Rui Pêgo

Ilustração por: Mariana Cáceres

Entrevista por: João Miguel Fernandes (originalmente publicada em 2014)

Ocupação: Apresentador de TV e Rádio

Clica aqui para leres a entrevista em Inglês


1 – Que pessoa é que te influenciou ou marcou mais na tua vida?

A Gisela Serrano, mas infelizmente ainda não a conheci. Agora a sério, eu não tenho ídolos, não tenho um prato favorito, nem uma banda favorita. Tenho alguma dificuldade em escolher uma pessoa que me tenha influenciado muito. Há pessoas que acho incríveis, como o Jon Stewart, o Stephen Colbert, o Jimmy Kimmel, isto do ponto de vista profissional. Em Portugal gosto imenso do Eládio Clímaco, do Bruno Nogueira… Talvez o António Sala também.
Do ponto de vista pessoal é fácil dizer os meus pais, porque gosto deles e porque foi simpático terem-me feito. De resto não tenho uma pessoa especifica.

2 – Fala-nos de um momento da tua infância que te tenha marcado.

Não sei se posso falar sobre isso, tenho que guardar algo para a minha biografia (risos). Quando tinha oito anos fui convidado para apresentar pela primeira vez algo na minha vida. Levaram-me para o Mundo Vip, o programa do Paulo Pires e da Filipa Garnel, e disseram-me que ia fazer uma reportagem. Então fui com a Ana Marques para o Alentejo entrevistar crianças. Lembro-me que fechei a edição a achar que já sabia fazer aquilo e que era aquilo que queria fazer para a minha vida.

3 – Tendo em conta o momento de crise actual em Portugal o que farias para mudar algo?

Fazia com que as pessoas não se levassem tão a sério. Matava a EMEL, porque acho que são responsáveis por grande parte dos nossos males. Tinha que arranjar um mecanismo qualquer para que as pessoas fizessem uma piada que considerassem ofensiva por dia. Acho que as pessoas têm que se libertar mentalmente.

4 – Fala-nos um pouco da tua experiência no Curto Circuito.

O Curto Circuito foi muito divertido de fazer, embora tivesse sido também assustador porque quando ganhei o casting tinha apenas dezanove anos e uma trombose, porque falava muito como um beto. Foram três anos de uma certa violência, porque foi todos os dias e tinhas que lidar com um target que era muito volátil e opinativo. Adorava fazer o Curto Circuito porque tinha uma vertente call center, podiam ligar as pessoas mais absurdas e isso deixava-me mesmo contente. Gostava muito do imprevisto das chamadas, de não termos nada escrito.

Tenho mil histórias engraçadas. Uma vez começámos a ligar a webcams e vimos um asilo estranhíssimo. É muito difícil sintetizar a experiência de três anos em poucas palavras. Foi muito bom porque me tornou muito mais seguro e melhor comunicador. Sinto que o Curto Circuito foi o liceu e a rádio a faculdade.

“(…)adorava fazer o Elo Mais Fraco ou o Secret Story, porque adorava dizer o que quisesse. Dava uma missão aos concorrentes que era fechar toda a gente numa cave e lerem Proust. O que mais me interessa é brincar com as percepções das pessoas, porque são todas muito sérias.”

5 – Como é que tem sido a tua experiência na rádio? Achas que a rádio tem tido um papel mais fulcral na divulgação cultural?

Eu nunca achei que fosse fazer rádio, achava que não tinha voz para isso. Sempre “fui mais televisão” porque penso muito em imagens, não achava que a rádio fosse o meu meio. Depois fui fazer um estágio para a Radar e fui tentar perceber se tinha jeito para a coisa. Comecei a ir a concertos, promover bandas, de repente surge a Vodafone e o panorama musical cresce, fica mais rico. Não há aquela coisa da ditadura do gosto, há vários tipos de rádios. Acho que Portugal está vivo em vários pontos, desde o pop ao indie. Sempre achei que havia espaço para as pessoas mostrarem a sua música. A rádio criou uma indústria que não sei se existia antes.

6 – Estiveste em Direito, Comunicação, agora História. A que se deveu tanta indecisão?

Eu fui forçado a ir para Direito, porque os meus pais achavam que era um curso que valia a pena. Comunicação era um curso muito incipiente, os meus pais achavam que não me dava uma grande vantagem. Eles achavam que eu queria ser jornalista, mas eu queria ser palhaço. A minha experiência em Direito foi horrível, eu detestava aquilo. O primeiro ano do curso coincidia com o ano em que entrei no Curto Circuito, portanto tinha uma coisa que adorava e outra que odiava. Sei que podia ter acabado o curso, mas não quis. Depois fui para Ciências da Comunicação na Lusófona, que foi também uma experiência menos positiva. Lembro-me de numa aula tentarem explicar o que era a Sic, aí achei que tinha que ir embora. Decidi então voltar a fazer os exames nacionais, fui ter aulas de Português e de História, com miúdos bem novos e fiz os exames nacionais, mas não tive a média que queria para Comunicação na Universidade Nova. Então entrei para História e continuei a trabalhar. Podia tirar um ano para acabar o curso, mas acho que de momento seria uma decisão errada.

7 – Achas que com a internet a televisão vai conseguir subsistir nos próximos anos?

 

Acho que a televisão vai morrer. As audiências já não são tão expressivas como eram. Actualmente ainda não temos maneira de produzir conteúdos apenas para a internet, mas esse seria o meu maior sonho, ter liberdade total. Embora isso seja utópico, porque dependes sempre de um financiamento. Em Portugal só tens liberdade completa quando tens autonomia financeira. Para já, como somos lentos a assimilar as mudanças de fora, acho que ainda vai demorar um bocado, a televisão vai continuar igual, mas penso que não vai demorar muito tempo.

8 – Se pudesses escolher um programa para apresentares como seria esse programa?

 

Primeiro queria ter autonomia total para chatear quem me apetecesse. Acho que faz falta que existam vozes diferentes. Há uns que dizem mal de tudo, depois há outros que dizem mal de algo especifico, mas que ninguém conhece ou vê. O meu sonho era ter um programa de canal aberto em que pudesse ser o mais mordaz possível. Adorava fazer um Daily Show, o problema é que em Portugal não há actualidade politica para existir um programa diário dessa natureza. Existe o “Inferno”, mas é muito complicado arranjar piadas diárias. Ou então, adorava fazer o Elo Mais Fraco ou o Secret Story, porque adorava dizer o que quisesse. Dava uma missão aos concorrentes que era fechar toda a gente numa cave e lerem Proust. O que mais me interessa é brincar com as percepções das pessoas, porque são todas muito sérias. Eu não me revejo na maioridade dos jovens da minha geração. Acho que não existem figuras nem programas que compensem fazer download, isto em Portugal. Gostava muito que isso existisse e de contribuir para isso.
Acho que RTP e a RTP 2 há imensa variedade de conteúdos e isso é muito importante. Devia era haver mais variedade de outras coisas.

9 – Como é que tem sido a experiência no The Voice Kids?

 

Tem sido muito giro, não estava à espera que as crianças fossem tão incisivas. As crianças são muito espontâneas, mas também podem ser cruéis. Já entrevistei crianças maléficas (risos), e acho muita piada a isso. Nunca sei bem o que vou encontrar, há tudo e mais alguma coisa, o que é bastante positivo, não é previsível. As crianças lidam bem com o “não”, os adultos acham que aquele programa lhes vão garantir uma carreira, mas aquilo dura só uns meses, salvo algumas excepções. As crianças não têm isso, querem apenas cantar e divertir-se e isso conquista o meu respeito.

“Acho que assim como a música está a ter um grande crescimento, existem também muitas revistas online, blogs, que dão espaço para que a comunicação possa também crescer. O problema é que funcionam quase todos na base da boa vontade, nada é pago. Toda a gente em Portugal funciona à base da borla, estão sempre à espera que faças tudo sem receber e isso chateia-me muito, porque é uma grande desconsideração pelo teu trabalho.”

10 – Achas que os programas como The Voice Kids podem realmente potenciar algum talento futuro?

 

Acho que o mercado discográfico português é muito frágil para crianças de doze anos. Podem ter visibilidade suficiente para mais tarde conquistarem espaço, mas enquanto crianças é sempre mais complicado. Espero que isso lhes dê força para conquistarem o seu sonho, mesmo que não de forma imediata, mas que no futuro alimentem esse sonho. O sonho não acaba aqui, mas amanhã eles têm que ir para a aula de matemática.

11 – Relativamente à viagem ao Cambodja, Laos e Vietname, como foi para ti essa experiência?

 

Quando cheguei a Ho Chi Minh achei que tinha aterrado num filme pornográfico, porque era tudo muito bonito. A cidade tem uma sensação meio pornográfica. Dormi com uma familia no interior, fui gozado porque queria cozinhar e a mulher quis por-me fora de casa.

Achei o Cambodja muito deprimente, porque a pobreza é diferente de África. Há mangas a cair do céu, mas eles estão viciados no dinheiro dos turistas. Há imensas crianças a pedirem-te dinheiro, houve uma miúda que foi atacada por crianças. De resto gostei muito dos templos. No Cambodja vivi uma experiência fora do comum. Iamos num tuk tuk para um dos templos e durante essa viagem estava com uma sensação estranha. No caminho vi um camião e entretanto parámos porque estava a chover muito e a senhora baixou o plástico para que não ficássemos encharcados. Nisto passou por nós uma mota e nós retomámos o caminho. De repente o tempo pára e o camião começa a descarrilar e a varrer o homem que estava à nossa frente na mota e a esmigalhá-lo. Foi um choque, porque tive a perfeita noção que se não tivéssemos parado tínhamos sido nós.

O Laos é incrível. Tens bares a tocar Rihanna e a servirem gin, há droga em todo o lado, isto no meio de um vale. O Laos é o sitio mais bonito da terra, não me importava nada de viver lá, pontualmente claro.

12 – A comunicação é um meio muito competitivo em Portugal. Achas que há espaço para tantos jovens trabalharem cá ou temos objectivamente que sair daqui?

 

Acho que assim como a música está a ter um grande crescimento, existem também muitas revistas online, blogs, que dão espaço para que a comunicação possa também crescer. O problema é que funcionam quase todos na base da boa vontade, nada é pago. Toda a gente em Portugal funciona à base da borla, estão sempre à espera que faças tudo sem receber e isso chateia-me muito, porque é uma grande desconsideração pelo teu trabalho. Acho horrível que se espere que o teu trabalho não valha nada. Acho que a comunicação não gera dinheiro suficiente. As rádios têm que apontar para o pop, porque é o que gera mais dinheiro do ponto de vista comercial.Tenho a sensação de que tem tudo a mesma voz, têm todos o mesmo discurso.

Os meus pais sempre me disseram que tinha que ir embora, eles que têm carreiras incríveis em Portugal, carreiras essas que foram feitas numa altura que não é a nossa. Não sei até que ponto o que tenho hoje é volátil. Deixo a porta de emigrar aberta para mim e acho que toda a gente deve considerar essa hipótese. Ir lá para fora constrói-te como pessoa. E depois há aquela ideia de que se estiveste lá fora então se regressares és o maior, o que é ridículo.

13 – Se tivesses que escolher um artista para musicar um filme qual seria esse artista e qual seria o filme?

 

Eu adorava que a Rosinha musicasse um filme do Haneke. Adorava ver “O Laço Branco” com a música “Eu tenho um andar novo”. Eu adoro violentar as considerações das pessoas. Se fosse possível eu chorava, ia adorar. Também era uma forma de se chegar a outro público, os pimbas iam ver um filme de culto e o pessoal do cinema ia conhecer melhor o pimba. Também se podia misturar o Miguel e André com um filme do Cronenberg.

Acho que ainda há poucas rádios e televisões que apostem em algo mais irreverente. Acho que a RTP deve ter esse papel, devem promover todo o tipo de vozes. Sei que tentam fazer isso, mas falta mais um pouco. Haver um programa como 5 para a Meia Noite às 23h num canal aberto é uma grande vitória.

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