Lara Seixo Rodrigues

Ilustração por: Avgvstv.z

Entrevista por: João Miguel Fernandes

lara seixo rodrigues muraliza lata65

Ocupação: Curadora de Arte Urbana e Produtora

Clica aqui para leres a entrevista em Inglês


1 –  Fala-me de uma memória da tua infância que te tenha marcado.

Não tenho nenhuma especifica. Quando penso na infância penso na Covilhã, na Serra, pouco mais que isso, o que já é muito, porque na verdade cresci dentro de uma loja, no meio do campo, numa padaria, a ir à montanha, com o meu avô agricultor, portanto é um mix com muitas coisas boas.

2 – Fala-me de uma pessoa que te tenha marcado.

A primeira delas é o meu avô, que viveu na Argentina. Nos anos 40 ele foi para lá num navio sozinho e a forma como contou essas histórias inspirou-me bastante. O padrão moral dele é super interessante, para as pessoas te respeitarem tens que te dar ao respeito, e face ao contexto todo da minha vida é muito importante ter esta noção, porque as vezes esqueço-me.

Outra personagem muito importante foi a Pipi das meias altas, porque é fantástico seres novo e perceberes que há alguém assim e que é uma mulher, criança e que vivia desta forma tão liberta de tudo e de todas as convenções.

Depois tenho-me cruzado com pessoas muito interessantes, como o meu mestre de arquitectura, o Manuel Aires Mateus, que foi muito importante. Eu fui para arquitectura por ir e ele ensinou-me o que era esta paixão pela arquitectura, o olhar, sentir, a arquitectura não tem só a ver com janelas e portas, o meu primeiro ano foi passado a falar no café, ir a bailados, peças de teatro, ler livros, estava relacionado com sensações e vivência de espaço, não estar só fechado numa sala. Daí dizer sempre que o meu trabalho enquanto curadora e produtora tem muito a ver com a arquitectura, porque tem muito a ver com essa leitura de espaço que ele me ensinou.

Nesta área há um artista que me disse uma vez uma coisa que me marcou, porque eu ainda não estava a trabalhar nisto a 100%, foi o C215 quando esteve em Lisboa. Ele pediu-me para lhe fazer a produção e um dia íamos no carro e ele disse “Tens consciência da responsabilidade que tu tens?” e eu ri-me e eu disse “Sim, não sei, mas logo se vê”. E é incrível que isso é algo que me acompanha desde sempre, a responsabilidade que tu tens ao propor coisas em espaço público em que aquilo vai ser vivido, vivenciado e visto por centenas de pessoas, e tens que ter consciência que estás a mexer com as suas vidas, que a vista da janela de algumas pessoas nunca mais vai ser a mesma. Há uma responsabilidade nisto de propor coisas e pôr artistas a trabalhar com a vida das pessoas. Nunca encaro as coisas que nós fazemos como mera decoração.

A humildade que encontro em muitos artistas estrangeiros é incrível, algo que por vezes falta em Portugal. Por vezes até tens receio de trazer alguns artistas, será que vamos estar ao nível deles, etc, mas depois descobres que são tão humildes.

Eu sou muito inspirada por pessoas. Em Estarreja, em 2017, falaram-me de uma pessoa que fazia tamancos. De repente estás com uma senhora, que aos 14 anos o pai morreu, e ela começou a fazer tamancos e fez milhares ao longo da vida, uma mulher com 92 anos e uma vida gigante, uma história de vida brutal, uma energia incrível. Conhecer pessoas assim é extraordinário. Já em 2017, a pessoa que eu pedi ao Vhils para ele fazer na parede, a Dona Florinda, tem uma história de vida muito inspiradora. Portanto eu sinto-me sempre inspirada por pessoas super anónimas que me transformam.

“A cidade é mesmo de todos e acho que isso falta às pessoas, perceberem que são donas do espaço público, que não quer dizer que exista total liberdade para todos, apenas que tem que ser mediada.”

3 – A quem é que pertencem as ruas de uma cidade? Achas que pertencem a quem lá vive ou a quem lá passa?

A toda a gente. E o que é interessante na cidade é isso, tu que vives, vives de uma maneira nesta rua, quem passa vive de outra maneira, quem rege leis sobre esta rua tem outra maneira de ver esta rua e tudo isso é que faz o intricado que é o espaço urbano. Quantas mais camadas tiveres melhor, tens vizinhos espetaculares, tens uma vizinha que está sempre a reclamar, tens os cães, os gatos, a senhora que alimenta os gatos na rua, tudo isto é cidade, senão passas a ter a cidade limpinha para o turista, a cidade vizinhança perfeita, que não existe. A cidade é mesmo de todos e acho que isso falta às pessoas, perceberem que são donas do espaço público, que não quer dizer que exista total liberdade para todos, apenas que tem que ser mediada.

Tem sido muito interessante trabalhar em muitas cidades, chegar a uma cidade que está estagnada, onde as pessoas não têm noção destas várias camadas e nós conseguirmos corrigir e propor coisas que secalhar quem lá vive não consegue, porque secalhar tem uma visão formatada, e muitas vezes está algo obvio para se fazer e é preciso alguém de fora vir propor isso, e acho isso muito interessante. Nós em Portugal temos um bocado estigma e preconceito em relação a quem é do Sul e vai trabalhar para o norte e vice versa, e isso é algo que sofremos na pele. Há muito a cultura do nosso bairrinho, porque é que vêm estes e não os artistas de cada cidade, ou porque é que chamamos estrangeiros e não trabalhamos só com portugueses. Acho que agora as pessoas começaram a entender mais isto, mas o interessante é misturar isto tudo.

4 – De que forma é que podemos usar a tua sabedoria dos idosos? Através do teu projecto Lata 65, o que é que tens aprendido mais com eles?

Tenho aprendido muito na verdade, a nível humano. Uma das razões pela qual faço o Lata 65 tem a ver com precisamente isto, é acabar o workshop e sentir que há um interesse, que houve aprendizagem e acabas mesmo bem disposto, que deste e recebeste muito, e por vezes não deste assim tanto e recebes tanto mais, porque é um grupo etário que tem muito pouca atenção, cuidado, poucas actividades direccionadas a eles e espaços para serem criativos. Com crianças foi o oposto, sempre senti que perdia tempo, estás a tentar motivá-los e a maioria, salvo algumas excepções, não se interessam, acham que já sabem, e com os idosos é o contrário, eles estão sedentos de aprendizagem e da descoberta que fazem deles próprios. É uma geração onde existe curiosidade, algo que não vejo nas crianças de hoje em dia, julgam que já sabem tudo.

Tenho aprendido a trabalhar com pessoas de 80 anos que ainda são jovens. Conversamos muito, porque o workshop é à base de falar e ouvir e ouves muitas histórias de vida, coisas feias e aprendes isso tudo.

5 – Sendo a Covilhã uma cidade ligada à indústria têxtil de forma bastante intensa, pelo menos há alguns anos atrás, achas que isso te influenciou a criar os projectos que criaste?

 

Além de ser da Covilhã eu sou serrana e a Serra tem uma grande influência na minha maneira de estar e ser, tal como ser do interior também tem. O facto de ter crescido no interior, das limitações todas que tu tens a todos os níveis, cultural, ensino, experiência, música, tudo, faz aumentar a curiosidade, o querer saber e descobrir mais. É impossível dizer que consigo separar a minha maneira de trabalhar e de ver o mundo com aquilo que eu sou. Obviamente que o sair dali, viajar, estar aqui e perceber o que é bom e mau em estar fora molda-te todos os dias na tua forma de olhar para determinado território para o qual estás a trabalhar.

No Wool e nas outras coisas que organizámos lá, inspira-nos a importância que a Covilhã já teve na história e que hoje não tem. É frustrante para nós, é frustrante continuar a fazer um projecto que temos clara noção da importância que tem, com instituições governamentais do nosso lado a achar que sim, que tem muita importância, empresas grandes, médias, locais que sim, sabem o contributo que o festival dá à cidade, porque o que nós fazemos é trabalhar para a cidade, promover a cidade, no território e fora dele, porque é a promoção que conseguimos fazer, mas é frustrante quando todos os anos é uma luta para conseguirmos financiamento, mas sempre foi assim, era óptimo que mudasse. Isto motiva-nos, porque desenhamos um projecto que pega muito nisso, no homenagear e foi o primeiro projecto onde eu estive envolvida, e na verdade tem sido um bocadinho o molde e talvez a única coisa que eu vou repetindo nos vários sítios, e que na verdade é sempre diferente, que é homenagear, homenagear o conhecido, o desconhecido, tudo. Através da arte consegues contar a história da cidade, o dia a dia, as lendas, ditados populares, tudo.

6 – De que forma é que a arte urbana pode diminuir a diferença entre os seres humanos? Como o exemplo de Setúbal, do Bairro da Bela vista que com o dinamismo criado através da arte urbana teve muita gente visitar.

 

Eu acho que a arte urbana é um instrumento de transformação muito poderoso a vários níveis. Chega com grande naturalidade e facilidade a qualquer pessoa e estrato social, qualquer um pode ir na rua, olhar e sentir-se interessado em saber mais ou não, não existe aquela fronteira de entrar numa galeria e tentar perceber a peça. O interessante da arte urbana é que o artista até pode fazer aquilo com um intuito e história por trás, mas tu podes ler outra coisa completamente diferente e ser válida da mesma maneira. Não nos podemos esquecer que, principalmente há dois anos, houve um boom de festivais e principalmente a arte urbana em Portugal é uma moda e é muito considerada decoração. Depois quando entras num território que é um bairro social tem que ser trabalhada de maneira diferente. O que aconteceu na Bela Vista em Setúbal é o que acontece em muitos outros bairros e que também acontece bom e mau. Tens muitos bairros sociais em que apenas colocam lá artistas a pintar para se dar uma nova imagem, mas que depois não se trabalha a massa de gente que lá vive, não se trabalha com essa comunidade. Infelizmente há muitos exemplos desses. Eu não estive na Bela Vista, por isso não posso falar desse caso.

Nos projectos que nós temos tentamos sempre fazer essa relação e trabalhar de várias maneiras. Só o contacto do artista com a comunidade faz com que cries relações e depois tem a ver com a escolha dos artistas, há alguns que não sabem lidar com pessoas e não os colocas a trabalhar num bairro social.

Por vezes as pessoas quando vêem esses casos, como a Bela Vista, têm curiosidade de ir lá ver e esquecem-se que é um bairro social, deixam de pensar que pode ou não ser perigoso, ou seja, consegues quebrar muitos preconceitos que existem. O Lata 65 tem muito a ver com isso, com o preconceito dos velhinhos não irem para a rua, não saberem pintar ou usar as ferramentas. Nós mostramos que isso não é assim e que os preconceitos estão mesmo apenas na cabeça das pessoas. A arte urbana tem esta capacidade de transformação social, cultural, económica, turística, etc.

“Nas redes sociais muitas vezes as fotos são partilhadas sem o nome do artista, já o resto da estrutura, promotor, organizador, etc, nunca existem. Há aqui muita informação que se perde, as pessoas nem estão interessadas, mas pronto, deveriam estar. Quando o artista vai fazer o seu trabalho já há um grande trabalho feito por trás e os créditos têm que ser dados a toda a estrutura que possibilita isso. A arte urbana para mim é trabalhar o espaço público, ir lá e ver.”

7 – Até que ponto é que o mundo digital mudou a consciencialização que temos em relação à arte urbana? Através do mundo digital o instagram torna-se uma galeria no teu telemóvel.  Achas que transformou a própria arte urbana?

 

Eu acho que mais do que outra coisa transformou a forma de promoção de um artista, ou seja, o artista já não precisa de pertencer a uma galeria ou um associação para se promover, tem as suas redes e promove-se nelas, e há vários artistas que fazem isso muito bem e que se promovem assim. Isso veio alterar toda a dinâmica que existia no mercado. Quando o artista consegue promover-se directamente para venda, comissões, existem estruturas que também têm que se transformar. Acho que o artista não tem que ser blogger, nem youtuber, nem comercial, ou seja, tens vários artistas que são muito bons, mas perdem-se neste número infindável de personagens que uma estrutura tem. Não tem que ser o artista a pensar o que vou postar hoje nas redes sociais, negociar isto, responder a emails, etc, mas muitos artistas vivem na ilusão que conseguem fazer tudo. O que acontece na realidade é que passam muitas possibilidades ao lado porque nem se perde tempo com elas. O que mais conheço são artistas que nem respondem a emails porque pensam “ah, esta não interessa”, mas secalhar é a que deveria interessar mais. Por isso é que é importante existirem estruturas por trás que te fazem esse trabalho e que têm as funções e disponibilidade de analisar tudo o que te chega e escolher qual será o melhor caminho e projectos, e nisso as redes sociais vieram alterar bastante.

A percepção de arte urbana foi mediatizada, a moda vem daí, do instagram, por exemplo, mas isto na verdade não é nada, tu não sentes, não vais ao sítio e não percebes a escala da coisa. Acho que as pessoas vivem numa mentira. Eu sou sempre apologista de ir ver, obviamente não podes ir a todos os sítios, mas sempre que possível gosto de ver para perceber, e como é o meu meio, porque sou arquitecta, tenho noção das dimensões, que secalhar outras pessoas não têm.

Nas redes sociais muitas vezes as fotos são partilhadas sem o nome do artista, já o resto da estrutura, promotor, organizador, etc, nunca existem. Há aqui muita informação que se perde, as pessoas nem estão interessadas, mas pronto, deveriam estar. Quando o artista vai fazer o seu trabalho já há um grande trabalho feito por trás e os créditos têm que ser dados a toda a estrutura que possibilita isso. A arte urbana para mim é trabalhar o espaço público, ir lá e ver.

8 – O que é para ti a arte urbana portuguesa, como é que pode ser definida e caracterizada?

 

Eu acho que não consegues fazer isso. Há artistas que conseguem incutir isso no seu trabalho e aí claramente o Diogo Machado/Add Fuel é um claro exemplo. Tens outros artistas que o fazem de forma subtil, como o Mário Belém, a forma como ele trabalha os ditados populares e as figuras humanas, têm muito de português, mas no geral é impossível chegar lá dizer “ah sim, este artista é português”. Estou a lembrar-me agora do Mário Belém quando foi a Paris, ele fez uma expressão portuguesa, mas escrita em francês. Eu sei que ele é português, mas secalhar quem for ali vai achar que ele é francês porque aquilo está escrito em francês. Da mesma maneira que olho para muitos internacionais e também não consigo dizê-lo. Por exemplo agora estamos a trabalhar com um espanhol e eu diria que ele é de Miami e não é. Estamos a viver num mundo muito universal e a arte urbana é um movimento muito universal, portanto é quase impossível fazer isso.

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