João Tordo

Ilustração por: Uma Joana

Entrevista por: João Miguel Fernandes

João tordo escritor

Ocupação: Escritor

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1 – Fala-me de um momento da tua infância que te tenha marcado particularmente.

Quando penso na minha infância infelizmente ou felizmente penso em solidão, sobretudo. Essa é uma palavra que as pessoas interpretam de maneira negativa, e tem um lado negativo claro, sobretudo quando se é miúdo não é suposto estar-se sozinho. Mas a minha infância foi muito passada comigo, foi muito passada comigo a descobrir uma série de coisas que depois se vieram a confirmar, que gostava muito de ler, de escrever e, portanto, passava muito tempo sozinho também como defesa.

Lembro-me do Guernica do Picasso, porque os meus pais tinham esse quadro em casa, em Lisboa. Eu nasci no centro de Lisboa, no que se chamava antigamente a Associação dos Empregados do Comércio, que era uma espécie de maternidade que ficava na Rua da Madalena, mesmo no centro da baixa. O meu pai tinha na parede, embora me tenham dito recentemente que não era assim tão grande, uma serigrafia desse quadro do Picasso, que é a todos os títulos um quadro assim um bocado assustador para um miúdo, tem um cavalo com a cabeça virada ao contrário, uma luz estranha. E lembro-me dessa memória, de ter medo desse quadro, mas depois disseram-me que era um quadro pequeno, embora na minha cabeça fosse algo enorme, quase na parede inteira.

2 – Que pessoas que conheces/conheceste mais te marcaram na tua vida de um ponto de vista pessoal?

Eu tive um professor de português no décimo ano que foi bastante importante. Isto funde-se com o profissional porque eu era bom aluno. Ele foi o primeiro professor que eu tive que percebeu que eu tinha talento para a escrita e que me incentivou a escrever, descobrindo que eu escrevia pequenos contos. Acabei por mostrar-lhe os contos e ele lia-os, corrigia-os e dava sugestões. Isso era raro em Portugal em 1989/1990, portanto foi há muito tempo. Ele foi uma pessoa importante nos dois sentidos.

Os meus pais marcaram-me, obviamente, porque são figuras sempre importantes na nossa vida, de maneira positiva e negativa; também a minha irmã gémea, a Joana, nós crescemos juntos; mais tarde alguns amigos que ainda mantenho, que são basicamente o meu grupo de amigos e que estão todos relacionados com esta área, há um deles que é escritor, outro é argumentista, outros estão relacionados com outras áreas criativas. Fui-me rodeando, assim, de pessoas com as quais eu sinto alguma afinidade. Os meus colegas em Londres, quando lá estudei também foram importantes; uma ou outra pessoa que conheci quando vivi nos Estados Unidos, mas é difícil identificar só uma pessoa.

3 – Calculo que seja um desafio escrever livros numa era digital em que a atenção é cada vez mais reduzida ou consideras que quem gosta de ler é o mesmo público e desta forma nada mudou?

Acho que há certas coisas que são bastante evidentes do tempo em que nós vivemos. A vida transformou-se numa coisa visual, muito mais do que uma coisa falada ou escrita. O lado negativo disto é que vês muitas pessoas nas redes sociais, as pessoas procuram sobretudo uma espécie de aprovação da maneira como parecem, muito mais do que o modo como são. Havia um filósofo romano, o Séneca, que dizia que temos que tratar do espírito acima do corpo, ou temos que tratar do espírito assim como o corpo, e o que as redes sociais fazem neste momento é tratar muito mais do corpo do que do espírito, isso é um sinal dos tempos. O cérebro é um órgão maleável, nós vamos moldando o cérebro conforme aquilo que lhe vamos dando. Se eu passar o dia todo em frente à televisão o meu cérebro vai ter estímulos que correspondem ao prazer que é estimulado pela televisão, e vai ter dificuldade em responder a estímulos que sejam mais difíceis, e a literatura a todos os títulos nunca foi um projeto de facilidade, mas sim um projeto de verdade, de tentar dizer a verdade através da imaginação. Não sei bem como definir a literatura, mas parece-me que é mais ou menos isto. Quando leio um texto literário, a ressonância que faz em mim é de ser algo verdadeiro.

Em Espanha é possível vender em massa, mas em Portugal a literatura passou para segundo plano e o que se vende em massa são coisas que passam por literatura, mas que não são, são produtos feitos nas redes sociais, pessoas que têm muitos seguidores e que acabam por escrever livros que são evidentemente, para qualquer pessoa com o mínimo de cultura literária, pouco ou nada interessantes. Isso é um subproduto do que as redes sociais podem produzir, portanto eu acho que há espaço para tudo, isto não é uma crítica, as pessoas que escrevam o que quiserem e comprem aquilo que quiserem, acho que vão sempre existir pessoas que se interessam por livros e um público leitor, mas se calhar no futuro vai ser mais reduzido por causa da maneira como o nosso cérebro está a ser reorganizado com as redes sociais. Isto é a escolha de cada um, para mim passar o dia nas redes sociais é inconcebível, seria uma vida miserável, mas para outras pessoas é a vida que eles escolhem, não tenho nada a ver com isso.

“Quando escrevo estou tão imerso que não tenho muito espaço para sentir, normalmente o sentimento só vem quando termino o livro e às vezes é bom ou profundamente complicado, porque acontece esse tal reconhecimento do que eu fiz das personagens e de mim, porque são parte de mim.”

4 – De que forma é que uma língua pode influenciar a escrita no sentido de criação de personagens, um mundo, etc.? Consideras que a língua de um país tem características culturais que influenciam o que pode ser escrito ou achas que se consegue escrever um livro em Inglês e Português e transmitir exatamente o mesmo?

Acho que depende do tradutor e depende do grau de conhecimento que tu tens do autor que estás a traduzir, assim como do entusiasmo que tens pelo que estás a traduzir. Já me aconteceu estar a traduzir autores de que gosto muito e tratá-los como se o texto fosse meu, portanto aí o desafio é tirar-me completamente daquele lugar de modo a que não seja eu, e encontrar esse espaço é muito complicado. O desafio é pensar como é que o Raymond Carver escreveria se fosse Português. Por outro lado, quando se traduzem coisas de que não se gosta aí o desafio é maior, porque se torna mais cansativo. Já tive essa experiência e prefiro não voltar a tê-la, porque de facto não dá prazer nenhum, e a tradução é também uma forma de reinterpretar e dar uma nova língua àquelas ideias e isso não é fácil.

Há livros que são intraduzíveis, se pegares no Ulysses de James Joyce aquilo é intraduzível, seja qual língua for, por melhor que seja o trabalho que o tradutor português tenha feito, e pessoalmente acho que fez um excelente trabalho, mas não é a mesma coisa, não é o mesmo livro. Contudo, há livros que são mais aproximados, como os do Raymond Carver, são trabalhos mais simples o facto de fazê-los falar português. Outros não são possíveis, temos que tentar fazer uma aproximação.

5 – Quando crias um personagem costumas criar toda a sua história desde o nascimento ou isso é diferente de personagem para personagem?

Eu quando parto para um livro tenho um impulso ou uma ideia que já vem de longe que é muito fixa e obsessiva, e o que acontece é que as personagens vão nascendo enquanto eu as escrevo e crescendo enquanto eu escrevo, e é essa descoberta das personagens que eu gosto de fazer enquanto vou redigindo um livro. Todos os dias as personagens vão começando a tomar forma, embora certas personagens, como a Lia (A Mulher que Correu Atrás do Vento), tenha sido inspirada numa rapariga que conheci há uns anos, portanto havia ali uma forma que já estava quase dada. O carácter e motivações de cada personagem prova-se na página, sobretudo naquilo que as personagens fazem e, como na vida, são as nossas ações que nos definem, e isso acaba por ser um desafio da própria escrita, ir encontrando os personagens. Não, eu não faço qualquer esboço ou fichas, não sou esse tipo de escritor, eu gosto de ir descobrindo as coisas enquanto elas acontecem.

6 – Até que ponto é que te deixas absorver pelas sensações e emoções das personagens que crescem dentro de ti?

Depende dos livros. O livro que publiquei em 2018 (Ensina-me a Voar sobre os Telhados) tem muito mais de biográfico do que “A Mulher que Correu Atrás do Vento”, até porque este último é um livro contado do ponto de vista feminino, não tão próximo de mim, ainda que tenha coisas minhas. Eu acho que o que é difícil de desassociar é mais a maneira como as personagens se vão libertando das amarras que eu lhes ponho. Quando lanças um personagem numa história vais lançá-la naturalmente com um certo grau de conflito, dificuldade e de peripécia. Há personagens que depois fazem o reconhecimento aristotélico, dão-se conta da decisão das suas escolhas, como fazemos na nossa vida, Aragnoris, e tu tomas essa decisão com a personagem, mesmo que seja contrária àquilo que seguirias. E por aí vou compreendendo que há um bocado de mim em todas as personagens e consigo ver todos os meus lados a funcionar, o lado alegre, sombrio, bom, mau, etc. A compreensão de que temos todos estes lados e que é a nossa escolha e decisões que levam a essa Aragnoris é por vezes assustadora, porque percebemos que há um lado da vida que não está nas nossas mãos, o lado controlado por uma força superior, mas as nossas decisões são as nossas decisões.

Quando escrevo estou tão imerso que não tenho muito espaço para sentir, normalmente o sentimento só vem quando termino o livro e às vezes é bom ou profundamente complicado, porque acontece esse tal reconhecimento do que eu fiz das personagens e de mim, porque são parte de mim. Desculpa a resposta tão complicada, mas é um processo complicado para mim. É por isso que a literatura é tão complicada e fácil ao mesmo tempo. Pode ser tão simples de ler, de forma fluída, mas para quem escreve é altamente conflituoso e turbulento, por isso é que os escritores as vezes têm vidas difíceis, porque têm que lidar com o que está fora deles, bem como com o que está dentro deles e isso não é para toda a gente, assim como ser advogado, bombeiro, médico, etc., é preciso ter uma certa constituição mental e psicológica, que não é melhor ou pior que outras, é apenas especifica.

7 – A literatura é a base de várias artes como o cinema e o teatro. Sentes que gostavas de ter um papel mais ativo no cinema e teatro ou é algo que não procuras explorar?

Olha, eu por vontade só escrevia livros (risos), é o que eu gosto mesmo de fazer e um dia chegará em que eu poderei fazê-lo, já estive mais longe. O processo de escrever TV e cinema tem uma grande vantagem, é um trabalho coletivo, normalmente não se faz sozinho e portanto implica um confronto imediato com os outros, ao contrário do livro, que passo meses e meses sozinho a escrever e só há um confronto quando o entrego à editora. Com o guionismo tens um feedback imediato, o que é bom porque te ajuda a crescer, não só como escritor, mas também como individuo. Se o faria voluntariamente? Não sei, não sei se tenho vontade. Acho que ao fim de tantos romances e de me dedicar tanto a uma coisa só, acho que nesta vida não tenho mais espaço, nem tempo físico e mental para aperfeiçoar mais do que uma forma de arte, portanto acho que seria uma ambição demasiado grande, tendo em conta as minhas limitações, estar a ambicionar ser um grande guionista, porque acho que não terei tempo. Mas faço-o sempre que surgir um projeto interessante, claro.

8 – Consideras-te muito perfeccionista naquilo que fazes?

Sou muito perfeccionista na escrita, sim, e as vezes é uma fonte de sofrimento. Tudo o que interfere na escrita é uma espécie de inimigo, o que é complicado porque muitas vezes tenho que parar para fazer outras coisas, interromper um livro porque tenho que fazer uma viagem ou outra coisa qualquer e isso às vezes deixa-me angustiado. A escrita é uma fonte de grandes alegrias, mas por vezes é fonte de grande sofrimento, mas se não for um processo obsessivo eu não o sei fazer, e acho que muitos escritores dizem o mesmo.

“Parece-me que a sociedade de hoje em dia está construída de um ponto de vista informativo, quando ligas a rádio e jornais ou na TV dizem que aconteceu isto e aquilo, raramente dizem como é que as pessoas se sentem, portanto, uma sociedade que está construída desta forma não contempla o sentimento. O sentimento é algo individual, é muito difícil para nós enquanto sociedade encontrar compaixão, porque vivemos informativamente. Vivemos num estado de perpétuo conflito, contra o tipo que me deu um encontrão, o que me passou à frente, etc.”

9 – Achas que a dor e o caos movem mais o ser humano do que o amor? Num sentido de motivação; ou achas que ambos estão interligados?

Eu acho que são a mesma coisa, não vejo grande diferença entre doer e amar. Não sei se é possível uma viver sem a outra. Parece-me que a sociedade de hoje em dia está construída de um ponto de vista informativo, quando ligas a rádio e jornais ou na TV dizem que aconteceu isto e aquilo, raramente dizem como é que as pessoas se sentem, portanto, uma sociedade que está construída desta forma não contempla o sentimento. O sentimento é algo individual, é muito difícil para nós enquanto sociedade encontrar compaixão, porque vivemos informativamente. Vivemos num estado de perpétuo conflito, contra o tipo que me deu um encontrão, o que me passou à frente, etc.

Acho que encontramos esse estado na manifestação artística. Se fores à Gulbenkian ver um concerto vês essa manifestação no corpo e cara das pessoas, isso é a manifestação da dor em amor, é a dor que trazes do quotidiano estar em perpétuo conflito para o amor que permite sentir quando estou ali, naquele momento.

Portanto sim, acho que são a mesma coisa, mas é uma questão de alquimia quase, transformar aquilo que é metal barato em ouro (risos). Também dá obviamente para transformar o amor em dor, há muitos exemplos.

10 – No filme The Thin Red Line há uma parte em que uma das personagens pergunta à outra “Do you ever get lonely?” e ela responde “Only around people”. Li numa entrevista anterior que gostas de estar sozinho, que és uma pessoa solitária. Identificas-te com aquela resposta?

Eu gosto muito de estar com pessoas e estou muitas vezes com amigos, com família, etc. Não me sinto sozinho, sinto-me bem acompanhado, sobretudo por mim próprio, porque a minha profissão tem muito disso. Não me sinto uma pessoa solitária, sinto que preciso de estar sozinho para fazer aquilo que faço e a solidão pode ser negativa ou positiva, sem ela não podia escrever.

11 –Há alguma influência dos trabalhos de Ingmar Bergman ou de outro cineasta nas tuas obras? Alguma influência do cinema?

Eu gosto muito do Bergman porque ele é um cineasta que tem alguma coisa a ver com os ambientes que eu às vezes descrevo ou me inspirei, sobretudo nos livros mais recentes. Há alguns filmes dele que eu gosto imenso, talvez menos conhecidos, como “Summer with Monika” e o meu favorito, “Winter Light”, que é um filme lindo sobre a fé. Os filmes dele são incríveis, são muito sobre o mesmo tema, fé e esperança. O “Winter Light” foi importante porque quando estava a escrever o “Ensina-me a Voar sobre os Telhados”, acabei por ir pegar algumas coisas desse filme. Acho que o Bergman tenta trazer tudo o que é místico para tudo o que é humano. Muitas vezes andamos à procura de Deus quando no fundo aquilo que procuramos está aqui connosco.

12 – Há uma certa tendência para o ser humano esquecer a morte até que esta lhe bate à porta mais próxima. Achas que devíamos preparar melhor a sociedade para este tema que ainda continua um pouco como um tabu?

Isso é difícil de responder, porque uma coisa é a morte de uma pessoa que me é próxima, que é trágico, outra é a morte de 300 pessoas que vivem num país a 10.000 kms.

Eu acho que nós, como sociedade, tendemos a esconder os mortos, o mais depressa possível. Não temos grande dignidade com os mortos, são coisas para saírem dali, para não afligirem os vivos e acho que é natural que seja assim, nós somos criaturas frágeis, sermos confrontados todos os dias com a nossa mortalidade pode ser um processo bastante cansativo e, portanto, até uma certa idade temos uma ilusão de que nunca vamos morrer. Recentemente escrevi uma reflexão de uma das personagens de um livro meu em que dizia que a morte é o grande todo, ou seja, é para onde se esvai toda a individualidade e toda a nossa construção enquanto “eu”. A morte é uma espécie de coletividade de gente anónima e isso é muito difícil de concebermos, que somos só mais um e que não iremos ser nada. Acho que essa educação não passa por nenhum governo, política, depende de cada um, a maneira como quer aprender e encarar o fim. Estando vivos, refletir sobre a morte vale a pena, porque nos ajuda a viver, mas não vale a pena passar a vida a pensar nisso.

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