Miguel Correia

Ilustração por: Andreia Vieira da Silva

Entrevista por: João Miguel Fernandes (originalmente publicada em 2014)

Ocupação: Músico e Fotografo

Clica aqui para leres a entrevista em Inglês


1 – Se tivesses que falar sobre alguém que te tenha influenciado bastante quem seria e porquê?

O meu irmão e o meu pai. De certo modo a minha mãe também, porque é aquela pessoa que quando acontece alguma coisa na tua vida tu vais ouvir sempre aquela música, e a tua mãe é essa música.

Eu comecei a seguir a cena da música por causa do meu irmão. Um dia ele chegou a casa com uma viola e percebi que dois guitarristas em casa não ia correr bem, então peguei nas panelas e comecei a tocar bateria. E isto vem do meu pai ter-nos dado a educação que deu, uma educação rígida, vindo do mundo dos motoqueiros. Nós pegávamos nas coisas que o nosso pai nos metia à frente sem querer. Ele era muito rígido, tentava que fossemos algo que ele nunca foi, ou seja, doutores, que estudássemos, mas depois por baixo da mesa metia-nos revistas de motas, viagens a concentrações, etc. Isto fazia-nos confusão, porque questionávamos que caminho é que deveríamos seguir. Houve mais tarde um momento na nossa carreira como estudantes que o nosso pai nos disse, “Epá, vocês façam mas é o que quiserem”.

Imagina que eu estou a dar um concerto, podem estar milhares de pessoas, se estiverem lá os meus pais e o meu irmão é para eles que quero transmitir tudo, sem faltar ao respeito às pessoas que pagaram bilhete, claro. Tanto eu como o meu irmão que desde os dezasseis anos não temos realmente patrões. Trabalhamos aqui e ali, mas nunca tivemos um patrão de carreira, o objectivo sempre foi juntar algum dinheiro desses trabalhos e conseguirmos fazer o que querias, o que tem resultado até agora. Eu só quero ser melhor do que fui ontem, não quero ser melhor que ninguém. Gosto de me inspirar nas outras pessoas e de inspira-las, porque isso quer dizer que estou a fazer algo bem, é uma recompensa pelo teu trabalho. Eu não vou mudar o mundo, o mundo é pesado e eu tenho um problema nas costas.

2 – Fala-me sobre um momento da tua infância que te tenha marcado bastante.

Eu nunca me lembro bem da história, os meus pais é que se lembram do ano em que foi porque tiveram que cancelar a matrícula, mas devia ter uns dezasseis anos. Na altura só tinha vindo tocar a Lisboa uma vez com uma banda que tinha, e a internet naquela altura era rara, só para aí dois gajos em Quarteira é que tinham. E um dia ligaram para um gajo a dizer que precisavam de um baterista para ir em tour e falaram comigo. Cheguei a casa e disse que ia logo, claro. Cheguei a casa e disse que queria ir em tour. Claro que o meu pai disse que eu estava mas era parvo, que não ia desistir da escola para ir em tour, ainda por cima nunca tinha chumbado. Fiquei naturalmente lixado, e às tantas, passado algum tempo o meu pai vem ter comigo e diz, “É mesmo isso que queres fazer? Com dezasseis anos queres ir com uns bonecos quaisquer de Lisboa para ir tocar pela Europa? Já viste que isso não dá nada.” Então fiz um contrato com o meu pai, que foi quando viesse da tour tinha que acabar os estudos, e tu um dia se tiveres oportunidade de conhecer o meu pai hás-de perguntar-lhe se conclui os estudos. Ele vai-te responder que desde que fui nessa tour nunca mais parei. Nem sei como é que essa tour foi marcada, não havia GPS nem nada. Sei que havia um papel na carrinha com as cidades. Conforme passávamos por elas íamos riscando os nomes desse papel, assim sabíamos que estávamos mais perto da próxima. Fizemos a tour toda, a carrinha veio melhor do que foi, com rádio e tudo.

3 – Como foi crescer em Quarteira? O que é que mudou na música até aos dias de hoje?

Nada, não mudou nada em termos de música. Há muito bom artista de Quarteira mas já não está lá. Tiro o chapéu ao meu irmão por ele conseguir viver em Quarteira até hoje. Tem o negócio dele, o estúdio de tatuagens, os Devil In Me começaram como uma banda algarvia, comigo e com o meu irmão.

O hip hop sempre foi muito forte, mas sempre foi muito competitivo para o lado errado. Faz-se boa música no algarve, os Entre Aspas, Nuno Guerreiro, etc.

A qualidade de vida lá em baixo é brutal, tens o mar, as coisas não são muito caras, mas depende do que tu queres, se isso te chega. Se conseguisse fazer a vida que faço lá em baixo eu ia para o Algarve. Lisboa é uma merda, Quarteira é uma merda mas uma merda pequena, dá para gerir melhor as coisas.

Eu defendo muito as situações que tu crias, embora possa reconhecer que no meu caso particular tive alguma sorte. As coisas não vêm parar ao teu colo, tu tens que te expor. Eu por um lado expus me demasiado devido à internet. O meu nome é Miguel Correia e ninguém me conhece, só conhecem o personagem. Eu tenho um nome, mas até eu me auto-intitulo Mike Ghost.

Se conseguires gerir bem a tua vida lá em baixo podes ter uma vida muito tranquila, mas isso leva as pessoas a descontraírem-se. Lá em baixo há peixe fresco, o mar está mesmo à porta, já há pingo doce, o Titanic estreou há duas semanas, não está mau. O turismo está mais fraco, mas o clima continua óptimo. A nova geração já consegue sair de lá e ir para o Porto e Lisboa estudar. Eu e o meu irmão fomos educados com uma cultura muito diferente, praticamente americana. Se um dia ganhasse muito dinheiro vivia lá em baixo e trabalhava em Lisboa. Estou pronto para me deslocar, não tenho praticamente nada em casa, a minha cama é um colchão. Nunca se sabe o dia de amanhã, a pessoa tem que estar pronta para tudo.

“Eu não tenho dinheiro, logo nunca estive em crise. Pago a renda, as despesas e a comida, é o que me preocupa.Acho que a crise depende muito de nós, povo. Temos que ser mais activos(…)”

4 – Se fosses tu a mandar em Portugal, o que farias face à crise que vivemos?

Eu não tenho dinheiro, logo nunca estive em crise. Pago a renda, as despesas e a comida, é o que me preocupa.

Acho que a crise depende muito de nós, povo. Temos que ser mais activos, entrar pela assembleia, agir. Nós temos a mania de nos ficar a queixar, depois atiramos as culpas para o partido de esquerda ou de direita, depois há uns quantos malucos que querem o escudo de volta.

Eu ligo pouco a politica, gosto de ver documentários sobre política, mas programas políticos nem por isso. Depende de nós mudar isto, como um povo unido, não são só os políticos sozinhos. Hoje está lá um político, amanhã vem outro igual.

5 – Em que momento da tua vida é que decidiste ser músico e porquê?

A primeira vez que eu vi X-Acto, e o meu irmão já tinha visto e tinha-me dito que era brutal, em Faro, disse que queria ser como eles. Lembro-me do meu pai começar a cortar os concertos, ele arranjava uma desculpa para não irmos aos concertos. Pensei mesmo, “um dia vou ser como estes gajos.” E fruto da educação americana que o meu pai nos deu tu tentas sempre ser melhor que ontem e crias alguns parâmetros. Quando estou a investir o meu tempo em tour estou a dar tudo, tem que valer a pena.Actualmente olhas para tudo isto e vês que és amigo deles, que tens bandas com eles, com os gajos que mais veneravas, que te fizeram entrar na música. Foi algo gradual, vais conhecendo mais pessoas, investindo mais em ti.

Quando vou para cima do palco as pessoas que pagaram o bilhete têm que sair de lá com o dinheiro bem gasto. Eu gosto muito de ver concertos em calma, para observar tudo, estou sempre a tirar notas mentais. As pessoas têm que entender que o que fazemos é por paixão, pelo gozo de chegar a muita gente, não é só pelo dinheiro, obviamente que toda a gente precisa de dinheiro, mas no fundo o importante é o público ficar contente. Claro que foi complicado explicar ao meu pai que queria ser músico, igual aqueles gajos tatuados de Madball, mas no fundo nunca me faltou nada. Uma vez o meu pai deu-me uma bicicleta mesmo quando tinha tido boas notas. Se queres algo tens que trabalhar para isso.

6 – Fazes parte de Men Eater, já tocaste com Devil In Me e agora com More Than A Thousand. Qual é a maior diferença entre tocar em Portugal e lá fora?

Em Portugal não existem tours. Às vezes metemos que fazemos uma tour em Portugal, mas tocar duas vezes num fim de semana e depois só tocar no outro não é uma tour. Aqui existem poucas salas, com pouca flexibilidade, tal como a música feita em Portugal.

Pegas em More e Devil In Me e estas bandas tocam lá fora para salas cheias. Em Portugal tu tens que gerir bem a carreira, porque chegaste a um nível que não podes descer. Aqui não podes meter estas bandas a tocar em salas sem qualidade de som, senão se dás um mau concerto estás a estragar tudo. Lá fora a sala mais pequena trata-te ao melhor nível. Uma coisa importante que em Portugal não é valorizado são as bandas de abertura. Todas as bandas têm que ser tratadas ao mesmo nível, embora existam os cabeças de cartaz e algumas que recebam mais, como é natural, mas de resto têm que ter o mesmo tratamento.

Os More Than A Thousand têm muito público em Portugal, por isso temos que gerir bem os concertos. Ainda no caso dos More Than A Thousand, estivemos na capa mais vendida de sempre da Loud, o que mostra a forma como somos vistos cá. E em Portugal há a mania de que o que vem lá de fora é que é bom, então fora do nosso público é complicado reconhecerem o nosso valor, mesmo com salas esgotadas.

Na música tens que criar uma boa relação com as pessoas, porque além da banda existem os técnicos, promotores, managers, etc. As pessoas têm que ser simpáticas, acessíveis, isso acontece muito lá fora, em Portugal às vezes as pessoas complicam. Uma vez tivemos uma confusão em Vagos com We Are The Damned. Lá fora isto nunca acontece, as pessoas tentam sempre ser prestáveis, simpáticas, ou fazer as coisas de forma minimamente profissional. Em Portugal os músicos não são valorizados. O caso das fotos é bastante cómica, nunca acertam, vão buscar fotos com músicos que nem estavam na formação anterior.

 

7 – Tiveste o projecto Hollow Ghost, que entretanto não avançou e agora tens um projecto a solo. Qual é o teu plano para a tua carreira a solo?

 

O Hollow Ghost foi a primeira vez em que fui para estúdio sozinho, muito por culpa do Chris Common. E foi uma espécie de desabafo na altura. Eu não quero fazer dinheiro com a minha carreira a solo. Eu fui tocar a Londres porque foi uma proposta da Volcom e basicamente tive que ir. Voltei a tocar em Santa Cruz, também para a Volcom.

Vou lançar mais uma música do “Death! Kings & Queens”, mas basicamente o que vão ver daqui para a frente vai ser diferente, mais electrónico, ambiental. Eu como Mike Ghost as in carreira a solo vai depender da minha vontade. Se quiser gravar algo gravo, se quiser gravar com alguém avanço, mas para tocar ao vivo não tenho tempo. Eu gosto de pagar aos músicos que tocam comigo, mas para tocarem comigo têm que tocar muito bem, portanto tem que se perder muito tempo à volta do projecto. Se me convidasses para tocar num projecto teu eu ia tocar como tu querias, não ia pôr o meu ego à frente.

Para mim a música chegou a um ponto em que sou livre. Acho que já não vou muito mais longe do que já estou na música, não vou ganhar nenhum globo de ouro.

8 – Além da música também és fotógrafo e realizador. Como começou o gosto por essas duas áreas?

 

A fotografia começou por brincadeira. Na altura eu era baterista e ninguém tirava fotos aos bateristas, então achei que devia começar a registar momentos. O meu pai fotografava as fotos de família e isso de certa forma inspirou-me a querer gravar momentos, isso e toda a influência dos motards, mulheres nuas, fotos analógicas. Na fotografia descobri uma paixão incrível. No caso de MTAT, eles nunca tiveram tantas fotos como agora. Eu raramente apareço, porque quando me tentam tirar fotos esquecem-se que é uma máquina analógica e apareço sempre desfocados.

Acho que ninguém é bom nem ninguém é mau, cada um tem a sua visão, pelo menos na fotografia. O estilo que gosto mesmo é o lifestyle, eu fotografo aquilo que tu és. A cena da moda em Portugal é muito preconceituosa, isto no estilo de fotografia. Adoro moda, adorava tirar mais fotos de moda. Eu compro várias revistas de moda, já não compro revistas de música, felizmente as bandas que gosto são bandas de amigos meus. Também fotografo em digital, é algo que eu escolho. Fotografar em analógico é caro, há vezes em que tenho que pensar que comprar um rolo pode implicar comprar menos comida. Como uma vez o John Filipe disse, o vídeo é fotografia em movimento, é uma coisa natural, daí as minhas fotografias terem grão, cores estranhas, é isso que eu gosto. Eu não quero ser melhor que ninguém, só quero estar bem comigo.

Quando não tiver dedos para tocar ou dores de costas fortes, tenho a fotografia para me agarrar, é uma paixão gigante.

“Eu tenho este estilo de vida porque quero, estou disposto a isto. É complicado porque não há dinheiro certo a entrar, mas felizmente tenho amigos que estão lá para mim, e digo isto sem ser de forma egoísta ou por interesse. Consigo sobreviver porque eu quero, há coisas que eu não preciso, não preciso de ir jantar fora todos os dias, ou de ir a todas as estreias de cinema.”

9 – Como é que consegues gerir a tua carreira em Portugal? Isto porque não tens um trabalho definido, vais buscar um pouco aqui e ali, desde a música à fotografia, passando pelo vídeo.

 

Eu tenho este estilo de vida porque quero, estou disposto a isto. É complicado porque não há dinheiro certo a entrar, mas felizmente tenho amigos que estão lá para mim, e digo isto sem ser de forma egoísta ou por interesse. Consigo sobreviver porque eu quero, há coisas que eu não preciso, não preciso de ir jantar fora todos os dias, ou de ir a todas as estreias de cinema. Se acontecer algum imprevisto não terei problemas em ir trabalhar para uma caixa ou para as obras, aliás foi algo que já fiz e é um trabalho honesto como todos os outros. Os meus pais habituaram-nos a viver com aquilo que temos e não com aquilo que achamos que precisamos. Se quiseres muito fazes por isso, se as coisas correrem mal tens que ter um plano b, nem que seja voltares para casa, para os teus pais. Isto não é o terceiro mundo onde tu não podes mesmo tentar mudar nada. Tu é que escolhes o teu caminho. É claro que só faço isto porque há um certo reconhecimento que me permite sustentar, também porque não tenho filhos nem animais, só dependo de mim. As pessoas dão pouco valor a falhar, falhar é crescer, aprender.

10 – Os Men Eater estão de regresso. Porque motivo é que acharam que deviam regressar?

 

Falaram com o BB e fizeram-lhe um convite para a banda voltar a tocar no Musicbox. Ele falou connosco, expos a situação, que a banda tinha acabado a meio. Isto não é uma reunion show, vamos tocar quando nos apetecer. E então decidimos tocar o primeiro disco, que foi aquele que nos pôs na estrada. Os fãs queriam o “Hellstone” e achámos que fazia sentido. Nenhum de nós tem muito tempo agora, por isso vamos só tocar quando nos apetecer. Há gente que pensa que é um regressa a sério, uma prioridade, mas não é. Pode ser que gravemos algo novo ou não, porque há coisas que ficaram para trás sem serem gravadas. Men Eater nunca vai voltar a tempo inteiro como antigamente. Hoje em dia o cachet é importante, temos outras ocupações, para perdermos tempo com isto temos que conseguir ganhar algum também.

11 – Se pudesses escolher vários músicos com quem nunca tocaste para fazer uma banda, quem seriam?

 

Hoje em dia não me importava de ir mandar uns jams seja com quem for.  Às vezes quando vou à sede da Volcom vamos para lá jammar, porque eles têm uma sala de ensaios. As pessoas que fazem parte das bandas são as que fizeram com que a banda estivesse onde está. Eu cheguei a um ponto em que já não consigo fazer uma banda com qualquer um. Estou tão habituado às pessoas com que toco. Claro que isto depende do projecto.

Não tenho assim ninguém específico com quem gostaria de fazer uma banda. Tens que te ligar às pessoas para teres um projecto sólido. Para fazer uma jam já seria diferente, gostaria de tocar com o Jimi Hendrix, o pessoal de Mastodon.

Gostava de ter um projecto com o meu irmão, mas aí é diferente porque já nos conhecemos e já tocámos juntos.

12 – Costumas preocupar-te muito com a tua carreira? É algo que planeias com alguma antecedência? Tens medo do insucesso?

 

Não. Fiz tudo sem pensar com grande antecedência. Gravei discos, fiz tours sem pensar previamente em grande coisa. Só quero estar bem. Claro que tenho coisas para fazer amanhã ou até ao final do ano, mas não sou fixado nisso. Tudo o que fiz até hoje foi porque naquele dia decidi fazer aquilo.

Eu estou onde estou hoje à pala de tudo aquilo que decidi fazer sem grandes planos. Agora tenho que aguentar o barco, porque tenho que me auto subsidiar. Conforme vais crescendo vais vivendo e vais percebendo o que é bom e mau para ti.

Um dia quando quiser sair deste personagem não sei como vai ser. Quem é o Miguel Correia? Não sabem, só o alter ego.

Gostaria de lançar um livro com fotografias minhas, comprar uma casa e uma mota. Enquanto fizer o que gosto estou mesmo bem. Nunca vou dar nada como garantido.

Back

This is a unique website which will require a more modern browser to work!

Please upgrade today!

Share