Joana Ribeiro

Ilustração por: Vanessa Santos

Entrevista por: João Miguel Fernandes

joana ribeiro actriz

Ocupação: Actriz

Clica aqui para leres a entrevista em Inglês


1 – Fala-me de um momento da tua infância que te tenha marcado particularmente.

Lembro-me de estar em casa do meu avô e dos meus primos da Polónia estarem em Lisboa. E do meu avô trazer um copo de Vodka e gabar-se do quão forte que aquela Vodka era e que tinha de se ter “tomates” para beber dum trago. E a minha tia pegou no copo e bebeu como se fosse água. E no fim ainda disse: “só isto? Fraquinho” não sei porquê, mas lembro-me bastantes vezes disto. Achei super badass da parte da minha Tia.

2 – A evolução digital, nomeadamente das redes sociais, tem misturado talento e mediatismo. Que limites colocas a ti própria para que os espectadores/seguidores do teu trabalho se concentrem apenas na tua arte e não tanto na Joana como figura mediática ou celebridade?

Eu sou, por natureza, uma pessoa reservada e não partilho a minha vida com um grande número de pessoas, por isso parece-me natural que a minha rede social seja uma extensão disso. Sempre me fez confusão quando as pessoas querem saber muito sobre a minha vida, mesmo antes de ser actriz. Tenho noção de que hoje em dia o conceito celebridade é importante e muitas vezes determinativo na escolha de um actor e não falo apenas em Portugal, em Hollywood, por exemplo, há muitos actores a serem escolhidos pelo alcance que têm nas redes sociais. Mas também acho que quando não se tem rede social ou quando não nos expomos na rede social isso também cria mistério e curiosidade. Para mim nunca fez sentido falar da minha vida privada ou mostrá-la. É algo natural, não coloco assim nenhum limite, pelo menos conscientemente.

 

 

“E cada vez mais há series melhores a ser feitas. Acho que nesse aspecto a televisão tem evoluído muito. A qualidade é cada vez melhor. Há actores que sempre fizeram cinema a fazerem series e o mesmo com os realizadores. Acho muito interessante o que está a acontecer pois permite uma maior produção e rotação de trabalho. “

3 – Num mundo cada vez mais digital e online, de que forma é que vês a evolução das telenovelas num formato de TV? Achas que o futuro passa exclusivamente por séries digitais ou a TV continuará a ter o seu espaço?

Acho que a TV continuará a ter o seu espaço sim, mas terá de se adaptar. Tal como o cinema se está a adaptar a plataformas como a Netflix, HBO, Amazon etc. Há espaço para tudo. E as pessoas vão sempre querer ver produtos de ficção para se entreterem e saírem um bocado do seu próprio mundo. E cada vez mais há series melhores a ser feitas. Acho que nesse aspecto a televisão tem evoluído muito. A qualidade é cada vez melhor. Há actores que sempre fizeram cinema a fazerem series e o mesmo com os realizadores. Acho muito interessante o que está a acontecer pois permite uma maior produção e rotação de trabalho. E também porque há histórias que se contam muito melhor numa serie com 6 episódios do que num filme de 2 horas. Há tempo para contar as coisas. Por exemplo no caso da série que vai ser adaptada do livro “100 anos de solidão” de Gabriel Garcia Márquez, a família só vendeu os direitos por sentir que a única maneira justa de contar aquela história é numa serie. O mundo está a mudar e a maneira como consumimos ficção também. Só nos temos de adaptar a isso.

4 – Recentemente trabalhaste com vários actores e realizadores com grandes carreiras, como Harvey Keitel, Terry Gilliam, Marco Pontecorvo, Adam Driver e Jonathan Pryce. A grande questão é: que palavras em português é que lhes ensinaste? E o que é que aprendeste com alguns deles?

Ao longo da rodagem iam-me perguntando certas expressões, principalmente quando estivemos em Tomar, mas a maior dificuldade era dizer o meu nome, nunca conseguiram… Aprendi muito com o Terry, aprendi a não pensar tanto, tenho tendência para pensar demais quando trabalho e com ele não dava, era cada dia diferente e as coisas mudavam à última hora, portanto não dava para fazer planos. Com o Marco aprendi a trabalhar o texto até à exaustão. Acho que nunca trabalhei tanto um texto e maneira de o dizer como com o Marco. Aliás, foi o trabalho que tive com o Marco e com a Marcella (a nossa dialect coach) que me ajudou a encontrar a Virgem Maria. Acho que aprendi muito apenas de observar cada um deles a trabalhar, a forma como cada um trabalha. Isso é a parte mais interessante do nosso trabalho, poder trabalhar com todas estas pessoas diferentes e deixarmo-nos moldar por elas.

5 – Sei que não gostas muito de falar da tua vida privada, mas de certo que podes partilhar alguns dos filmes que mais te marcaram ao longo da tua vida.

 

Ai… tantos! Todos os filmes do Cassavetes, Godard, “Paris Texas” de Wim Wenders, “Les 400 Coups” de François Truffaut, “Red Shoes” de Michael Powell, “The apartment” de Billy Wilder, “Vale Abrãao” de Manoel de Oliveira, “The Dreamers” de Bertolucci, “Primavera Tardia” de Yasujirô Ozu, “O Leopardo” de Luchino Visconti, “Pulp Fiction” de Tarantino, “Sex Lies and Videotapes” de Soderbergh, “Holy motors” do Leo Carax e mais, tantos mais, todos os anos filmes diferentes. É engraçado perceber que alguns dos filmes que me marcaram aos 16 anos hoje em dia não me dizem nada.

6 – Sei que és uma actriz versátil capaz de representar qualquer papel, mas de um ponto de vista mais pessoal identificas-te mais com um modelo de representação natural e mais contida ou com uma vertente mais teatral e exagerada?

 

Acho que depende do tipo de projecto e personagem. Por exemplo o Terry Gilliam nos filmes dele utiliza sem dúvida um género de representação mais exagerada enquanto que certos realizadores preferem trabalhar com não actores por isso depende sempre do projecto e do tipo de personagem que tenho. Gosto de tudo e de trabalhar com pessoas diferentes que procurem coisas diferentes em mim. Ainda estou à procura do meu tipo de representação, preciso de trabalhar mais e com pessoas diferentes para perceber acho eu.

“Sinto que o teatro pertence mais ao actor e tudo o que envolve uma câmara acaba por pertencer mais ao realizador e editor. Já vi grandes interpretações perderem-se na edição e o contrário, interpretações salvas pela edição. “

7 – O que é que te motiva a fazer teatro e o que é que te motiva a fazer TV? De uma perspectiva de representação e preparação, qual a grande diferença entre ambos? Excluindo obviamente o facto de que um acontece “ao vivo” e outro tem pausas.

 

No Teatro há uma constante mudança, todos os dias se pode fazer diferente e aprender algo novo sobre a personagem e o que estamos a fazer. Se há alguma coisa de que não gostámos numa noite podemos sempre melhorar na noite seguinte, é um constante aperfeiçoamento do trabalho. Em TV e Cinema uma vez que está feito, está feito e já não nos pertence, pertence ao realizador e ao editor. Já soube de histórias onde mudavam a boca de actores em pós-produção ou iam buscar reações a cenas diferentes. Sinto que o teatro pertence mais ao actor e tudo o que envolve uma câmara acaba por pertencer mais ao realizador e editor. Já vi grandes interpretações perderem-se na edição e o contrário, interpretações salvas pela edição. Acho que muitas vezes não temos noção, mas um filme faz-se na sala de montagem.

8 – Quais são as coisas que mais nos aproximam e quais são as coisas que mais nos distanciam enquanto seres humanos?

 

Compaixão é o denominador comum nessa pergunta, quando existe aproxima-nos, mas a falta dela afasta-nos. Infelizmente parece que temos cada vez menos compaixão pelo próximo.

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