Nick Suave

Ilustração por: Sèrgio Neves

Entrevista feita em 2014 por: João Miguel Fernandes

Nick Suave Música Portugal

Ocupação: Músico, produção áudio, gestão cultural e produção de eventos.

Clica aqui para leres a entrevista em Inglês


1 – Que pessoas é que mais te influenciaram na tua vida?

Os meus pais e o meu amigo João Cruz. Os meus pais porque naturalmente acabamos por ir buscar muitas coisas a eles, principalmente com o passar dos anos e em especial no campo moral. Claramente tenho o lado tranquilo do meu pai, mas ao mesmo tempo tenho o lado mais eléctrico da minha mãe, que nunca pára quieta.

Musicalmente o João Cruz, que eu conheci em 1998 quando tinha cerca de 21 anos. A razão para escolhê-lo é porque é uma pessoa com que me identifico bastante e ser bastante boa pessoa, além de ser uma enciclopédia do rock, ele tem mais de 5 mil cds em casa e acabou por me influenciar bastante musicalmente. Ele estava sempre a fazer compilações, muitas vezes em cassete, que depois acabava por ouvir em todo o lado, principalmente no carro.

2 – Há algum momento particular da tua infância que queiras destacar?

Bem, tenho várias histórias. Não sei porquê, mas lembro-me de ter partido a cabeça e ter ficado em pânico, e não parar de perguntar à minha mãe se ia morrer, isto com uns cinco anos. Mas lembro-me de passar muito tempo a ouvir música em miúdo. Pegava nos discos dos meus pais e passava horas a ouvir música. Acho que dava muito trabalho aos meus pais, cheguei a pegar fogo à casa e outras merdas. Na adolescência, curiosamente, acalmei mais. Acho que passei a adolescência quase toda em casa, a ler, nem saia à noite, passei ali uns anos num período estranho. Cheguei a um momento em que tinha medo de estar deslocado, então defendia-me com aquela do “ah, eu sou diferente e fico em casa a ler”, mas secalhar era incapacidade minha de estar na cena mais cool, mas felizmente a coisa resolveu-se mais tarde, conheço quem ainda esteja nessa onda.

3 – Como é que começou a tua ligação com a música?

Quando era puto comecei a aprender piano, gostava bastante. Lembro-me de aos 8 ou 9 anos ter ido a uma escola de música e aquilo ser uma seca, porque tinhas que aprender a teoria antes de tocar, havia um patamar de um ou dois anos antes de poderes realmente tocar e isso era chato. Acabei por desistir, mais tarde voltei a aprender, mas a música nunca foi realmente o meu sonho, só para aí quando cheguei ao secundário e conheci malta com outras influências como o metal é que achei “espera aí, nada disto tem teclas” e comecei a aprender guitarra, com a guitarra do meu pai que restaurámos e fiquei maluco com aquilo. A partir daí comprei uma guitarra eléctrica, mas curiosamente as primeiras bandas em que participei era baterista, já que havia imensos guitarristas, mas poucos bateristas. A minha primeira banda foi formada no meu 12º ano no Barreiro e ensaiávamos durante a semana e foi onde aprendi mais. Mais tarde tive outra banda do tipo The Smashing Pumpkins e há uma altura em que começo a ver uns temas mais inspirados na cena surf, por volta de 97 e nascem os Los Santeros.

“Há malta que acha que tenho uma vida incrível porque sou um gajo bem disposto e estou sempre a rir, mas não é fácil. O meu trabalho é de segunda a domingo e tenho prazer nisso, faz-me estar ocupado e a criar coisas (…)”

4 – Fala-me de um momento da tua vida que tenha sido particularmente desafiante.

Há uma certa imposição natural para quem é filho de operário fabril em que os teus pais ainda lutam financeira e socialmente hoje em dia e tu estás um bocado nesse filme também.

Eu estudei filosofia, depois fui professor de educação musical e andava por esse meio, a fugir da música, mas a verdade é que sou músico e produtor e tudo o que tenha a ver com música. Viver nessa inconsistência é um desafio brutal. Quando abri o estúdio senti que estava a dar um passo importante e que era aquilo que queria, mas foi desafiante assumir que era mesmo aquilo que queria. É claro que há sempre dois aspectos que se relacionam, a música em si ou o associativismo e produção. Não sei bem em qual dos dois me integro, creio que em ambos. É um desafio estar nesta área, principalmente com a segurança social e tudo o que as pessoas já sabem, infelizmente. Só há poucos anos é que saí de casa, os meus pais ajudaram naquilo que conseguiram, mas nunca foi fácil, demorei a encontrar alguma estabilidade para mim mesmo.

Já tive trabalhos das 9 às 5, mas para quê? Qual era o objectivo? Já fiz isso há 10 anos atrás, mas fazer isso limita-me bastante, atrofia-me. Há malta que acha que tenho uma vida incrível porque sou um gajo bem disposto e estou sempre a rir, mas não é fácil. O meu trabalho é de segunda a domingo e tenho prazer nisso, faz-me estar ocupado e a criar coisas, enquanto num “trabalho normal” desempenhas uma função, é aquilo. Acho que sou muito parecido à minha mãe nisso, que está sempre a criar projectos novos e não pára.

5 – O que é que mudou no panorama musical em Portugal desde que começaste a fazer música até aos dias de hoje?

Há uma distinção clara entre aquilo de que se fala e do meio comercial, do que aquilo que é realmente o conteúdo. Esta última parte acho que continua na mesma, tens um underground que funciona, que a malta faz porque gosta de fazer e tens os outros. A internet não muda o essencial que é o ser humano.

As pessoas gostam de imaginar que estão a viver uma época brutal, mas eu acho que estou a viver uma época brutal porque sou eu quem a está a viver, as outras épocas não conheço. Musicalmente sempre houve bandas fixes, secalhar agora é mais fácil gravar com mais qualidade, embora antes também sempre desse para gravar.

A Pachuco sempre trabalhou com o material que havia, o que interessa é a música, se apontares o telemóvel para uma boa canção ela vai sempre ser uma boa canção.

Acho que houve uma evolução, mas é sempre relativo. Boa música sempre se fez. Claro que a internet veio facilitar muito, mas ao mesmo há uma estimulação em relação à “estrela do karaoke”, onde a parte da criatividade é subjugada em alguns tipos de concursos televisivos. Antigamente tinhas a malta que era característica desses concursos do tipo karaoke, que fez outro percurso diferente do nosso, mas com esta globalização, em vez de se globalizar o bom, foi o meio do karaoke que se globalizou e chegou até a entrar pelo mundo do underground.

É uma época estranha que deixa as pessoas a pensarem no artificial e material e a esquecerem-se que há uma grande diferença entre um criador e um imitador e há pessoas que não entendem isso.

Acho que a maior diferença é que o tempo que as coisas duram é muito mais reduzido, consumimos as coisas muito rapidamente, não sei se é bom ou mau, desde que funcione e que as coisas andem tass bem, agora ficar no saudosismo faz-me confusão.

6 – Achas que a crise fomenta a criatividade e obriga-nos a encontrar processos criativos diferentes?

Não. Lembras-te de alguma época da história em que não tenha havido criatividade? Podes não ter tido o mesmo acesso a ela, mas sempre existiu. A criatividade é algo mais forte do que as condições sociais, é algo inerente ao ser humano, que enquanto espécie não tem nada a ver com critérios sociais. Na música há várias áreas ligadas à pobreza, como o blues, mas ao mesmo tempo tens outras ligadas a áreas mais ricas.

Acho que quem tem esse discurso politico na sua arte vai sempre tê-lo, porque há sempre problemas. Há diferença económica entre 98 e agora, mas não acho que seja algo que justifique uma grande mudança. A nível moral sim, estás a passar por uma época talvez sombria, não sei se bateste no fundo ou não, mas já começou há muito tempo, principalmente em Portugal desde a sua formação enquanto país. Hoje em dia secalhar a maior crise é o facto dos pais terem filhos só porque sim, meterem os miúdos a fazerem quinhentas mil merdas só para dizerem que eles fazem e ao mesmo tempo não fazem nada com eles, meterem os putos em frente a programas como o Secret Story ou participarem neles, isto é que a crise que estamos a viver e não tem a ver com dinheiro. Tem mais a ver com a fama, que é algo que marca bastante esta passagem de século, porque é giro ser famoso ou falado e isso faz muito mal à cabeça dos jovens.

Portanto acho que a crise económica pode, pelo contrário, dificultar a criação. Vamos dizer que quero fazer um galo de barcelos gigante, aí precisas de dinheiro.

“(…) e ele convidou-me para ir fazer uns testes numa rádio e fiquei a trabalhar com ele e com outro amigo nosso que era o Américo, basicamente até ao dia em que esse Américo decidiu, no estúdio, gritar “Caralho” durante o programa infantil e o nosso programa acabou.”

7 – Fala-me da tua alcunha “Picos”.

Bem, basicamente foi quando cortei o cabelo. Foi um dia a meio da semana em que saí da escola e decidi ir cortar o cabelo e ficou assim um bocado espetado, mas só no dia seguinte, por causa de uma rabanada de vento. E há um gajo na minha turma, quando entrei na sala para ter Alemão, que diz “Epa, pareces um Picos”, como se isto fizesse sentido. E claro, no intervalo seguinte era o Picos, mas só para a malta do secundário, especificamente da minha escola, não para a malta da minha rua.

8 – Como é que surge o Barreiro Rocks?

Esse festival surge primeiro como Pachuco Fest, em 2000, com algumas bandas da editora. Começou, portanto, com o objectivo de promover as nossas bandas, mas correu bastante bem, tivemos a sala cheia e achámos que podíamos crescer. No segundo ano começámos a trabalhar com a Câmara Municipal e fizemos dois dias de festival num pavilhão e já com bandas internacionais e dinheiro envolvido. Depois houve eleições e acharam que devíamos mudar o nome do festival e puseram o nome do Barreiro no festival. Houve alguém que nos sugeriu “Festival Internacional de Bandas de Garagem do Barreiro”, mas decidimos por “Barreiro Rocks”, que era mais simples. A partir daí continuámos com uma linha estética mais definida. O Festival tem sempre crescido e tem-se vindo a alterar, sendo que actualmente está mais bem definido e tem-se tornado cada vez mais multidisciplinar, atacando várias áreas e usando o rock and roll como expressão social.

Temos trabalhado com miúdos mais novos de forma a estimula-los na criação musical, porque ao contrário de alguma malta da minha geração que acha que estes miúdos são inúteis e que são favorecidos porque têm facebook, eu acho o contrário, os miúdos estão mais à rasca, querem fazer as coisas, mas não têm as condições que a minha geração teve, onde havia mais salas de ensaio, mas espaços culturais e com noites seguras e cheia de malta, o que provocava fluidez de ideias. De repente há uma geração que fica sem tudo isso e que é acusada de ser privilegiada por existir o facebook. Pessoalmente senti-me estimulado a fazer coisas porque vi malta mais velha a fazer coisas e faz falta dizeres isto aos miúdos, mostrar-lhes que é fácil.

Acho que a minha geração foi mais privilegiada, porque a noite era mais mexida, o Barreiro parecia o bairro alto, tinhas malta de Lisboa e Almada a virem para cá, com malta muito diversificada.

9 – Como é que conheceste o Fast Eddie Nelson?

Epa, há umas histórias com ele que até são ilegais, por isso é melhor não contar (risos). Bem, quando entrei para o 10º ano, o gajo que se senta ao meu lado é ele, que já levava uns anos de avanço inclusive a tocar guitarra, porque ele tocava bastante bem, mas mais do que isso ele tinha uma guitarra eléctrica, que era uma grande cena. Tinhamos um sentido de humor que encaixava e algumas referências em comum. É claro que ele passou-me uma série de música, graças aos seus irmãos mais velhos, referências que eu não tinha. Entretanto ele desistiu da escola.

No ano seguinte, quando começo o 11º ano, encontrei-o e ele convidou-me para ir fazer uns testes numa rádio e fiquei a trabalhar com ele e com outro amigo nosso que era o Américo, basicamente até ao dia em que esse Américo decidiu, no estúdio, gritar “Caralho” durante o programa infantil e o nosso programa acabou.

Havia dois estúdios e num deles, onde havia o programa da manhã, que era feito para as crianças, estava a apresentadora e várias crianças. E no outro estúdio estávamos nós, mas aos domingos era uma seca, não havia noticias, era só repetir o mesmo. E certo dia, em que íamos gravar os noticiários que faltavam, entrámos na regie e pedimos ao técnico uma “tape” para gravar o que faltava e ele disse “uma tareia? Queres uma tareia?” com a namorada ao lado, armado em esperto, e quando ele me dá a cassete e começo a testar eu digo que não estava a ouvir nada, porque tinha os phones ligados a outro sitio, mas o microfone estava no máximo. E a certo momento o Américo manda esse mítico berro e começamos a ver a mulher no programa infantil em choque. Então o que aconteceu é que o técnico de som se esqueceu de baixar o volume naquele momento, então aquilo transmitiu durante o programa infantil. De repente começam a cair chamadas para a rádio a ameaçarem a mulher do programa de morte, porque achavam que tinha sido ela a dizer isso ao vivo. E então à tarde tivemos uma reunião com o dono da rádio e os patrocinadores para avaliar os danos, porque eles quiseram cancelar os patrocínios e tivemos a ouvir a gravação daquilo outra vez. Eu adorava ter uma cópia disso, mas naquela altura foi impossível de pedir. Não foi muito grave para nós, foi mais grave para o técnico de som. Para um puto com 15 ou 16 anos aquilo foi brutal.

Há muitas histórias, mas acho que ficamos por aqui. A história da rádio não tem assim tanto a ver com ele, mas tem piada.

10 – Qual é a razão para o Barreiro ter uma ligação musical tão forte?

Será que tem mais do que as outras terras? Eu acho que as zonas não têm nada a ver com nada, a malta faz música em todo o lado e não me parece que o Barreiro tenha mais ou menos bandas do que outro sitio. Claro que há um festival com o nome do Barreiro e um grupo de malta que faz música mais ou menos com os mesmos nomes há mais de um década, a coisa ganha raízes e é promovida como sendo algo forte, mas essa ideia é criada por malta de fora. Para quem cá está tem a ligação que sempre teve e que existe noutras cidades. Acho que há uma cena fixe, bem dinamizada e essa comunidade está cada vez mais consciente do que existe, enquanto que há uns anos andava cada um para seu lado, agora estamos mais unidos, mas isso não aumenta o número de artistas ou qualidade, é mais uma questão social, embora passe uma imagem de que há aqui uma grande cena. Claro que há coisas boas e bandas fixes, algumas com mais mediatismo que outras, mas existe de tudo, desde DJs a bandas de rock, metal, mas também te digo, o Barreiro não tem tantas bandas como há 20 anos atrás e nessa altura falava-se menos da cena do Barreiro.

Ajuda teres um festival com o nome da cidade, porque é mais fácil para quem está de fora catalogar a coisa, mas isso vale o que vale. Não vejo isto como um pólo cultural espectacular, tem condições para isso e as pessoas têm mais consciência disso hoje em dia, e isso é mais importante do que haver mais ou menos malta a criar.

11 – Qual é a razão da criação das tuas várias personalidades, como por exemplo, em Bro-X?

Eu gosto mesmo muito de música e alguma música que gosto é hip hop, e também gosto de teatro. Então houve uma altura em que um dos bares aqui do Barreiro tinha umas noites em que podias apresentar uma performance. E numa dessas noites reuni um gang para apresentar um improviso com beats e breakdance, que originou a falar com o Ricardo e que inventou Bro-X. Começámos a sacar beats da net, depois comecei eu a produzir e foi assim.  Bro-X são os Los Santeros actuais, que eram basicamente teatro, e que estão constantemente num exercício de mastigar ideias, são sempre as mesmas piadas, sempre o mesmo conceito, enquanto Bro-X, apesar de terem pegado nesse ponto, têm uma maior liberdade musical e estética. O hip hop é bom para isso porque tem a parte da palavra e isso dá para brincar com muita coisa.

Numa das Fnacs de Almada houve alguém que se sentiu incomodado porque estava a passar e nós estávamos a cantar a Karla Puta, apesar do aviso de que o espetáculo era para maiores de 18 e termos muita gente a achar piada, mas essa pessoa decidiu ir fazer queixa ao livro de reclamações da Fnac, e conseguiu ser mais ridícula que os próprios Bro-X, e estou a falar de uma miúda que tinha para aí a minha idade, la está, essa é que é a crise moral em que vivemos.

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