Joana Dias

Ilustração por: Joana Mendes

Entrevista por: João Miguel Fernandes (originalmente publicada em 2014)

Ocupação: Jornalista, Rádio Locutora e Apresentadora

Clica aqui para leres a entrevista em Inglês


1 – Fala-me sobre um momento da tua infância que te tenha marcado bastante.

Quando penso na minha infância lembro-me sempre do tempo que passava na casa da minha avó, no campo. E dos momentos que passava com uma amiga, que tinha idade para ser minha avó e que no fundo são pessoas únicas, que gostaram de mim de uma forma única e nunca vão haver pessoas como elas, que me proporcionaram momentos únicos. Lembro-me dos pés descalços, do campo, dos animais, foi uma infância muito feliz.

2 – Como foi crescer em Coimbra? Achas que foi uma cidade que evoluiu culturalmente?

Actualmente não estou muito a par do que se faz em Coimbra. Sempre achei que era uma cidade que podia ter muito mais coisas a acontecer, porque tem uma grande massa estudantil. Quando era adolescente aconteciam muito mais coisas e havia muito mais sítios do que agora, apesar de ir lá raramente, ou com muita pressa. É uma cidade muito confortável, que recebe muito bem as pessoas, mas estagnou um bocado. Possivelmente tem a ver com o pouco cuidado que temos com a cultura e não puxarmos por isso. Em Coimbra há a loucura da queima das fitas e depois durante o resto do ano parece que morre, é uma cidade lindíssima, mas falta algo. Acho que o pessoal quer eventos mais ligados à universidade e às praxes, às tradições, esquecendo-se por vezes do resto.

Quando tinha dezasseis anos faziam-se concertos na casa das químicas, um parque de estacionamento, algo que nunca seria permitido hoje em dia. Ninguém morreu naquela altura, por isso secalhar nem era assim tão perigoso. As pessoas mexiam-se mais, mesmo sem muito dinheiro. Actualmente há um facilitismo um pouco erróneo, que é a internet, porque há uma maior facilidade em se ir tocar a qualquer lado, podemos marcar um concerto com um email, mas isso às vezes é um engano. Em Braga há um movimento incrível, unido, porque é que Coimbra não pode ser assim?
Na minha adolescência aprendi que se atacares a pessoa do lado nem tu nem ela vão chegar a lado nenhum. Acho que Coimbra ficou um pouco assim, há pouca entre-ajuda.

3 – Se fosses tu a mandar em Portugal, o que farias face à crise que vivemos?

Digo-te já que não tenho grande espirito de liderança, por isso seria certamente um desafio. Mas primeiramente demitia o governo e punha na prisão os tipos que nos andam a roubar, obrigando-os a pagar o que roubaram. Claro que isto é tudo idílico, mas ia tentar que houvesse justiça social, para toda a gente viver como deve de ser. Não consigo perceber como é que há gente que tem dinheiro para ir jantar aos restaurantes mais caros todos os dias e há gente que não tem sequer comida para dar aos seus filhos. Obviamente que isto está mal distribuído. No nosso país não se fala muito disso, mas há máfia. E se eu vejo que na Islândia os tipos que roubaram foram presos, aqui há os intocáveis e acabava-se com isso de vez. Ah, e mulheres ao poder! Não, estou a brincar, eu sou pela paridade. A democracia também já não funciona. Vivemos em democracia? Não sei se ainda vivemos em democracia. O nosso problema é não nos matarem na rua, matam-nos de forma silenciosa.

4 – Como foi para ti estudar na faculdade de letras da universidade de Coimbra?

Cresci em Coimbra e fiz quase tudo lá, menos acabar a faculdade. Eu sabia que gostava de ler, escrever, mas acabei por não gostar do curso. Depois surgiu uma oportunidade para vir para Lisboa e agarrei isso. Sei que é importante estudarmos e termos um curso porque é conhecimento, mas não me sinto inferior a ninguém por não o ter.

“Até agora já promovemos muitas bandas, não dou prioridade às bandas da Antena 3, elas têm o seu espaço, nem escolho as bandas pelo meu gosto pessoal. Quando chego ao fim as bandas nunca me desiludem, vejo sempre um amor pela música, mesmo que sejam de um estilo musical com o qual não me identifico. “

5 – Porque é que decidiste participar no casting do Curto Circuito em 2003?

Não fui eu que me inscrevi, foi uma amiga minha. Eu nunca tinha visto o Curto Circuito, ela é que me disse, “epá, vi um casting que é a tua cara”. Eu sempre fugi das cameras e das máquinas fotográficas. Há uma altura da minha juventude em que não tenho fotos porque fugia de todas as máquinas. Naquela altura estava um pouco desorientada, estava na faculdade, sem gostar do curso e pensei “ok, vou experimentar”. Sempre achei que ia lá uma vez e que não ia passar, aliás nunca tinha vindo a Lisboa sozinha, por isso foi uma experiência completamente nova. Numa situação normal pediria a alguém para vir comigo, mas quando tens muita vontade em mudar algo, em conseguir chegar a uma meta, tu fazes as coisas de outra forma. E quando vim a Lisboa fui assaltada no metro sem perceber, porque tinha a mochila à frente e não dei por nada. Mais tarde fui também assaltada no Bairro Alto e quando vim viver para Lisboa no início assisti a um esfaqueamento no Adamastor. Cheguei a questionar-me porque é que tinha vindo para esta cidade, mas ultrapassei isso e correu tudo bem.

6 – Estiveste no Extreme Sports Channel e apresentaste depois o 6teen na Sic Mulher. Como foram essas duas experiências?

Eu estive na última fase do casting Curto Circuito e na altura não passei. No fim do casting o director Francisco Penim telefonou-me e disse-me que tinha gostado muito do meu trabalho, que quando tivesse um novo projecto me iria chamar. Eu na altura estava em Coimbra e achei que não devia ficar à espera que ele me chamasse, então fui logo para Lisboa. Tive a trabalhar numa loja de roupa. E um dia ligaram-me para fazer um programa com o Alvim, algo relacionado com as pessoas irem muito mal vestidas e depois ganhavam algo. Fiz isso e o realizador gostou bastante do meu trabalho, aconselhando-me ao canal Extreme Sports Channel. Fui para lá para ser apresentadora, mas acabei por fazer tudo menos ser apresentadora. Tratava do site, era jornalista, era tradutora, tudo menos apresentadora. E um dia cansei-me de estar à espera e fiz um planeamento do que se podia fazer para o canal e como aquilo não avançava fui falar com o meu chefe. Quando cheguei lá ele respondeu-me, “Sabes, o ‘x’ acha que não tens perfil para seres apresentadora”. Eu ouvi aquilo, passado dois anos de estar no canal, e achei que não podia ficar em baixo. Acabei por ter muita sorte, dois dias depois ligaram-me da Sic para apresentar o 6teen. Confesso que foi das coisas que mais gozo que me deu, porque bati com a porta no Extreme e fui para a Sic Mulher apresentar um programa. Foi uma grande experiência, tenho muita pena que o programa já não exista, porque fazia serviço público, apesar de ser direccionado para o público feminino.
Mais tarde decidiram terminar com o programa, infelizmente, e o Vitor Figueiredo chamou-me para o Curto Circuito. Cheguei a trabalhar também na Sic Noticias, fiz vários festivais no 6teen e CC.

Posso dizer que a melhor experiência foi no 6teen, porque havia uma necessidade objectiva de se fazer serviço público, mas o Curto Circuito ajudou-me muito a crescer, porque o público era mais vasto. Adorei trabalhar com o João Manzarra, tivemos vários momentos hilariantes, e com membros da equipa.

7 – Lançaste o livro pontapés na gramática. De onde surgiu a ideia deste projecto?

 

Eu comecei por fazer as manhãs na Antena 3. O pontapés na gramática era uma rubrica que já existia, mas na Antena 3 acharam que era melhor acabar com essa rubrica, porque não era aquilo que deveria ser. Meses mais tarde perguntaram-me se queria fazer algo com o programa e eu como adoro a língua portuguesa aceitei o desafio. Quando era pequena andava sempre com um dicionário para ver o significado das palavras. Na Antena 3 aperceberam-se que tinha esse gosto e fizeram-me o convite. Disseram-me para falar com a professora Sandra Tavares e eu fiquei em pânico. Estive algum tempo a escrever-lhe um email com medo de colocar mal uma virgula ou algo do género. Depois acabou por me calhar a pessoa mais espectacular, tanto como pessoa como professora, com uma grande capacidade de ensino. Demo-nos muito bem, ficámos amigas e após um ano pensámos em pôr isto noutra plataforma, um livro. De forma natural surgiu esse livro, com a editora Areal.

8 – Estás bastante ligada à divulgação de novos projectos musicais nacionais, inclusive com o Zona J. Porquê essa vontade em divulgar a música nacional?

 

Quando acabei “O da Joana” estava previsto para mim um programa de baladas ao domingo à noite. Podia ter ficado calada, mas eu tinha escrito um programa em casa, o “Zona J”, que na altura não tinha nome, e fiz a minha contraproposta, porque achava que havia uma lacuna na Antena 3, não havia programas de música ao vivo. Para ouvires verdadeiramente uma banda tinhas que ir vê-la ao vivo, mas com este programa dava para transmitir às pessoas essa genuinidade de forma mais directa. O Rui Pêgo aceitou e disse que eu tinha três minutos para lhe dar um nome para o programa. Por dedução cheguei a “Zona J”. A ideia era conversar com os músicos e mostrar também um lado mais pessoal. Até agora já promovemos muitas bandas, não dou prioridade às bandas da Antena 3, elas têm o seu espaço, nem escolho as bandas pelo meu gosto pessoal. Quando chego ao fim as bandas nunca me desiludem, vejo sempre um amor pela música, mesmo que sejam de um estilo musical com o qual não me identifico. Consegui também fazer um trabalho com o David Santos (Noiserv) e os PAUS, onde os segui nas gravações dos seus discos e foi incrível.

9 – Na edição de 2014 do SBSR, foste DJ com a tua colega Vanessa Augusto. Como correu essa experiência?

 

Eu não sou DJ, nunca vou ser, mas hoje em dia qualquer pessoa mete discos. Surgiu esse convite, eu só tinha passado música num casamento e numa festa da Antena 3. Acabámos por aceitar o convite, um pouco receosas. Começámos no SBSR, agora não podemos parar (risos).

Eu e a Vanessa adoramo-nos, então foi uma experiência bastante divertida, porque nos demos muito bem, mesmo com os nervos. Há um lema que tenho na minha vida, não podemos bloquear nem ficar parados. Num directo não podes parar, podes dizer a maior asneira, mas tens que andar sempre para a frente, e acabei por aplicar isso à minha vida. Todos erramos, não quero fazer nenhum trabalho onde não erre. Claro que quero sempre melhorar, mas os erros servem para aprendermos e darem naturalidade às coisas, nós não somos máquinas, até as máquinas falham.

“O caso dos meninos em África, eles brincam com o quê? Com brinquedos inventados, feitos de latas ou madeira. Eu olho para o quarto do meu filho e ele tem vinte carros e depois vejo um miúdo na pobreza que brinca com uma pedra e curte a tarde inteira com uma pedra.”

10 – Sei que tens uma grande paixão por gatos. De onde vem essa paixão?

 

Sempre vivi com gatos, a minha primeira palavra foi “gato”, quando era miúda bebia o biberão a meias com a gata. Nós vivíamos numa vivenda, morávamos em baixo e por cima viviam as nossas vizinhas mais velhas, que eram minhas amigas e tinham muitos gatos. Nós propriamente nunca tivemos gatos, a minha mãe achava mal os animais ficarem sozinhos o dia inteiro em casa. Quando saí de casa inscrevi-me numa associação de animais e fiquei com duas gatas. Começas com duas e a partir daí já não paras. Cheguei a Lisboa com quatro gatos, depois passaram a cinco e mais tarde a seis. De repente tinha seis gatos em casa. Entretanto separei-me e eu fiquei com os gatos fofinhos.

11 – Quando eras mais nova foste encaminhada musicalmente pelos teus pais?

 

Quando era miúda os meus pais inscreveram-me num coro (risos). Não tenho grande herança musical dos meus pais, eles ouvem música normalmente. Quando andava na primária quis aprender a tocar piano, então fui aprender com uma senhora muito velhinha, à moda antiga, mas a senhoria queria ensinar-me o básico e eu queria aprender outras coisas. Ela acabou por dizer aos meus pais que eu não me conseguia auto disciplinar. Tenho alguma sensibilidade musical, mas para tocar não. É mais fácil ver os outros a tocar e dizer qualquer coisa.

12 – Preocupas-te muito com a tua carreira? É algo que planeias com alguma antecedência? Tens medo do insucesso?

 

Quando saí da televisão fiquei um bocado zangada, porque tinha estado lá oito anos, mas eu nunca fui o tipo de pessoa que anda em festas a “vender-se”. Então depois de dois anos a fazer rádio achei que não sentia falta nenhuma da televisão, que queria fazer rádio para sempre. Hoje em dia sinto alguma falta de apresentar algo, porque gosto muito de falar. Eu tenho trinta e seis anos, já não sou miúda, sou mãe de um puto com quatro anos, não consigo dizer que daqui a ‘x’ anos quero fazer isto ou aquilo. Já sei o que sou profissionalmente, mas isso foi a rádio que me transmitiu, na televisão andava um pouco a fazer o que calhava, festivais, programas, reportagens.

Agora não quero perder a minha carreira, trabalho há seis anos na rádio e sei que já não estou à toa. Na televisão tinha muito medo de perder o trabalho e ficar sem nada. Actualmente também tenho medo, mas a experiência de vida dá-nos mais segurança. Acho que podia ter um pouco mais de ambição, isso faltou-me durante muito tempo, porque nunca sabia para onde me virar. Antes esperava que a minha vida não passasse pela música e hoje em dia estou completamente ligada à música e adoro, bastante!

13 – Se tivesses que escolher um filme para os Blur musicarem qual seria?

 

“O Despertar da Mente”. Foi sem dúvida um dos filmes que mais mexeram comigo. Foi a primeira vez que fui ao cinema sozinha e sem saber ao que ia. Pode haver gente que vai dizer que tenho falta de originalidade, mas foi um filme que mexeu muito comigo. Ver esse filme com uma banda sonora dos Blur ou apenas do Damon Alborn seria incrível.

14 – Achas que a crise fomenta a cultura em Portugal?

 

No momento em que estamos há claramente menos apoios, com um governo neo-liberal a cultura fica para o fim da escala. Individualmente tenho algum receio de dizer que a crise fomenta a cultura, porque não podemos empobrecer as pessoas para produzirem mais. O que é certo, e digo isto de experiência, é que não deixo de fazer nada por não ter dinheiro. Se não tiver dinheiro para comprar um brinquedo “xpto” ao meu filho faço-o em casa, tento dar a volta à questão. Acredito que a cultura funcione também nessa base. Acho que as pessoas quando se querem mexer não vão deixar de se mexer por causa do dinheiro. Há coisas para as quais precisamos, mas o contacto com as pessoas ajuda bastante, às vezes algumas associações ou juntas de freguesia também te podem ajudar, podem não te dar dinheiro mas secalhar vão-te dar um espaço para fazeres concertos, só tens que tentar contornar os problemas. O caso dos meninos em África, eles brincam com o quê? Com brinquedos inventados, feitos de latas ou madeira. Eu olho para o quarto do meu filho e ele tem vinte carros e depois vejo um miúdo na pobreza que brinca com uma pedra e curte a tarde inteira com uma pedra.

No caso da música, eu estou há cerca de dois anos a trabalhar directamente com músicos portugueses e são muito poucos aqueles que vivem da música. Então vês pessoas a darem entrevistas às nove da noite e que tiveram a trabalhar até às sete, e quando lhes perguntas se gostavam de viver da música eles dizem-te que já sabem que não vão viver da música. Há um ou dois que diz que a música é um escape, então não querem tornar isso a sua profissão, mas há outros que claramente não querem estar a acordar cedo para um trabalho que não gostam e não terem praticamente tempo para a sua arte. Se isto funcionasse bem esses músicos teriam um ordenado, mas isso é num país rico, portanto esquece. Dentro da nossa realidade podemos e devemos queixar-nos, não podemos apenas olhar para os piores exemplos.

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