Mallu Magalhães

Ilustração por: Avgvstv.z

Entrevista por: João Miguel Fernandes (originalmente publicada em 2014)

Ocupação: Cantora

Clica aqui para leres a entrevista em Inglês


1 – Se tivesses que falar sobre uma pessoa que te tenha influenciado bastante fora da área profissional, quem seria e porquê?

Há tantas! Nijinsky, Akira Toriyama, Leila Dinis, Lonilson, Domingos de Oliveira… O difícil é pensar em algum fora das artes, da literatura, da dança… Talvez o Robert Anton Wilson seja o mais distante da minha área.

2 – Fala-me sobre um momento da tua infância que te tenha marcado bastante.

Certa vez, como de costume, resgatei um insecto da piscina. Ele estava longe e demorei para achar um galho que chegasse a ele. Assisti às suas últimas tentativas de nadar, e às suas patinhas cansadas até parar, justamente quando consegui, finalmente, alcança-lo com uma folha comprida. Quando o coloquei no chão, não podia crer que aquela coisinha que há tão pouco estava com vida tinha morrido e, heroicamente teimosa, soprei o mais macio que consegui. Eis que, depois de um bom tempo, vi uma das suas patinhas a tentar esticar-se. Até hoje posso sentir a emoção que foi ter ressuscitado aquele bichinho.

3 – De que forma é que os teus pais te influenciaram para a música?

Acho que, por serem os dois profissionais de outras áreas (ele, engenheiro e ela, paisagista), eu sempre vi a música como descanso, como uma maneira de me expressar, como algo para emocionar ou apenas para aconchegar. O meu pai tocava bastante violão em casa, e a minha mãe sempre pediu para que eu cantasse.  Cheguei a fazer uma banda com minha irmã! Mas acabámos tendo uma carreira mesmo curta, de apenas algumas tentativas de ensaio no porão. Conhecendo a minha personalidade reativa, acho que os limites que por eles me eram impostos na adolescência, quando comecei a fazer música profissionalmente, me atiçavam ainda mais. Talvez se tivessem sido libertários, eu teria me tornado veterinária, administradora, ou algo assim.

4 – Se mandasses no Brasil, o que alteravas? Tendo em conta o contexto politico, económico e social.

Puxa… não tenho a menor capacidade de responder essa pergunta…

“Acho mesmo muito curioso como dois países de mesmo idioma e de raízes irmãs possam ter desenvolvido musicalidades tão particulares mas que, agora, voltam a encontrar-se gradualmente”

5 – Como vês o actual panorama cultural no Brasil? E em Portugal? Especificamente a nível musical.

Acho mesmo muito curioso como dois países de mesmo idioma e de raízes irmãs possam ter desenvolvido musicalidades tão particulares mas que, agora, voltam a encontrar-se gradualmente. A estética moderna, existencial, que mistura os tradicionais instrumentos acústicos com os actuais sons e formatos eletrônicos apresenta-se em várias formas nos dois países… A internet deu-nos esse privilégio de acompanhar tudo de qualquer lugar.

6 – Qual é o principal segredo para tornar uma música viral na internet?

Também me pergunto… Claro que existe em mim o desejo natural de comunicar com o maior número de pessoas, de ser querido, de tocar, de criar alguma coisa. Mas esse sucesso viral é mesmo um mistério! Talvez com o tempo possamos identificar padrões. Ou não. Talvez o que desencadeie curiosidade seja justamente o ineditismo, talvez em um pequeno detalhe que nem se quer damos conta, mas a nossa cabeça quer voltar, voltar e voltar naquele link.

7 – Actuaste várias vezes no estrangeiro. Nunca pensaste fazer carreira a cantar apenas em inglês, para chegar a um público mais vasto?

 

A questão é mesmo a falta de tempo. Queria poder fazer tudo o que imagino. Procuro separar algumas semanas no ano para  essas turnês nos Estados Unidos e no Canadá. São países com admirável infraestrutura e com um público surpreendente.

8 – Como é que olhas para todo este sucesso com apenas 22 anos?

 

Fico mesmo orgulhosa. Sei bem quanto trabalho tive, quanta coisa passei… e sinto-me orgulhosa. Assim como me sinto orgulhosa nos meus pequenos grandes sucessos diários: um bom soufflé, um sorriso de alguém amado, um chocolatinho no pires do cafezinho…

9 – Como foi colaborar com o David Fonseca no Rock In Rio Lisboa em 2012?

 

A minha gratidão pelo David é imensa. Ele e a sua equipa acolheram-me, protegeram-me, foram realmente especiais. Nem a alergia ao pólen, nem o pouco tempo de ensaio que tivemos (um dia, apenas, logo após chegar de avião) foram capazes de sequer afetar a estonteante lembrança que me ficou, junto à imagem daquela multidão já a cantar alguns trechos das minha canções.

“Quando saí da casa dos meus pais foi um processo longo e doloroso, cheio de momentos horríveis. O amor que temos uns pelos outros acabou por atropelar a nossa sanidade.”

10 – Como foi trabalhar com o Mário Caldato?

 

O Mário foi um mago no estúdio. Acho que ele entendeu totalmente a minha música, ajudou-me com o inglês atrevido de expressões de dicionário, e não pareceu dar muita bola para a minha infantilidade em pleno AR (extinto estúdio onde gravámos na mesma mesa que já gravaram os Beatles). Confesso que tenho o sonho de poder trabalhar com ele mais uma vez, para podermos, desta vez, falar sobre som, escolher microfones, eleger takes, e para que possa dizê-lo que fui ficando cada dia mais fã dele.

11 – O que podemos esperar do projecto “Banda do Mar”?

 

A “Banda do Mar” é um encontro inevitável. Somos um trio de grandes amigos. Somos três músicos. Sempre que quisermos, estaremos nesse formato, por prazer, e por profissão. Agora começámos uma turnê no Brasil que segue logo para Portugal. Acho que essas viagens darão mais vida e forma à Banda.

12 – Que música ouvias quando eras mais nova?

 

Eu já cresci com a internet surgindo. Pesquisava muito, via documentários, anotava os nomes, e corria para as lojas de discos ouvir o que encontrasse. Ouvia muito Bob Dylan, Johnny Cash, Chuck Berry, Elvis Presley, Tom Waits… E muito Jack Johnson. Era perfeito para as nossas viagens de carro em família. Todos gostavam. E, até hoje, é a minha trilha sonora para várias ocasiões.

13 – Se pudesses musicar um filme à tua escolha qual seria e porquê?

 

Eu adoraria musicar qualquer filme! Fazer trilhas sonoras é um grande sonho meu. Não me canso de ouvir os clássicos do Henri Mancini, e tantos outros compositores da Disney. As trilhas sonoras do Kassin, do Yann Tiersen… tantos ídolos!  Eu adoraria musicar qualquer filme.

14 – Se pudesses escolher vários músicos com quem nunca tocaste para fazer uma banda, quem seriam?

 

Dr. John, Elza Soares e Manu Chao. Que turma!

15 – Tens acompanhado o mercado Português? Quais são os teus artistas preferidos?

 

Gosto muito e acompanho a Capicua, o Nick Nicotine, Orelha Negra, Os Quais…

16 – Como é fazer uma tour por São Paulo?

 

Estares na tua cidade natal traz sempre mais emoção. Quero sempre orgulhar a minha família e, ao contrário dos outros lugares, fico nervosa!

17 – Qual foi um dos momentos mais difíceis da tua vida?

 

Quando saí da casa dos meus pais. Foi um processo longo e doloroso, cheio de momentos horríveis. O amor que temos uns pelos outros acabou por atropelar a nossa sanidade.

18 – E a nível de histórias engraçadas, há alguma que venha à cabeça?

 

Nas primeiras entrevistas em inglês, fiquei impressionada com a cara dos jornalistas quando eu dizia que a minha avó, que é advogada, me ensinou “to sow”, querendo dizer que aprendera com ela a costurar.

19 – Quais as principais diferenças a Mallu Magalhães artista e a Maria Luiza fora dos palcos?

 

Tocar. Para mim é quando, finamente, me sinto segura, forte e calma.

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