Hélio Morais

Ilustração por: Marta Macedo

Entrevista por: João Miguel Fernandes (originalmente publicada em 2015)

Ocupação: Músico e Promotor

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1 –  Que pessoas é que te influenciaram na tua vida a nível pessoal e profissional?

Eu nunca tive grandes ídolos, nunca acreditei muito nisso. Tu conheces-te e sabes que tens tantas coisas boas como más, as pessoas idolatram outras e esquecem-se que esses ídolos são como nós. É óbvio que olhamos ao longo da nossa vida para alguns exemplos que várias pessoas dão, mas acho que das maiores influências que tive foram os meus amigos, as pessoas que me rodeiam. Além dos amigos que tocam comigo, tenho também um forte grupo de amigos do secundário, um deles que vive fora do país. Respondendo objectivamente à pergunta, são os meus amigos e família.

2 – Que recordação da tua infância é que te vem à memória?

Essa pergunta tem piada porque estou a escrever um texto que inicialmente era para o meu blogue, mas que já está demasiado extenso, que remete para a minha infância e para a altura em que fui estudar para o colégio Charlot. Eu andei num colégio da pré-primária até à segunda classe. Nessa altura tinha-me mudado com o meu pai para Massamá e chegamos fora do tempo de inscrição na escola pública, então tive que ir para um colégio privado.
Tive que confirmar esta história com aquele amigo que referi na pergunta anterior, o que está no estrangeiro, porque quando somos miúdos a memória prega-nos partidas e há coisas que confundimos. Basicamente à entrada desse colégio havia umas casas onde vivia um senhor com a cara queimada. Os nossos pais não nos deixavam no colégio porque havia uma carrinha que nos deixava lá, a não ser que algum de nós adormecesse, o que me acontecia frequentemente, porque o meu pai trabalhava por turnos e eu vivia sozinho com ele, portanto era normal perder o autocarro e ir a pé. Todos os alunos que saíam do autocarro tinham que passar por essas referidas casas que já ficavam dentro do colégio, mas que pertenciam a esse tipo de cara queimada. Claro que toda a gente passava essa zona a correr, com medo, porque somos criados com o medo bem presente. Tínhamos medo de sermos agarrados e ficarmos nessas casas para sempre.

A outra memória bem presente foi um acidente de carro a caminho desse colégio, no IC19. Íamos na carrinha do colégio e levamos com um carro. Não foi nada agradável, naturalmente. Foi como levar com uma parede na cara.
Depois também tenho obviamente outras memórias, como os meus pais em tribunal a disputarem a minha custódia, o que originou vários pesadelos.

3 – Como é que se iniciou a tua ligação com a Igreja Protestante e como é que te desprendeste dela?

Acho que comecei a desenvolver senso critico (risos). Eu vivi sozinho com o meu pai durante vários anos e era natural passar muito tempo na rua a jogar à bola num sitio onde havia uma Igreja protestante. E aí havia um tipo mais velho do que eu que foi o meu evangelizador e que ouvia Metallica. Falou comigo e disse-me para ir à Igreja aprender a tocar um instrumento à minha escolha. Ainda pensei em guitarra, mas acabei por me decidir pela bateria, já que era super fã do Lars Ulrich. Acabei por me levar por aquilo, tive fé durante muitos anos, até começar a achar que não tinha sentido ter fé num Deus que também se rege pela via do medo, ou secalhar são as pessoas que o pregam que se regem pela via do medo. A condição da punição e de não teres direito ao céu por não fazeres ‘x’ ou ‘y’ era algo que não me agradava, então fui-me afastando progressivamente. Por acaso muitas conversas que tive com a Cláudia Guerreiro, tínhamos na altura dezassete anos, foram sobre isso, ela não era religiosa e comecei a questionar-me se aquilo fazia sentido.

Acho que a fé é super importante para quem a tenha, ajuda claramente as pessoas e durante vários anos foi muito importante para mim. Lembro-me de orar e de acreditar que as coisas iam mudar, isso ajuda-te no teu dia a dia, era uma comunicação aberta. O facto de não haver rezas obrigatórias fazia mais sentido para mim do que a Igreja Católica. Primeiro devo ter-me tornado agnóstico, desliguei-me da Igreja no geral.

4 – Em que momento é que decidiste que não querias seguir engenharia e querias ser músico?

Foi de forma muito pragmática. Entre 2006 e 2008 quase todos os membros de If Lucy Fell tinham trabalhos que não os satisfaziam. Nessa altura tocámos muito em Inglaterra, em 2006, andámos muito na estrada e esse era o nosso foco. O Rui estava a fazer uma pós graduação que acabou por não terminar, o Gaza estava a trabalhar a recibos verdes e tinha alguma liberdade, o Makoto era freelancer e eu trabalhava por aqui e por ali. Em 2008 fizemos então uma tour de um mês e no final abrandámos um pouco e como tal tive que arranjar um full time, daí ter deixado a faculdade.
Nunca gostei de programação nem das máquinas, geradores, instalações eléctricas, por aí, sempre preferi Matemática, mas isso não era suficiente.

“Ninguém pode justificar o mau carácter porque teve um passado mais complicado, isso não é desculpa. Tu és como és, tens a tua personalidade, o teu background pode ajudar-te a seguir um determinado caminho, mas não tens obrigatoriamente que ir por aí, só pelo teu mau passado.”

5 – Jogaste futebol e râguebi, este último mais a sério. Nunca pensaste em seguir uma carreira no desporto?

Cheguei a representar a selecção de juvenis de râguebi. Jogava na Agronomia na altura em que começaram a ficar com uma boa equipa. Aquela geração que jogou comigo trouxe coisas muito boas quando chegou aos seniores. Não sei se na altura ganhámos administrativamente o campeonato de juvenis de segundo ano, porque houve uma confusão com um jogo que foi parado a meio e acho que nos foi retirada essa vitória. Só sei que ganhámos mais jogos que as outras equipas. Quando estive no primeiro ano de juniores houve um jogo em que dois tipos me fizeram uma placagem alta no pescoço e perdi os sentidos, fui parar ao hospital e o meu pai não gostou muito da brincadeira. Infelizmente deixei o râguebi. Como estava a ir à selecção na altura, provavelmente teria continuado e teria conseguido estatuto de alta competição e entrava na faculdade à primeira, mas paciência. Ainda pensei vários anos em voltar, principalmente quando estive no ISEL, porque eles tinham uma equipa, mas como também estava mais envolvido na música acabei por não regressar.

6 – Fala-me sobre um momento desafiante na tua vida.

Foi quando tive que ir trabalhar porque o meu pai teve um avc. Nessa altura ele estava sem rendimentos, porque a Petrogal tinha fechado e e ele ainda não tinha conseguido a pensão por invalidez. Tive que ir trabalhar em full time numa altura em que estava na faculdade e tinha também a música. O mais lixado é veres o teu pai mal, mas as coisas acabam por passar, desde que as pessoas não se façam mártires e não se façam de coitadinhos o tempo todo. Ninguém pode justificar o mau carácter porque teve um passado mais complicado, isso não é desculpa. Tu és como és, tens a tua personalidade, o teu background pode ajudar-te a seguir um determinado caminho, mas não tens obrigatoriamente que ir por aí, só pelo teu mau passado.

7 – Se tivesses que escolher uma banda para musicar um filme qual seria a banda e o filme?

 

Eu gostava muito de ver um filme com banda sonora do Filho da Mãe. Não sei que filme, sinceramente. Podia ser um filme sobre o meu irmão Rafael, que é o meu grande herói, um rapaz com muita força.

8 – O que é que achas que mudou na música nacional desde que começaste a tocar até aos dias de hoje?

 

O mais relevante que aconteceu foi o facto de nós, músicos portugueses, termos deixado de pensar que as nossas diferenças são um “handicap”, mas sim um factor distintivo. O facto de incorporarmos raízes culturais na nossa música é importante. Temos uma voz própria muito mais forte e muitas coisas só acontecem por serem feitas cá. Hoje em dia com o acesso à internet és influenciado por muitas coisas e isso acaba por se reflectir na produção nacional, mas com uma voz própria.

Acho que nos anos noventa as bandas ainda tinham muito aquele mito de que iam ser os Pearl Jam, que iam fazer imenso dinheiro se fizessem um álbum igual ao deles. Isto porque nessa altura havia mesmo muito dinheiro. Eu tenho vários amigos que tocavam nessa altura e que recebiam carros das editoras por assinarem um disco. Isso hoje em dia é impossível. Actualmente há muito mais gente a fazer a música que gosta do que propriamente aquela que em teoria vai vender mais, isto porque não tens nada a perder, é uma questão de realização pessoal. Se fores fazer música apenas para vender e se depois isso não acontecer vais-te sentir bastante frustrado. Se fizeres música que gostas e se depois isso não vender já é diferente. Óbvio que também é uma machadada no ego, mas continuas a acreditar nessa música. Os tempos de crise trazem isso de positivo, “se não é para ganhar dinheiro então vou fazer a música mais honesta possível, sem ter que me preocupar se vai vender”. Acho que a crise liberta a criatividade, mas não acredito que o crescimento da criatividade tenha que advir de um caminho penoso. Era desejável que todos fossem remunerados decentemente por aquilo que fazem. As pessoas ainda julgam que as artes são caprichos de meninos ricos, talvez porque antigamente fosse realmente assim, mas essa não é a realidade portuguesa, porque se não tiveres um mecenas torna-se muito complicado viveres da tua arte, a não ser que tenhas realmente muita sorte.

A música rock foi sempre o parente pobre a nível de subsídios, o que nos obriga a depender mais do público do que desses subsídios estatais. Outros receberam muitos subsídios, até porque não existiriam sem esses subsídios, como por exemplo uma orquestra. Há coisas que devem ser subsidiadas, o problema é que há muita gente que se habituou apenas a esses subsídios e deixaram de apostar em ferramentas que lhes permitissem viver sem esses subsídios.

9 – O que é que tens aprendido/trazido das muitas horas de tours?

 

Bem, na última tour trouxe uma alergia de pele lixada (risos). Essencialmente trazes bagagem e a noção de que em Portugal existem grandes equipas técnicas e pessoas a trabalharem muito bem. E cada vez mais me apercebo disso. Espanha está muito atrás de Portugal. Acho que o que os técnicos e bandas portuguesas fazem com as más condições que têm é incrível, não tem comparação.
Das tours trazemos também uma experiência e coesão que não seria possível de outra forma. Lembro-me de em 2006, com If Lucy Fell tocarmos com bandas de miúdos de dezassete anos com muito mais coesão que nós, isto porque em Inglaterra eles fazem tudo, trabalham e tocam. Eles fazem muita estrada, tocam muitas vezes e isso é bastante bom. Sinto isso com PAUS, não há grandes pausas entre músicas, raramente ensaiamos, há uma grande coesão.

Nós cá fazemos salas grandes e festivais, mas lá fora além de também fazermos festivais também tocamos em sítios bastante pequenos, alguns com muito poucas condições. Isso faz de ti melhor músico, inevitavelmente. Com Linda Martini estamos habituados a condições bastante boas já há algum tempo, então ficas mal habituado. Lembro-me de sairmos de um hotel de quatro estrelas no Porto com Linda Martini e de no dia seguinte dormir numa casa ocupada com If Lucy Fell, portanto sentes a diferença.

“Se mandasse no país íamos logo à falência (risos), não é que estes façam diferença, mas utopicamente acreditava num país em que a cultura fosse respeitada, em que as profissões fossem bem remuneradas, em que os recibos verdes deixassem de existir porque são todos falsos, o estado é o maior empregador de falsos recibos verdes e é incrível como é que isto pode existir.”

10 – Relativamente aos Linda Martini, nunca pensaram fazer uma tour estrangeiro?

 

Sim, pensámos e pensamos. Nós temos um membro que tem um full time e isso torna-se um pouco complicado, porque ele já tem que tirar vários dias anualmente para irmos tocar a queimas e festivais, além dos que tem que tirar para estar com a família, por isso não vejo que possamos fazer mais do que uma tour de duas semanas. Portanto sim, está nos nossos planos, mas ainda não conseguimos concretizar por falta de tempo.

11 – Que artistas nacionais actuais é que gostarias de destacar?

 

Os “Capitão Fausto” são uns miúdos incríveis. Quando comecei a ouvir mais música na internet tinha já uns vinte e dois anos, eles tinham doze, portanto a mentalidade é outra. Lembro-me do Domingos me falar de comprar um livro que era “1001 discos essenciais” e ele foi ouvi-los todos. Isto seria impossível há quinze anos atrás. Isto são pessoas que cresceram com um background musical completamente diferente.

Gostei muito de algumas coisas que ouvi do último disco de “Éme”, mas eu também sou suspeito, porque gosto muito de “B Fachada” e esse álbum tem muito de Fachada ali. Gostava de o ver daqui a uns tempos desligado dessa influência, mas acho que tem ideias muito boas e que vai ser alguém bastante presente na música nacional.
Depois há tanta coisa que acho que ainda não tenha ganho relevância, mas que acho que pode vir a ganhar. O Makoto e o Fábio Jevelim são produtores e muitas vezes mostram-me cenas incríveis de pessoas muito novas, músicos muito melhores do que nós éramos com a idade deles. Da minha geração destaco os “You Can’t Win, Charlie Brown” e o “Filho da Mãe”, da geração a seguir há o Tó Trips, os “Dead Combo”. Também existe a “Capicua”, que escreve como ninguém.

12 – Achas que actualmente o conceito de agência ainda tem sentido ou uma pessoa sozinha consegue fazer todo o trabalho decentemente?

 

É possível, tenho-o feito com PAUS, mas é muito complicado gerir tudo. Por exemplo, este ano passei cerca de noventa dias fora do país, sobra-me muito pouco tempo para me sentar à secretária e trabalhar PAUS como gostaria. Além disso sou agente também de Charlie Brown, Capitão Fausto e Filho da Mãe, o que acontece é que como não toco em nenhuma destas bandas, sinto que tenho uma responsabilidade maior para eles, e quando estou fora o meu foco vai para estes três projectos, porque o pessoal de PAUS compreende que não consiga fazer um trabalho tão activo porque estou em tour com eles, mas as outras bandas não têm que levar com isso. E sinto às vezes que não faço avançar tanto PAUS, o que obviamente não me deixa satisfeito.

Acho que a estrutura de uma agência pode ser útil e ajudar bastante na altura de promover um artista. Sinceramente acho que quando chegas a um nível mais elevado é necessário teres o privilégio de ter uma agência a trabalhar contigo. É possível seres só tu, mas é muito complicado.

13 – Se mandasses em Portugal o que farias tendo em conta a crise que vivemos?

 

Se mandasse no país íamos logo à falência (risos), não é que estes façam diferença, mas utopicamente acreditava num país em que a cultura fosse respeitada, em que as profissões fossem bem remuneradas, em que os recibos verdes deixassem de existir porque são todos falsos, o estado é o maior empregador de falsos recibos verdes e é incrível como é que isto pode existir. Acreditava num país em que as pessoas tivessem protecção social porque descontam para isso, mas é demasiado utópico, tinha que se mudar a mentalidade de todas as gerações e isso só se consegue aos poucos. Vejo este país cada vez mais como parte de um todo, não vejo uma Europa federalista, mas deveria haver uma troca real sem grandes fronteiras e sem grandes diferenciações, mas não sei bem como é que isso funciona. O Miguel Sousa Tavares e o Marcelo Rebelo de Sousa eram boas pessoas para isso, porque julgam que sabem muito. Olha, acabava com esta gente que acha que sabe muito quando nem sequer estão à frente das coisas e o problema é que isso é tido como verdadeiro pelo público em geral e isso pode não ser positivo. Uma coisa é a teoria, outra coisa é a execução e muitas dessas pessoas já estiveram no poder e não fizeram nada. Imagino que não seja fácil.

Creio que temos que sair mais daqui. Há o exemplo do Bráulio Amado, que está entre Nova Iorque e Portugal e que ainda agora teve uma fonte na capa do New York Times, um gajo que não fez faculdade e que tentou a sua sorte lá fora e conseguiu. Esta geração que não tem nada cá devia seguir esse exemplo, se não tens nada a perder podes tentar tudo.

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