Ricardo Martins

Ilustração por: Zé Pedro Fernandes

Entrevista por: João Miguel Fernandes

Ricardo Martins Matéria Negra Illustrated Interview

Ocupação: Baterista e Designer

Clica aqui para leres a entrevista em Inglês


1 – És baterista de mil e um projectos de vários estilos diferentes, como é que organizas o teu processo criativo e todos os ensaios? Segues uma agenda rigorosa para tudo o que fazes?

Para mim música é linguagem, daí os vários estilos. Acho que nunca deixo de ser aquilo que sou, mesmo que esteja a tocar noutros sítios acho que é só uma versão ligeiramente diferente daquilo que eu sou. Quanto à agenda, nem por isso. Acabo por não ter uma agenda super rigorosa, tenho bastante cuidado para não cruzar ensaios, mas basicamente tenho os dias sempre todos preenchidos. Há dias fixos, dependendo das bandas e o resto é tentar organizar a semana, Domingo é dia de olhar para a agenda e planear a semana. Eu toco todos os dias, seja ir à garagem só para tocar ou para dar aulas e uso isso como desculpa para tocar um bocado e estudar algumas coisas, mas a maior parte dos dias passo na garagem para tocar pelo menos uma hora, se assim não for então produzo música em casa.

2 – Além de músico és designer e co-fundador da Desisto. Tem sido fácil conciliar a música e o design/tipografia?

A Desisto trabalha como estúdio de design, além de fazer autoedição, workshops, etc, mas é um estúdio onde trabalhamos tudo, no melhor que conseguimos, dentro de uma espécie de 9 às 5. Não é fácil conciliar, muitas vezes não tenho fins de semana livres e é bastante intenso, mas não é nada que não se consiga gerir e é uma coisa que nós gostamos de fazer e então é algo que, sinceramente, não penso muito. Às vezes podemos trabalhar das 10 da manhã à meia noite. Eu e a Margarida damos aulas também, portanto entras neste ciclo viciante e já não faz tanta confusão trabalhar tanto. Nem sempre é fácil de gerir isto, por exemplo nas fases em que eu estou a fazer mais música para teatro, que é uma área muito exigente a nível de ensaios e mais difícil de coabitar com as outras realidades. Tirando isso tem sido um desafio, mas nada extremamente complicado. É preciso também saber tirar férias e aproveitá-las, principalmente por causa da saúde mental, algo que na nossa geração por vezes é esquecida, é muito fácil estar a trabalhar sem pausas durante um mês ou dois.

Exacto, é um desafio constante, mas no qual é importante saberes equilibrar o descanso e o trabalho. No teu caso é um desafio porque o teu trabalho é quem tu és, algo que tu gostas mesmo muito de fazer.

Pois, exacto, eu escolhi ser o meu patrão e adoro. Trabalho maioritariamente em música e design e com isso vem muita coisa boa, foi acertado, foi aquilo que eu precisava.

“Dentro do underground vais sentindo que vais criando pequenas famílias, então o pessoal ajuda-se de outra forma, apesar de não achar que fora do underground as coisas sejam especialmente desligadas, é apenas outro tipo de relação, a proximidade é um bocado diferente.”

3 – Achas que teres estudado na António Arroio foi fundamental para ti enquanto artista? Tanto como músico como designer?

Definitivamente. Mas curiosamente ajudou-me muito como músico. No fundo foi onde conheci as pessoas com as quais faço música. Por exemplo, o Óscar foi meu colega (Jibóia), o Cláudio também (Cangarra). Eu comecei a fazer música com o Filipe Felizardo, o Cláudio, o Óscar e o Guilherme Canhão, com o qual fiz logo Lobster a seguir, ou seja, isso vem tudo da António Arroio. O design foi algo que descobri muito mais tarde, eu andei meio perdido, fiz som, fiz ilustração e a certa altura, para aí já com uns 28 anos descobri o interesse pela tipografia, pelo design e foi aí que eu entrei de pés juntos nessa área. A António Arroio valeu por todas as ligações e amizades que fui construindo e fazendo, amigos com os quais tenho prazer de fazer música.

4 – Viveste em Barcelona, um enorme pólo cultural. Como foi a tua experiência?

Eu fui para Barcelona terminar ilustração, ficar por 6 meses, era o plano inicial. Entretanto quis entrar num mestrado de design e depois fiquei a trabalhar num estúdio e acabei por ficar 3 anos. Também tocava com bandas lá, houve uma delas que eu conheci na altura de Lobster, que são os Familia Miranda, do Chile, mas que vivem em Barcelona, e eles estavam à procura de baterista e fiquei a tocar com eles uns dois anos ainda, fizemos umas tours grandes, foi fixe. Acabei por ir para Barcelona e nunca deixar de vir a Portugal tocar com amigos que por cá estavam.

5 – Achas que a evolução digital por parte dos media, como os blogs, por exemplo, estão directamente relacionados com o boom da música portuguesa mais underground nos últimos anos?

 

A internet veio ajudar bastante, as netlabels foram super importantes para nós começarmos a editar música de outra forma e sairmos da garagem com mais rapidez, por exemplo. Os blogs também, qualquer coisa que ajude a difundir aquilo que se está a fazer, ajuda. Em relação ao underground acho que existe uma força e camaradagem que permite às bandas se sentirem confiantes. Dentro do underground vais sentindo pequenas famílias, o pessoal ajuda-se de outra forma, apesar de não achar que fora do underground as coisas sejam especialmente desligadas, é apenas outro tipo de relação, a proximidade é um bocado diferente. A maior parte dos concertos em que tocava no início ou foram organizados por amigos, ou era eu que organizava, o mesmo com as primeiras tours, eu organizava algo para uma banda francesa vir cá e depois eles organizavam para nós lá, então isso faz com que vás criando pequenas plataformas de suporte, que são na verdade amigos que gostam de música, como tu, e que querem estar rodeados dela. Lembro-me que era muito fácil planificar uma tour, porque já sabias com quem tocar em todo o lado, era simples. Concerteza que isto também existe fora da lógica do underground, é só um mundo que eu conheço de outra forma, não sei bem como se processa.

6 – O math em Portugal sempre pertenceu a um nicho, mas há uma certa ideia que fora do nosso país as nossas bandas têm um pouco mais de reconhecimento nesse estilo. Como foi a tua experiência com Adorno, por exemplo?

 

Com Adorno tocávamos muito mais fora de Portugal do que em Portugal. A desculpa com Adorno era viajar, lançar discos, curtir, então fazíamos sempre uma ou duas tours por ano. Fizemos muitos splits e às tantas ganhas relações e amigos que se mantém até hoje, malta super importante para nós. Adorno tocou muito pouco em Portugal. Quando fizémos o concerto 100 (na Sérvia) tínhamos tocado muito, muito pouco em Portugal, nem sei se dez vezes. Aconteceu o mesmo com Papaya, assim que começou fizemos logo uma tour com 14 datas internacionais e só uma em Portugal. Era um bocado uma desculpa para nós sairmos todos os verões. Tenho algumas saudades de fazer isso, até se está a falar de se planear algo do género este ano, porque apesar de ter feito tours nos últimos anos isso não tem acontecido com tanta regularidade.

7 – Alguma da tua música pode ser caracterizada como caótica, no bom sentido. Sentes-te bem no meio desse caos? É algo que procuras conscientemente ou sai-te naturalmente? E por que razão?

 

Eu sou um bocado caótico ahah, há uma intensidade que eu gosto de pôr na música e isso pode ser caótico ou ser confundido com caos. Acho que nos últimos anos aquilo que eu me tenho concentrado um bocado tem sido em dosear esse caos, essa intensidade. No início, com Suchi Rukara, por exemplo, era algo muito visceral, era assim e eu não tinha grande controlo, era muito a minha identidade. Depois ao longo do meu percurso fui tentando trabalhar, polir coisas que funcionavam menos bem, para que não existissem tanto. Eu sinto as coisas de uma forma que passa para a música e passa com essa intensidade difícil de dosear, mas que não quero nada perder. A música que tenho desenvolvido para teatro não assenta tanto nessa lógica, ou a música que estou a desenvolver em Pop Dell’arte por exemplo, não acho que seja assim tão visceral ou descontrolada, esse caos ganhou maturidade. Sinto sempre que é mais fácil teres em excesso e cortares do que não teres e ser preciso. E acho que isso foi um bocado o meu caminho, no início tentas puxar os limites de tudo. Lembro-me de sair de certos concertos, ao início, em exaustão total, meio tonto, porque queres dar tudo e não havia filtro. Depois com o tempo fui percebendo o que queria e hoje em dia não tenho interesse em provar nada, de ter que tocar muito rápido ou super intensamente, sai o que tiver de sair.

“É cada vez mais importante haver apoios para te estimular caminhos que ainda não conheces, a criatividade, e eles podem não ir dar a lado nenhum. Gosto muito da lógica de procurar, procurar, e no fim até posso não encontrar nada, mas o caminho da procura é bastante importante.”

8 – Fala-me de uma memória da tua infância que te tenha marcado.

 

Pá, eu fui daqueles putos de brincar na rua, sempre a subir a coisas e a cair, a jogar à bola e a brincar num olival que tinha por perto. É disso que me lembro maioritariamente.

9 – Fala-me de uma pessoa ou várias pessoas que te tenham marcado.

 

No campo pessoal o meu avô. Eu não tive uma relação muito proxima com ele, apenas no final, mas foi uma pessoa que mexeu bastante comigo e do qual tenho muito boas recordações e saudade. Ele teve um passado tramado e depois conseguiu libertar-se e renasceu de forma bastante bonita e eu estava lá nessa altura e foi muito importante para mim. No campo profissional é a equipa que eu fui conseguindo construir com a Margarida, que se mistura com o campo pessoal (no papel de minha pessoa favorita!), mas de repente tens aqui um duo dinâmico e ela inspirou-me bastante ao inicio e continua a inspirar no design. Acho que as pessoas que me são muito importantes estão relacionadas com a minha área profissional e pessoal, é como dizias há bocado o facto de fazer música e ser a minha profissão e hobbie ao mesmo tempo faz com que vá com os meus amigos para a garagem fazer música. A maior parte da malta que faz música comigo hoje em dia começou também comigo em 2001.

10 – Achas que a crise económica em Portugal fomenta, de certa forma, a produção artística? Achas que as pessoas arranjam outros meios quando estão mais limitadas?

 

Não tem que haver uma crise para as coisas poderem florescer, acho que um gajo está sempre em crise. Fazer música e arte em Portugal é estar sempre em crise, muitas vezes só podes contar contigo e quando começas a poder contar com outras coisas e apoios às vezes não queres, isso foi algo que me aconteceu. Acho que é super importante haver apoios à arte e ultimamente isso permite a muitas bandas editar mais, viajar por aí e eu acho isso altamente e se puder ter essa ajuda, brutal, mas também tenho sempre aquela coisa de fazer por mim. Muitas vezes sinto que algumas das plataformas que podem ajudar estão um bocado com as prioridades estragadas e isso também é uma conversa interessante. Há felizmente bons exemplos. Portugal ainda é muito jovem nisto tudo, ainda temos que bater muito com a cabeça. Há muito a ideia de se apoiar projectos para funcionarem, mas para mim fazer música não é fazer algo para funcionar. É cada vez mais importante haver apoios para te estimular caminhos que ainda não conheces, que podem não ir dar a lado nenhum. Gosto muito da lógica de procurar, procurar, e no fim até posso não encontrar nada, mas o caminho da procura é bastante importante. Na música que faço a solo por vezes estou meses a trabalhar numa coisa e depois chegas ao fim, seis meses depois, e não queres ir por ali, voltas ao início e vais por outro lado.

11 – Achas que o panorama na música tem mudado muito nos últimos anos? Secalhar graças à internet?

 

Às vezes perguntam-me qual é a diferença entre agora e, por exemplo, 2005, eu acho que é igual, há bandas super manhosas e projectos incríveis. Felizmente vou sendo surpreendido e nunca perdi a “pica”. Eu nunca estive sem a internet, antigamente fazias as coisas e havia o myspace e ias marcando concertos por aí, mas fazias as viagens de mapa, sem gps, e a diferença é que nessa altura perdias-te um bocado e agora não te perdes e sinto que o facto de te perderes era muito importante. Agora toda a gente tem medo de se perder, porque se deres um passo em falso ele fica para sempre na internet. Se fazes um disco só mesmo para experimentar algo isso vai estar sempre aí e pode ser assustador, quando comecei secalhar éramos mais inocentes, mas de resto é tudo igual.

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