César Mourão

Ilustração por: Joel Almeida

Entrevista por: João Miguel Fernandes

César Mourão actor Portugal

Ocupação: Actor e comediante

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1 – Quando pensas na tua infância, qual é a primeira memória que te vem à cabeça?

Imediatamente os meus avós. Eu tenho a sorte de ter uns pais incríveis, mas passei muito tempo com o meu avô, que é assim uma figura para mim (com os meus avós no geral, mas muito com o meu avô). Felizmente, tenho uma infância muito feliz, mas a primeira coisa de que me lembro é dele, foi com ele que aprendi as primeiras coisas, se tenho algumas manias ou vícios agora, também se prende com os que ele tinha, ou com os que ele gosta. E depois também muita coisa com a minha irmã, felizmente temos uma relação muito boa. Estas são as primeiras memórias que eu me lembro.

2 – Ouvi dizer que a tua irmã é melhor comediante do que tu…

Podia ser, agora já não é (risos). Ela não quer saber, tem muita graça, mas nem sequer está para aí virada, mas também foi com ela que eu ensaiei muito, com as experimentações de algumas coisas que eu fazia, e é muita crítica do meu trabalho. Felizmente positivamente, não tem muita crítica destrutiva em relação a mim, o que é bom, claro. Mas se quisesse, podia ser uma das grandes atrizes em Portugal.

3 – Sei que tens uma grande paixão por desporto, e praticaste todo o tipo de desportos, inclusive futebol. De uma forma utópica, que clube de futebol é que gostavas de treinar, e qual seria o primeiro jogador que irias buscar para a tua equipa?

Eu tenho muita dificuldade em conhecer outro clube para além do meu, que é o Sporting. Não me lembro de outros clubes, talvez existam, mas eu não me lembro, só me lembro quando jogo contra eles. Portanto, essa resposta é muito fácil, seria claramente o Sporting Clube de Portugal. O primeiro jogador que eu ia buscar… eu não posso fugir àquilo que eu penso. Embora pateticamente me possas dizer que era uma má compra, possivelmente era, ia buscar o Cristiano Ronaldo. Por tudo o que ele representa. Uma má compra no sentido em que ele já tem 35 anos, portanto não era um grande investimento. Mas como os investimentos não são só dinheiro, há muito mais coisas para além do dinheiro, não posso fugir ao Cristiano Ronaldo. O Cristiano Ronaldo está acima de um jogador de futebol, é uma máquina, e depois mexe muito com o nosso ego Sportinguista. Portanto, nem que fosse para estar lá só sentado no banco de suplentes, ia buscar o Cristiano Ronaldo com 82 anos.

“Temos de saber coisas uns dos outros, temos que ser amigos dentro da própria equipa. E quando tu crias laços de amizade, laços de companheirismo, muito mais fácil é, num momento de esforço, ir fazer uma dobra ao lateral direito. Porque se não, não vou lá fazer a dobra, ele que corresse. Acho que o principal de tudo é a amizade e a união entre as partes. “

4 – O Cristiano Ronaldo que é uma pessoa bastante perfeccionista, que praticou bastante ao longo da sua vida, uma pessoa bastante dedicada, algo que é semelhante à tua carreira, pelo que li, tu também praticaste muito a tua arte. O que é que tu valorizas mais em desportos de equipa?

Uma equipa é, só pelo nome, uma equipa que não funciona no individual. Mas é preciso o individual para ter uma brilhante equipa. Portanto, acho que a união entre os individuais é realmente o que eu dou mais valor, porque sem união as pedras acabam por se separar. Acho que a união dentro de uma equipa é o mais importante. E numa equipa, seja ela do que for, por exemplo, eu tenho uma equipa de teatro, tenho uma equipa de espetáculos que monto, mesmo nesse sentido é preciso união e preciso de fazer coisas fora da própria equipa para a união da equipa ser maior. Acho que uma equipa de futebol, uma equipa de basquetebol, seja ela do que for, não precisa só de falar de futebol ou estar unida no futebol, têm de estar noutras coisas, têm de ser cúmplices. A cumplicidade é muito importante. Temos de saber coisas uns dos outros, temos que ser amigos dentro da própria equipa. E quando tu crias laços de amizade, laços de companheirismo, muito mais fácil é, num momento de esforço, ir fazer uma dobra ao lateral direito. Porque se não, não vou lá fazer a dobra, ele que corresse. Acho que o principal de tudo é a amizade e a união entre as partes.

5 – Podemos dizer que essas caraterísticas existem também no improviso, certo? Se tiveres uma espécie de simbiose com a pessoa com a qual estás a improvisar, isso pode facilitar de alguma forma?

Facilita, óbvio que facilita. Porque nós sentimos, quando não estamos muito bem uns com os outros, ou porque houve alguma chatice à hora de jantar, ou porque houve uma discórdia, a improvisação não corre tão bem. É muito importante na improvisação que isso esteja muito alinhado, que estejamos todos alinhados e que esse lado da união e dos laços esteja muito apurado. Por isso é que defendo que nós não podemos fazer um espetáculo de improvisação e aparecer só dez minutos antes do espetáculo. Eu acho importante, se temos um espetáculo às 21h30, aparecermos às 18h juntos. E tu perguntas-me, às 6 da tarde para quê? Para eu gozar com aquilo, ele gozar comigo, nós brincarmos, irmos ao camarim, deixarmos as coisas, depois irmos jantar; eu preciso de saber que o Carlos hoje não pode comer queijo, porque é alérgico, eu preciso de saber que amanhã não sei o quê, precisamos de saber isso. E depois juntamos isso no palco e é maravilhoso. Quando passamos a ser empregados das Finanças não resulta, queres chegar àquela hora, entrar àquela hora em ponto e depois sair. Assim como acho que no final do espetáculo temos que ter um tempo para nós, para falarmos sobre o que aconteceu, para falarmos de outras coisas, para gozarmos, para ter um momento de descontração e depois, então, ir embora. Não sou também apologista de acabar o espetáculo e dizer ‘adeus, obrigado, até à próxima’, não acredito que seja assim.

6 – Fugindo um bocadinho para o Brasil, e eu sei que tens uma grande paixão pelo Brasil, o que é que tu achas que Portugal pode aprender com o Brasil e o que é que o Brasil pode aprender com Portugal? Numa perspetiva mais cultural, e não tanto social.

Há muitas coisas. Portugal, por exemplo, pode aprender com o Brasil uma coisa: no Brasil é natural, muito na música (os atores também, mas muito na música), fazerem parcerias, juntarem-se. O Caetano toca com o Chico, o Chico toca com o Milton Nascimento. Todos se juntam uns com os outros, fazem parcerias, fazem duetos. Em Portugal agora, nesta nova geração, começa a acontecer, mas são ilhas, nós somos todos ilhas. Não queremos formar um estado só, queremos cada um no seu cantinho, e quantas menos parcerias tiver, melhor, descobri eu a pólvora, e acho que isso não é bom. O Brasil tem muito isso, no Brasil a classe artística une-se imenso, eles fazem imensas coisas juntos, mesmo no teatro, os atores apoiam-se mais uns aos outros, vão aos programas de televisão uns dos outros. Aqui não, aqui temos alguns pruridos de ir ao programa da pessoa X, e não aceitamos, porque eu também vou ter o meu, e depois não vou já àquele. E isso não é bom. Mas isso é um síndrome de país pequeno, nós somos um país pequenino, e então guardamos as nossas coisinhas aqui e ninguém toca. Eles são maiores, então têm esse à vontade, há muito público para toda a gente, e não há esse problema. Nós não, como o público é o mesmo, cada um quer angariar mais pessoas do que o outro, e isso não é bom.

Portugal pode ensinar ao Brasil um bocadinho mais de rigor. Nós somos rigorosos, não tanto como o resto da Europa, somos os baldas da Europa, mas perante se calhar o Brasil, podemos passar-lhes que tem de haver mais rigor. Por exemplo na montagem de um espetáculo, a luz, o som são importantes, não basta um micro qualquer. No Brasil às vezes acontece isso: ‘Ah, o micro é esse aqui mesmo, a gente prende aqui mesmo, ele não tem o negócio da orelha, mas a gente bota aqui uma fita cola’. Não acho bem. Portugal pode ensinar isso, nós somos mais perfecionistas do que os Brasileiros. Só que depois aquela descontração Brasileira, que eu adoro, fascina também muito que no meio do caos é tudo feito, e não é por ser o caos que eles não têm atores maravilhosos, e músicos maravilhosos.

“Ainda sou um bocadinho obcecado por fazer tudo bem e é impossível. Mas eu acho que se a nossa meta for fazer a perfeição, tudo o que conseguirmos fazer já é um ganho. “

7 – Tendo em conta que me pareces uma pessoa algo perfeccionista, como é que lidas com a pressão de tentar fazer tudo perfeito, ou de tentar atingir o máximo dos objetivos? Porque a perfeição, por vezes, pode funcionar como inimiga, porque é em grande parte inalcançável.

Agora estou melhor, tenho vindo a aprender com os meus colegas que me rodeiam que não é bem a perfeição que conta. Ainda sou um bocadinho obcecado por fazer tudo bem e é impossível. Mas eu acho que se a nossa meta for fazer a perfeição, tudo o que conseguirmos fazer já é um ganho. Se pomos a meta no mais ou menos, arriscamos a que a coisa não fique bem e não nos superamos a nós próprios, e achamos que o meio termo é que está bom. Portanto, ainda assim, eu percebendo agora que a perfeição realmente está muito longe, acho que se nos esforçarmos para que isso seja a meta, o bocadinho menos que conseguirmos já é perfeito.

8 – Em relação à fama, quais é que são para ti os aspetos mais complicados que vêm com a fama no dia-a-dia?

No fundo, é não ter uma vida de uma pessoa com uma profissão menos mediática. Porque, obviamente, se calhar tu podes num festival de rock fazer xixi contra um poste e ninguém te diz nada, nós não é bem o caso, nós temos que dar alguns exemplos, que damos com todo o gosto, mas estamos mais expostos. Se calhar, vou ao restaurante X ou Y, amanhã já vão saber que lá fui. Acho que é a única coisa, mas isso é uma coisa que faz parte, é um preço a pagar, e as outras coisas boas são muito melhores do que este preço a pagar.

9 – De forma utópica, com que realizadores de cinema gostarias de trabalhar, e em que tipos de projetos de cinema é que gostarias de trabalhar? Eu sei que tens essa paixão também por cinema e que gostarias de fazer mais cinema…

Há muita gente, mas há dois, de uma forma utópica, que eu gostaria muito: Woody Allen é um deles, gostaria imenso, e gostaria do Pedro Almodóvar também, por outro razão, porque eu gosto muito das transformações de personagem. Em tempos gostaria de interpretar, imagina tu, uma mulher no cinema. Mas muito bem feito, dentro do máximo que eu conseguia, e de tirar esse lado que o Almodóvar tem. Mas isso é muito utópico na medida em que eu não penso em absolutamente nada, não tenho nenhuma meta que eu gostaria de atingir. Eu vou andando, e as coisas vão acontecendo, e eu não penso sequer nelas, portanto é uma resposta que disse agora no imediato, mas eu não tenho essas metas. Acho que se acontecesse, ótimo, mas eu não me preocupo com isso no imediato. Mas são dois bons realizadores que eu tenho não de agora, porque também há muito bons realizadores agora, que eu gosto bastante, como o Iñárritu, por exemplo. Mas escolhi estes dois porque me acompanham desde sempre, desde que eu me lembro de ver cinema e de me preocupar mais com isso.

Gostaria que fosse alguma coisa completamente nos antípodas do que eu faço agora, completamente diferente do que eu faço agora. Porque os filmes que já tive oportunidade de fazer, que me deu um gozo incrível, é muito próximo do que poderia fazer, e acho que é o que me é possível fazer, dentro do país em que estou, das coisas que tenho e com o trabalho que faço. Mas se eu pudesse escolher, escolhia fazer uma coisa completamente radical, fora daquilo que é o meu conforto, saía completamente da zona de conforto, e fazia uma proposta e um desafio completamente diferente.

10 – Nalgumas entrevistas, comparas bastante um jogo de ténis com o improviso, mandar bolas, esperar pelo adversário, movimento. De que forma é que o desporto, e as regras, e toda a metodologia do desporto te ajudou como ator e a desenvolver-te como ator ao longo da tua carreira?

Eu acho que na disciplina só. Não vejo muito mais cruzamentos. Eu quando estudava formação técnica de desporto, e em qualquer desporto, é muito exigente, é como aprender um instrumento musical. Ser um jogador de futebol de alta competição, ser um jogador de andebol de alta competição, de voleibol, seja do que for, é muito exigente, é necessário muito treino, e muito espírito de equipa também, mesmo num desporto individual, onde também tens que ter um espírito de equipa dentro de uma equipa de treinadores, selecionadores, etc. E isso eu trouxe para esta profissão, a disciplina, o treino, o trabalho, e eu até hoje gosto que assim seja. E, ainda assim, eu penso que trabalho pouco, devia trabalhar mais. Ainda agora, eu hoje ainda não parei e de repente são 17h e, de repente, é noite, já tenho que ir para casa, já tenho que ir estar com os miúdos e jantar, etc. e não tenho tempo para nada. Dá impressão que a seguir a esta entrevista, precisava de mais um dia completo para poder estar com os meus colegas, preparar o meu próximo espetáculo, falar e fazer promoções, fazer isto e aquilo, mas o tempo não chega.

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