Raquel Laíns

Ilustração por: Joana Mendes

Entrevista por: João Miguel Fernandes (originalmente publicada em 2014)

Ocupação: Comunicação e PR

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1 – Se tivesses que falar sobre uma pessoa que te tenha influenciado bastante quem seria e porquê?

Na parte profissional foi sem dúvida o meu pai, ele era completamente “workaholic”, trabalhava bastante e era muito disciplinado no seu trabalho. Os meus pais trabalhavam juntos e eu vivi no meio disso. Eu trabalho em casa, muitas horas por dia, agora ando a tentar manter uma disciplina para ter alguma vida social. Estive vários meses sem um dia de folga e fiquei duas semanas em casa a trabalhar cerca de dezoito horas por dia. O meu pai gostava muito do que fazia, tal como eu hoje em dia. Não sinto aquela pressão negativa de ter que acordar cedo e ir trabalhar, para mim é uma motivação e alegria, é a minha vida.

Acho que é fácil ser “workaholic” porque gosto muito do que faço. A música diz-me bastante, sinto que estou a viver um sonho. Não tenho folgas, quando paro é para ir a concertos, por isso nunca há uma separação do trabalho. O meu pai era muito perfeccionista e rígido e acho que isso passou para mim. A minha mãe era mais “mole”, influenciou-me de outra forma.

2 – Nunca houve um momento em que tivesses pensado em seguir a música de outra forma?

Estive quase para ser professora de teclas. Eu sou de Leiria, tirei lá o curso, mas não era o que realmente gostava. No último ano tive um acidente e parti o braço, estive nove meses de gesso e já não consegui voltar. Cantei em coros, todas essas coisas em criança, mas tocar a sério foi teclas. Adorava tocar piano, mas ainda adorava mais tocar baixo, tenho um em casa, com amplificador e tudo, mas não tenho tempo. Trabalho demais e fico sem tempo para as outras coisas. Sei tocar uma música dos Kraftwerk e outra dos Dear Telephone, uma das bandas com que trabalho. Quando vou ver um concerto fico sempre hipnotizada com o baixista. O meu baixo foi oferecido pelos meus A Jigsaw, é algo que guardo com grande carinho.

Desde que tive o acidente, com cerca de dezassete anos que deixei de tocar teclas. A minha mãe tem um orgão em casa, em Leiria, e diz-me sempre para leva-lo para Lisboa, mas até hoje ainda não aconteceu. Se fosse um piano o charme era outro, mas perdi a vontade de tocar teclas.

Uma vez toquei pandeireta com os You Can’t Win, Charlie Brown, o Luís não pôde ir, então fui no lugar dele, foi muito divertido, está tudo gravado em video.

3 – Fala-me sobre um momento da tua infância que te tenha marcado bastante.

Lembro-me dos passeios com a minha família, de andar às cavalitas do meu pai, das festas da minha mãe. Ainda em adolescente quando saía à noite a minha mãe esperava por mim e perguntava-me se queria festas nas sobrancelhas. Tenho a memória de ir para a praia com o meu sobrinho. Nós tivemos uma casa em São Martinho e antes da praia há uma curva muito grande, então eu e o meu sobrinho lutávamos sempre para ver qual de nós é que via primeiro o mar nessa curva. Lembro-me de estar na loja dos meus pais e de às quartas feiras irmos comer cozido à portuguesa a uma tasca que havia lá perto. Também havia lá uma loja de discos, onde comecei a ir ouvir música muito pequena. A senhora da loja começou-me a mostrar muitos artistas e isso de certa forma influenciou-me musicalmente.

4 – Como foi crescer em Leiria? Quais são as grandes diferenças entre a Leiria da tua juventude e a Leiria de hoje em dia?

Acho que mudou imenso. Agora vejo as pessoas com quem me dava em mais nova a dinamizarem a cidade e antes disso não havia quase nenhum movimento cultural. Dava-me com as pessoas que agora fazem a diferença em Leiria. Vou lá algumas vezes por ano, mas sei que tem uma dinâmica muito maior, concertos, festivais, mais lojas e antes não havia nada disso.

Em Leiria sempre me dei com pessoas mais velhas, o que teve grande influência no meu gosto musical. Os meus pais não ouviam muita música, como trabalhavam muito também não tinham tempo para a componente cultural.

“Têm aparecido vários projectos muito bons. Estamos com uma produção nacional incrível, dou por mim a ouvir praticamente só música nacional. A internet criou várias hipóteses e meios de divulgares a tua música. “

5- Quando te mudaste para Lisboa quais foram as principais diferenças que encontraste?

Inicialmente fiquei nervosa. Fiz três anos do meu curso em Leiria e dois anos em Lisboa. Ia às aulas e depois passeava muito pela cidade. Conheci tudo, explorei todos os cantos da cidade, quase sempre a pé, não gosto muito de transportes públicos. Quando vou de férias também gosto muito de andar a pé. Acho que Lisboa é a cidade mais bonita do mundo. A nível cultural foi uma grande chapada. Havia tudo em todo o lado. Fui a muitos concertos, não parava, tive um problema de sono porque o mundo estava a andar e eu não queria parar (risos). Depois do curso nem pensei em ir para Leiria, com o curso de comunicação e cultura era impossível conseguir trabalho lá.

6 – Estiveste no Sabotage e na Universal. Como foram essas experiências e em que momento é que decidiste que querias fazer algo teu?

Isso aconteceu no Sabotage. Estive lá dois anos e quando saí já sabia que queria fazer uma coisa minha, mas recomendaram-me para a Universal, apenas quinze dias e achei que fazia sentido ter essa experiência. Acabei por ficar lá dois anos. Quando saí da Universal fui para a Câmara de Lisboa, para um part-time e aí aproveitei para testar o meu modelo pessoal de negócio. Após um ano e tal na Câmara decidi apostar na música a sério.

O primeiro trabalho que fiz a sério como freelancer foi com Mão Morta, com o álbum “Nus”. Isto ainda durante o tempo que estive na Universal, só quando saí da Câmara é que me dediquei a 100%.

7 – Actualmente a internet possibilita novas oportunidades de criação e divulgação musical. De que forma é que vês essa evolução tendo em conta que estás dentro do meio?

 

A internet fez com que a venda dos discos baixasse, isto é objectivo. Se os discos não vendem as editoras ficam sem dinheiro e deixam de apostar nas bandas novas. Acho que as bandas agora não desistem, tentam várias vezes. Antes tentavas algumas vezes e se nenhuma editora pegasse em ti era quase impossível fazeres alguma coisa. Actualmente o panorama é completamente diferente. Não consigo saber se as bandas antes tinham mais qualidade, a diferença é que agora sem apoio as bandas apostam nelas próprias. Têm aparecido vários projectos muito bons. Estamos com uma produção nacional incrível, dou por mim a ouvir praticamente só música nacional. A internet criou várias hipóteses e meios de divulgares a tua música. Faço sempre questão de divulgar na internet, nunca foi tão importante quanto agora, desde os blogues aos sites, gosto sempre de enviar o disco físico. Antes havia a rádio, agora é o site ‘x’ ou o youtube. Trabalhar a rádio era um pesadelo, porque tinha que começar tudo pela rádio. Ainda é um meio importante hoje em dia, mas os vídeos no youtube são uma coisa fantástica e faz a diferença. Antes só os grandes é que tinham videoclip.

8 – Achas que tem sentido nos dias de hoje existir um manager? Tendo em conta que com a internet é tão fácil para os músicos divulgarem os seus projectos e fazerem contactos para arranjarem mais concertos.

 

Eu gosto das coisas simples. O manager tem o seu papel. Um bom manager pode fazer a diferença e aí acho que faz sentido, porque tem contactos que a banda não tem. O manager tem o seu papel, mas em grande parte não vale muito e nem é porque não faça o seu trabalho, é apenas porque agora é muito mais complicado arranjar formas de ganhar dinheiro com uma banda, as marcas estão mais restritas para apostarem numa banda. Um manager às vezes vai buscar dinheiro a uma banda e esse dinheiro faria falta à banda, acaba por não compensar o que estão a pagar, mas isto é a minha realidade, que trabalho bandas de nicho, direccionadas para um determinado público. Tem sentido uma banda muito grande ter manager, mas na minha realidade de trabalho, com as bandas que trabalho, a maior parte delas não tem necessidade de ter um manager. As bandas conseguem fazer muito sozinhas, com um manager há mais uma pessoa para receber num percurso ao qual o manager pode nem influenciar tanto. Depende muito das bandas e dos seus objectivos.

9 – Nunca pensaste criar uma equipa para trabalhar contigo?

 

Sim, já pensei nisso. Tive uma pessoa a ajudar-me durante dois meses, durante o Fusing, mas este projecto é muito pessoal e eu sou muito perfeccionista. É muito difícil para mim ter alguém a dar a cara pelo meu projecto e a fazer as coisas de uma forma que eu não faria, mesmo que seja melhor ou pior. Não digo que não vá acontecer um dia, mas para isso é preciso haver dinheiro e ser a pessoa certa. É o meu trabalho, é a minha cara que está em jogo, é complicado.

“Às vezes esqueço-me de almoçar, só me lembro às três ou quatro da tarde. Sou muito produtiva, muito metódica, tenho uma agenda, em documento word, e sei tudo o que tenho para fazer nos próximos três ou quatro meses.”

10 – Qual é para ti a grande diferença entre promover uma banda e um festival?

 

A minha grande experiência a nível de festivais é o Fusing. É um trabalho gigante porque não é só música, foge da minha área, há bandas mais conhecidas com outro público que não é o foco normal das minhas bandas. Além disso mexe com muitas parcerias, uma banda pode ter o apoio de uma rádio ou assim, um festival não se fica só por aí, é muito mais exigente. Lembro-me de quando estava no Fusing acabava de trabalhar as quatro da manhã, deitava-me as sete da manhã, quando entregava os relatórios referentes a esse dia, e acordava as nove e tal da manhã. Os jornalistas gozavam porque tinham estado comigo até às tantas e eu às seis da manhã já lhes estava a enviar emails. É muito exigente, tens que trabalhar o público de outra maneira, existem muito mais meios de comunicação. Com um disco começas a trabalhar dois meses antes e não há propriamente uma data para o fim da promoção, apesar de dois ou três meses depois haver pouco mais a fazer a nível promocional. Um festival começa logo a ser promovido no inicio do ano, a estratégia tem que ser mais rígida e definida. Os festivais têm a mais valia de levarem bandas mais pequenas a públicos que nunca os iriam ouvir de outra forma, isso é muito interessante.

11 – Como é que começou a relação com os Mão Morta?

 

Eu sou fã da banda desde miúda. Quando estava no Sabotage tirei uma especialização na ETIC de produção e marketing discográfico onde tinha uma cadeira de gestão de marcas de bandas, escolhi naturalmente os Mão Morta. Na minha inocência enviei um email com as perguntas, a pensar que não me iriam responder. No dia seguinte responderam-me, com total disponibilidade, fiquei em êxtase e aproveitei para dizer que fazia promoção de bandas, que queria muito trabalhar com eles, que estava lá para tudo o que precisassem. Mal podia adivinhar que o Adolfo me iria dizer que vinha na altura certa e que queriam alguém para a promoção do “Nus”. Claro que aceitei, fiz a promoção e correu muito bem. O disco era para sair durante duas semanas, mas esgotou logo na primeira. Demo-nos muito bem e eles são muito queridos, directos e tranquilos. É engraçado porque há muitos jornalistas que ainda hoje vêm falar comigo sobre um disco novo, mesmo que não o esteja a promover. Enquanto freelancer o Adolfo deu-me uma força enorme, porque acreditou em mim e disse-me que devia apostar nisto. Os Mão Morta fizeram-me acreditar em mim, sei que sou o que sou por causa deles.

12 – Como é a tua rotina diária?

 

Agradeço muito ter um cão, porque eu não trabalho de pijama, ao contrário de muitas pessoas que trabalham em casa. O meu cão obriga-me a ir à rua. Faço tudo como se não trabalhasse em casa, acordo, vou passear o meu cão e vou para meu cantinho trabalhar, passo lá todo o dia, super concentrada. Lembro-me que estou em casa quando tocam à campainha e o meu cão ladra. Às vezes esqueço-me de almoçar, só me lembro às três ou quatro da tarde. Sou muito produtiva, muito metódica, tenho uma agenda, em documento word, e sei tudo o que tenho para fazer nos próximos três ou quatro meses. Já me obriguei a ver uma série ao almoço, para fazer uma pausa. Depois continuo a trabalhar, janto e trabalho mais até às duas da manhã. Antes tinha o meu escritório no meio da casa e isso não me deixava concentrar no trabalho, porque me lembrava da máquina que tinha que pôr a lavar. Não conseguia dividir as tarefas de casa com o trabalho. Durante uns tempos decidi arrendar um espaço com uns amigos para ao menos sair de casa durante o tempo de trabalho. A verdade é que estive lá um ano e as pessoas apareceram para aí umas cinco vezes nesse ano, ou seja, estava sozinha, fora de casa e a gastar dinheiro. Voltei para casa e pus o meu escritório no canto da casa, num espaço bastante pequeno, e agora consigo esquecer-me que estou em casa.

Adoro trabalhar ao fim de semana, porque tem uma vantagem: os jornalistas trabalham menos ao fim de semana e eu consigo adiantar muito trabalho durante esses dois dias. Todos os dias faço uma pausa de cinco minutos para dançar, acho que o meu cão não compreende, mas enfim, é esse o meu dia a dia.

13 – Se tivesses que escolher uma banda para musicar um filme que banda e filme seriam?

 

É complicado escolher, talvez “O Verão de Kikujiro”, do Takeshi Kitano, com música de Noiserv ou o “Eduardo Mãos de Tesoura” com Mercury Rev.

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