artísticas. Uma das respostas que recebi na altura foi que não lhes compensava promoverem o meu trabalho porque iam gastar muito dinheiro a promover as várias coisas no qual eu trabalhava. Não me consegui encaixar muito bem por não ter apenas uma área, mas isso faz parte de mim, é como eu sou, não consigo estar quieta e fazer apenas uma coisa.
Não quero ficar parada só na ilustração enquanto desenho, gosto de explorar outros caminhos. Eu considero-me ilustradora porque acho que é um termo muito abrangente que não se contém apenas no desenho.

7 – Fala-me um pouco da tua experiência em Los Angeles/Hollywood.

 

Depois do curso na ETIC, tínhamos a possibilidade de fazer um estágio de 3 meses em algum sitio e através de uma rapariga que trabalhava em dobragens com a minha mãe, consegui um estágio numa empresa que fazia, basicamente, todos os moopies de Harry Potter, Spider Man, etc. Esse estágio acabou por não ser oficial, porque nessa altura os estágios lá tinham que ser pagos e isso implicava um visto que era bastante complicado de obter, então acabei por ir com visto de turista e fiquei em casa de uma amiga da minha mãe que morava perto de Venice Beach.
Eu tinha cerca de 18/19 anos quando fui para lá e essa foi a minha primeira experiência a sério a viver fora do país e odiei tudo. Primeiro detesto andar de carro, adoro andar a pé, e LA não é feita para andar a pé. Qualquer estrada normal é uma avenida grande e as coisas estão muito longe, além de que era uma cidade perigosa para alguém tão novo fazer a pé. Em segundo lugar estava sempre dependente de alguém que me desse boleia, não consegui descobrir a cidade como queria e odeio estar dependente de alguém e ali estava sempre dependente. Outra coisa é o facto de em Portugal estar habituada a sair e a beber e ali, como tinha menos de 21 anos não podia entrar em lado nenhum, apesar de lá terem discotecas especificas para maiores de 18 anos, mas na verdade eram só miúdos de 16 anos com BIs falsos.

A nível cultural/social achei que estávamos muito à frente deles, havia muita gente a meter conversa comigo em vários sítios, mas no geral era conversa sem qualquer interesse. É uma cidade onde estas dependente de quem conheces ou quem queres conhecer e isso não me agradou.
Por sorte conhecia dois brasileiros em São Francisco e fui lá visitá-los e adorei, achei a cidade bastante relaxada e parecida a Lisboa.
Em relação ao estágio em si não tirei grande coisa, porque não estava muito motivada. As coisas mais positivas foram mesmo o facto de ter visitado São Francisco e de ter ido em tour com uma banda emo de um gajo que trabalhava comigo.

“Falta as pessoas descontraírem mais e deixarem de ter medo que os seus trabalhos sejam roubados, devem haver mais trabalhos em equipa.”

8 – Tens vários trabalhos na área de ilustração cientifica. Isso é algo que gostas verdadeiramente ou tem acontecido por acaso?

 

Há alguns anos atrás comecei um mestrado em Belas Artes, mas achei a faculdade bastante mal organizada, e decidi procurar outra coisa. Acabei então por fazer um curso com o Pedro Salgado, que é um grande nome da ilustração cientifica portuguesa, e com o qual adorei aprender. Quem me falou do curso foi a Cláudia Guerreiro que me mostrou alguns desenhos e acabei por gostar imenso.
Depois acabei por fazer alguns projectos relacionados com pesquisa, que é algo que gosto de fazer. Em ilustração cientifica tens que investigar, pesquisar e acho que esse processo me ajudou bastante.
Acho que há uma grande qualidade em Portugal para a ilustração cientifica, muito graças ao Pedro Salgado.

9 – Como é que foi o desafio de Pernas de Alicate? Tendo em conta que mistura a música com a ilustração, algo bastante inovador.

 

Acho que não é assim tão inovador quanto isso. Há vários projectos que fazem isso, como os Octa Push, no teatro também é muito comum misturarem ambas as artes com projecções. O que achei novo no projecto foi o processo de colaborações rotativas. É muito raro haver um projecto onde é um baterista que convida outros músicos, além de que a parte visual é bastante independente.
No geral foi um grande desafio, por vezes mais frustrante para mim que para o BB porque tens várias revistas focadas na música, mas que ignoram a parte visual e isso foi complicado de processar no inicio. É óbvio que não preciso de ser o foco, mas há que entender que a ilustração neste projecto era uma parte tão importante como a música. O problema é que acho que existem poucas revistas viradas para a parte visual, ou falam apenas de street art (que é uma área incrível) ou em arte mais erudita e contemporânea com um grande conceito.
Gostava que o lado visual do projecto tivesse chegado mais às pessoas para ter mais críticas e aprender mais como crescer.
Mas foi incrível para colaborar com outros artistas, alguns bastante diferentes. Foi um desafio misturar a música com a imagem, mas a parte burocrática também. O BB fazia a música, eu fazia a ilustração, mas depois havia o site, as redes sociais, os textos, e isso ocupou bastante tempo. Tivemos a sorte de ter muito apoio por parte de muita gente, mas gostávamos de ter tido mais tempo para nos concentrarmos na criação.
Foi interessante perceber um pouco mais da realidade da música e entender que as vezes os projectos falham não por falta de talento, mas porque a via não foi a mais correcta.

10 – Achas que o panorama nacional da ilustração está a melhorar?

 

Acho que há pessoal novo com muita qualidade e o panorama nacional teve um enorme boom nos últimos anos. Portugal está a ter o seu momento, principalmente graças a street artists como Vhils e ± maismenos ±, que têm levado o nome de Portugal a todo o lado, ou ilustradores que se internacionalizaram como o André Carrilho e o Braulio Amado.
Mas continuo a sentir falta de massa crítica criativa, que não seja só no circuito de Belas Artes onde o nome importa bastante. Antes de mais acho que a parte visual tem que comunicar algo, mexer contigo, seja bom ou mau, se não mexer não vale a pena. Os trabalhos não deviam ser o artista, deviam falar por si. Devia trocar-se mais dicas técnicas, debate aberto, não só para dar palmadinhas nas costas uns dos outros, mas para evoluírem tecnicamente e a nível de conhecimento. Não há nada de mal de te juntares com pessoas que admiras e aprenderes com elas. Por mais que tentes aprender as suas maneiras de trabalhar não quer dizer que lhe vás roubar o estilo, o conteúdo vai ser sempre diferente, por mais que uses a mesma técnica.

Falta as pessoas descontraírem mais e deixarem de ter medo que os seus trabalhos sejam roubados, devem haver mais trabalhos em equipa. Sinto que essa é uma das razões pela qual um pais como a Inglaterra funciona tão bem criativamente, porque as pessoas se juntam, criticam-se abertamente de forma a evoluir, sem medo. Era importante também discutir-se valores e orçamentos.
De resto, acho que as pessoas têm feito trabalhos incríveis e sinto que de momento há uma grande divulgação da ilustração nacional. Deixou de haver aquela ideia que só os artistas de fora é que são bons.
Sou muito fã dos trabalhos do André Carrilho, da Susa Monteiro, da Mariana Cáceres e do André da Loba, mas há muitos outros ilustradores incríveis em Portugal.

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