Cláudia Guerreiro

Ilustração por: Zé Pereira

Entrevista por: João Miguel Fernandes

Ocupação: Ilustradora e Baixista

Clica aqui para leres a entrevista em Inglês


1 – Fala-me de algumas pessoas que mais te tenham influenciado na tua vida.

É difícil responder a isso porque tudo o que está à tua volta te influência e por vezes nem dás conta disso, mas que me tenha dado conta sem dúvida os meus tios. São os dois escultores, infelizmente o meu tio já faleceu, e sempre me levaram para a parte das artes, eu cresci e passei muito tempo com eles a fazer escultura e acabei por ir para essa área mais tarde, porque era mesmo o que eu queria. Hoje em dia vejo que, se calhar, se não tivesse tido essa influência teria ido para outra área das artes.

Os nossos pais influenciam-nos sempre. Diria que o meu pai me influenciou um pouco mais, porque tocava, animava sempre a família durante as jantaradas com toda a gente, portanto foi naturalmente uma grande influência para a parte da música.

Lembro-me sempre do Gaza. O Gaza porque foi o primeiro baixista que me mostrou realmente como era tocar e que um baixo podia ser algo realmente fixe, porque normalmente pensas sempre na guitarra quando queres tocar um instrumento.

2 – Fala-me de uma memória da tua infância que te tenha marcado.

Sempre que penso em memórias penso em algo que posso ver mais vezes, como as fotografias. Então lembro-me da minha casa em Queluz, com o meu primo, de me vestir de anjinho na terra dos meus avós, de estar com os meus tios no atelier e fazer coisas em barro. Acho que as pessoas têm tendência a memorizar as histórias que se vão contando e repetindo.

Lembro-me de, com três anos, estar no atelier dos meus tios em Estremoz e de que os meus outros tios foram para a Serra da Estrela porque ia nevar bastante lá, mas na verdade nevou em Estremoz e não nevou na Serra da Estrela, o que foi irónico. Lembro-me desta história porque foi contada várias vezes e sei mesmo que aconteceu, não propriamente por lembrança pessoal. Lembro-me também de todas as festas que tínhamos em casa onde a família parecia sempre mais amiga do que era e depois mais tarde as pessoas vão-se separando, morrendo e por vezes chateando-se.

Também tenho várias recordações da escola, do 5º e 6º ano, quando comecei a ouvir Nirvana e todas as bandas que o meu primo me mostrava, desde Bryan Adams, Zeca Afonso a Roxette ou REM. Adorava as quatro estações do Vivaldi e mais alguma música clássica. Também fui grande fã de Pearl Jam, mas Nirvana era a banda número 1.

Um dia quando cheguei à escola, fui praxada, eu era muito pequenina, e foi um pouco constrangedor, principalmente porque me pediram para encher um preservativo com ar e eu nem sabia bem o que é que se fazia com aquilo, então pedi aos rapazes mais velhos que me estavam a praxar para me mostrarem como se fazia, naturalmente ficaram também cheios de vergonha e toda a situação foi bastante constrangedora.

A partir do 10º ano, no Liceu Queluz, andava sempre agarrada à guitarra. Conheci o Hélio porque tinha um colega que adorava música e queria tocar e então convidou o Hélio para baterista. Lembro-me que o conheci numa paragem de autocarro e lhe perguntei “Então, tu é que és o baterista?”(risos).

3 – Achas que a crise nacional fomenta a criatividade?

Acho que sempre fomentou, não é de agora. É uma péssima maneira de fomentar a criatividade e uma desculpa de merda, por mais que funcione. Até é mau falar disso, porque parece que dá desculpa para as pessoas serem mais criativas.

Quando estive na faculdade de belas artes em Barcelona em Erasmus, vi que eles tinham muitas condições e faziam coisas muito pouco interessantes. Nós cá temos muito poucas condições e fazemos coisas fixes, portanto acho que conseguimos fazer coisas incríveis. Há aquele espirito Macgyver em Portugal, talvez por termos pouco, mas não deve ser uma questão. A crise não pode trazer coisas boas. É bom saber que se o mundo estiver todo por igual nós nos safamos bem e os outros se calhar não tão facilmente, mas também pode ser o contrário, é complicado.

Acho que em Portugal há pouca coragem para avançar com alguma coisa, só quando os outros fazem lá fora é que é bom, portanto acho que há muita criatividade mas pouca coragem.

“Acho que as pessoas às vezes julgam que os problemas são simples de resolver e que se estivessem elas lá seria tudo muito fácil, mas acho que são bastante mais complicados.”

4 – Se mandasses em Portugal o que fazias?

Rodeava-me de pessoas em quem realmente confio para me ajudarem a tomar boas decisões, até porque todas as coisas têm mais do que um lado, por isso é bom ter várias opiniões e perspectivas. Não há uma maneira certa ou errada de olhar para as questões, beneficias uns prejudicas outros, é complicado estar no poder e tentaria fazer o melhor que consigo.

Acho que as pessoas às vezes julgam que os problemas são simples de resolver e que se estivessem elas lá seria tudo muito fácil, mas acho que são bastante mais complicados.

5 – Como é que surgiu em ti o gosto pela ilustração?

Eu sempre desenhei, sempre. Portanto começou muito naturalmente, ainda mais porque tinha os meus tios escultores que me alimentavam isso, como referi anteriormente. O conceito de ilustração surgiu mais tarde, para mim era mais o desenho do que propriamente uma ideia de ilustração. Só mais tarde é que entendi realmente o que era a ilustração.

6 – Achas que Portugal fica aquém do que se produz lá fora a nível de ilustração e música?

Nós agora temos, finalmente, os mesmos recursos que os outros. Para um ilustrador os recursos sempre foram os mesmos, só precisavas de inventar, podias fazer colagens, desenhares com pauzinhos, mas hoje felizmente já dá para encomendar material de todo o lado, o que facilita.

A nível da música acho que foi um processo mais complicado, havia poucos amplificadores e guitarras, que eram maioritariamente caríssimos. Com computadores é muito mais acessível fazer música. Claro que depende se consegues ou não ter um computador, eu tive o meu primeiro aos 20 anos, nunca tinha mexido num computador antes, só em 1999. Hoje em dia temos acesso a tudo. Computadores, telemóveis com gravadores e programas incríveis…

Acho que fazemos música igualmente bem como nos outros países, mas somos pequenos, estamos aqui a um canto da Europa, não temos muita gente. Hoje em dia há muitas bandas, mas mesmo assim comparando a nível percentual com a Inglaterra não temos praticamente nada.

Alguns países têm uma coisa que nós não temos tanto, têm um hábito de tocar, parece que já nascem com guitarras na mão. Eu tive dificuldades com os meus pais para tocar, parecia que andava a fazer alguma coisa proibida e por isso era natural que fosse mais difícil para nós. Os miúdos hoje em dia já começam a tocar mais cedo, o que é óptimo. Hoje em dia há muito mais bandas com pessoal muito mais novo e que são bandas boas, não andam a fazer música de putos. Diria que a evolução justa em relação aos outros países começou recentemente em Portugal, porque agora já tens um computador desde criança, acesso a toda a informação e equipamento, o que antes era impensável.

“Nunca pensei sequer que uma banda minha podia ter reconhecimento. Tinha bandas para curtir, não propriamente para chegar a algum lado, sem nenhumas expectativas, o que era bom. Eu gosto de tocar com as pessoas pelas pessoas, não tanto pela música. “

7 – Se pudesses escolher músicos para tocar contigo, quem escolherias?

 

Já sonhei imensas vezes com Nirvana, mas nunca sonhei que tocava com eles, eram sempre os If Lucy Fell. Acho que a principal razão era porque os If Lucy Fell eram uma banda do caraças, do melhor que tínhamos por cá e depois porque eu estava sempre lá a ver, mas mais a curtir, e além disso os If Lucy Fell sempre tocaram com as bandas que eu gostava de tocar (risos). Entretanto é engraçado como as coisas hoje em dia parecem muito mais viáveis do que há uns anos atrás. Antigamente era tudo praticamente impossível, e de repente tivemos cá o Chris Common (baterista de These Arms are Snakes), o que demonstra que é tudo mais fácil.

Nunca pensei sequer que uma banda minha podia ter reconhecimento. Tinha bandas para curtir, não propriamente para chegar a algum lado, sem nenhumas expectativas, o que era bom. Eu gosto de tocar com as pessoas pelas pessoas, não tanto pela música. Uma das pessoas com quem mais gosto de tocar é com o Rui, mas tocar com alguém tão próximo pode às vezes ser um bocado complicado e então raramente acontece. Gostava de tocar com Dead Combo, adorava tocar com a PJ Harvey também.

Eu estou muito habituada a tocar com amigos e por vezes queres fazer uma coisa nova e estás um bocado limitada, mas é um risco estar a convidar pessoas que não conheço e depois não correr bem.

8 – Qual é a tua opinião em relação ao panorama nacional da ilustração?

 

Eu sou uma pessoa bastante desatenta, não leio revistas nem jornais, sou horrível nisso. Ultimamente ando mais atenta à ilustração, porque o Instagram me tem ajudado bastante e é fácil de navegar de ilustrador em ilustrador. Acho que a ilustração portuguesa está muito bem. O Porto parece-me mais forte, porque eles sabem fazer as coisas juntos, há muito o espirito de união, algo que não sinto que seja tão forte em Lisboa mas que sinto que está a mudar.

Pessoalmente sinto que não me integro em muitas coisas, que o que faço não está muito na moda. E a moda é importante na arte…

9 – Projectos nacionais na música que queiras destacar?

 

Começo já por te dizer que “projecto” é uma palavra que me custa muito usar. Falemos de bandas que já não são projectos, que são reais e dão concertos. Os projectos ficam na garagem!

Há uma artista que não oiço particularmente, mas admiro, que é a Sequin, acho que tínhamos poucos projectos desse género em Portugal. Precisávamos de mais projectos com uma mulher, sem ser apenas um projecto de cantautor. A Surma, o Jibóia, por fazerem algo de muito diferente do que se faz cá.

Sempre tivemos boas bandas, mas muitas delas ficam escondidas e é natural que não conheça todas.

Obviamente Filho da Mãe e Dead Combo, mas isto são bandas já conhecidas.

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