Cláudia Lucas Chéu

Ilustração por: Bárbara Lopes

Entrevista por: João Miguel Fernandes

Cláudia Lucas Chéu Matéria Negra Ilustração Entrevista

Ocupação: Dramaturga, poeta, argumentista e encenadora

Clica aqui para leres a entrevista em Inglês


1 – Fala-me de uma memória da tua infância que te tenha marcado.

Quando comecei a usar óculos, aos 6 anos. Até então, pensava que as pessoas e as coisas eram desfocadas. Fiquei espantada quando vi a minha cara focada ao espelho, com óculos. Pensei: olha, sou assim.

2 – Em que momento da tua vida é que achaste que o teatro e a literatura poderiam ser a tua profissão? E como é que realmente isso aconteceu ao inicio?

Não sei dizer. Comecei por querer ser escritora em criança mas, depois, na adolescência comecei a fazer teatro e quis muito ser actriz. Frequentei o curso de Línguas e Literaturas Modernas e só depois é que fui para o Conservatório. Trabalhei primeiro como actriz, depois fiz direcção de actores, encenei e comecei a escrever para cena. Nunca houve um plano, as coisas aconteceram naturalmente. Limitei-me a agarrar com convicção as oportunidades que me foram surgindo. Não sei o que farei no futuro. As coisas, para mim, não são estanques.

“Seria necessário inserir o objecto livro, mesmo que em suporte digital, no quotidiano escolar e familiar. Tal como precisamos de lavar os dentes para evitar as cáries, acredito que precisamos da leitura para higienizar o cérebro.”

3 – Fala-se sistematicamente que os português lêem pouco. De que modo é que se pode inverter esta tendência?

A génese do problema começa na educação. Seria necessário inserir o objecto livro, mesmo que em suporte digital, no quotidiano escolar e familiar. Tal como precisamos de lavar os dentes para evitar as cáries, acredito que precisamos da leitura para higienizar o cérebro. O que importa é ter noção da transformação que um texto pode operar numa pessoa.

4 – Nasceste na capital, uma metrópole repleta de confusão. De que modo é que a cidade te influenciou ao longo do teu crescimento enquanto artista?

Sou declaradamente da cidade. Não me vejo longe da metrópole. A cidade está nos meus textos, implícita ou explicitamente. Faz parte do imaginário. Nem sequer controlo isso.

5 – A literatura e o teatro são duas artes que se interligam bastante, tendo sentido que domines ambas. Quais são os prós e contras de trabalhar na área do teatro e da literatura em Portugal, respectivamente?

A literatura e o teatro já estiveram mais próximos, num certo sentido tradicionalista da dramaturgia, da narrativa. Neste momento, considero o teatro mais próximo da Filosofia do que da Literatura. Os textos para cena são cada vez mais filosóficos e reflexivos. Em relação à proximidade com a Literatura, a escrita para cena está mais próximas da Poesia (e distante da narrativa). Não vejo contras. Sou uma privilegiada. Tenho tido a felicidade de fazer o que me apetece.

6 – Qual foi a pessoa(s) que mais te influenciou/marcou na tua vida?

 

A minha família. Os meus pais. Penso que não há ninguém que nos possa fazer marcas tão profundas (positivas e negativas). A família (nos seus variados formatos) continua a imperar na forma como contribui para o teu percurso, para a tua personalidade.

“Há na nossa geração, o chamado erro zero. Ou seja, deixaram-nos com um futuro baço, errante, portanto, não há a temer. À partida está perdido e isso faz com que tudo o resto seja ganho. É como se soubesses que o NÃO já tens por certo. Só tens de tentar, pode ser que te saia um SIM.”

7 – O que é que leva Portugal, um país “em crise”, a conseguir neste momento catapultar-se a nível internacional em tantas áreas?

 

Não sei. Há na nossa geração, o chamado erro zero. Ou seja, deixaram-nos com um futuro baço, errante, portanto, não há a temer. À partida está perdido e isso faz com que tudo o resto seja ganho. É como se soubesses que o NÃO já tens por certo. Só tens de tentar, pode ser que te saia um SIM. Outra coisa — saímos mais do país e, ao contrário de outras gerações de emigrantes, há uma geração informada e qualificada. Temos as ferramentas todas e fomos forçados a sair da casca.

8 – És co-fundadora das Edições Guilhotina e do Teatro Nacional 21. Além do dinheiro, quais foram as maiores dificuldades que sentiste ao fundar uma editora e uma companhia?

 

Na realidade nenhumas. Trabalho noutras coisas para pagar as edições (tal como os outros sócios), é um investimento que faço do meu bolso, por prazer. A ideia é não ter prejuízo, mas nunca pensámos no lucro. O lucro é fazer sair texto inéditos de autores excelentes. Quanto à Companhia, a Teatro Nacional21, temos tido espectáculos subsidiados por grandes estruturas (o TNDMII e o TNSJ), e isso tem-nos permitido fazer as coisas com qualidade.

9 – O que é que o “bitoque” tem que não encontras noutro sitio?

 

Concentra num prato tudo o que gosto: batatas fritas, bife e ovo estrelado (o resto é irrelevante). Acho que aquilo que as pessoas comem diz muito acerca da sua personalidade. É por isso que refiro que gosto de bitoques, não é para fazer uma graçola.

10 – Escreves para várias publicações nacionais, além de ainda seres argumentista. Nunca tentaste escrever para fora? Para publicações internacionais?

 

Sim. Fui selecionada pelo Comité de Dramaturgia Europeu com o meu texto Veneno. Tenho vários textos traduzidos para inglês e francês. Além de um texto publicado numa revista de dramaturgia galega, a NÚA. O meu livro de poesia, Ratazanas, está publicado no Brasil, em São Paulo, pela Selo Demónio Negro.

11 – O teu trabalho é bastante diversificado. Como funciona o teu processo criativo? Tens alguma espécie de método?

 

Nenhum método. Caos. Ter fé na ordem do caos.

12 – Há quem defenda que a filosofia deve ter um papel mais relevante no ensino nacional. De que modo é que poderíamos introduzir e desenvolver filosofia nas escolas nacionais de modo alternativo ao que já existe?

 

Já existem escolas primárias onde os miúdos têm filosofia. Basicamente aprendem a colocar perguntas, que é uma coisa fundamental, para serem uma pessoa autónoma, com uma opinião própria formada a partir daquilo que inquieta e move.

13 – Quais os artistas nacionais que pouca gente conhece que achas que vão despoletar futuramente ou que merecem mais destaque?

 

No teatro: John Romão e os Silly Season.
Na Literatura: o Valério Romão e a Raquel Nobre Guerra.

14 – Se mandasses no mundo, o que é que mudavas agora?

 

A velocidade. Devíamos abrandar um pouco. Apanhados pelo excesso de velocidade.
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