Camané

Ilustração por: Marta Macedo

Entrevista por: João Miguel Fernandes (originalmente publicada em 2014)

Ocupação: Fadista

Clica aqui para leres a entrevista em Inglês


1 – Se tivesse que falar sobre uma pessoa que o tenha influenciado bastante fora da área profissional, quem seria e porquê?

O meu pai. Tem a ver com uma certa honestidade naquilo que se faz. Tentar acima de tudo ser o mais honesto possível.

2 – Fale-me sobre um momento da sua infância que o tenha marcado bastante

Foi uma infância feliz e divertida, com a família, os amigos, a escola. Em criança a última coisa que eu queria era cantar fado. Queria era brincar e ouvir outras músicas, tudo menos cantar fado. Queria ser piloto de automóveis. O meu bisavô era fadista, o meu avô também, o meu pai trauteava fados em casa, algo que me irritava imenso, achava estranhíssima aquela maneira de cantar. Quando era novo não tinha discos para crianças. Tinha três discos que não eram fado, um do Charles Aznavour, outro dos Beatles e outro do Sinatra, com um tema de cada lado. Ouvi tantas vezes aquilo que fiquei doente em casa e tive que parar de ouvir. Ouvia rádio, mas fazia-me imensa confusão ouvir os anúncios a interromperam as músicas, algo que já não me irrita actualmente. Comecei a ouvir os discos da Amália, Carlos do Carmo, toda a gente. A principio soou estranho, mas depois entrou e percebi que os interpretes eram tão bons, que não havia aquela qualidade em mais estilo musical nenhum. Entravam pelo texto, com uma capacidade de interpretação incrível.

Ouvia fados às escondidas, tal como jazz e música brasileira. Também ouvia os grupos que os meus amigos ouviam, como os Beatles, que referi anteriormente,  e The Doors. O resto do que se ouvia era a música que saia na altura e eu não queria ficar apenas por aí, então explorei os outros estilos musicais. Achava que como o fado não me tinha entrado à primeira, os meus amigos também não iriam compreender e iriam gozar. O fado foi um pouco condicionado pela ligação ao 25 de Abril, havia uma ideia completamente errada.

3 – Em 1979 participou pela segunda vez na Grande Noite do Fado, vencendo. Como foi para si essa vitória ainda tão novo?

Já tinha ganho em 1977. Na altura não me passou grande coisa pela cabeça, não foi assim tão importante. Eram amigos do meu pai, o coliseu levava o dobro das pessoas que leva agora. Tinha imenso medo, mas o importante foi perceber que podia cantar, apesar de naquela altura não pensar tanto nisso. Eu não sabia se ia cantar quando fosse adulto. Uma criança a cantar fado não é a mesma coisa, o fado é uma música para adultos. O pessoal que toca piano, violino começa aos 6 anos, como um jogador de futebol, porque se começar aos vinte anos vai ser muito muito complicado. O Fado não é uma música para se cantar com dez anos, mas sim com uns vinte cinco anos, apesar de termos que aprender antes.

Quando tinha nove anos fui a uma casa de fados jantar com os meus pais e acabei por cantar um fado. E havia uma frase que era “quando qualquer fado soe” e eu dizia de outra forma. Então havia um tipo que me agarrou pelo pescoço e enquanto eu não disse a frase bem ele não me largou o pescoço. Até que eu percebi o que ele queria, porque ele era gago. E isso foi óptimo porque adoptei isso a tudo o que fiz na vida, nunca mais alterei o sentido da palavra. Claro que foi algo que fui aprendendo melhor, mas naquela altura foi mais importante aprender isso. Quando construía os meus fados já dividia bem as orações.

4 – Se mandasse em Portugal, o que faria face à crise que vivemos?

Sei lá, acho que há coisas essenciais, como combater a pobreza, a falta de recursos que existe na saúde. A educação também é essencial para o país crescer. A possibilidade de existir mais crianças também é fulcral. Parece que estamos parados nalguns aspectos e o que faz um país andar são os jovens e cada vez há menos pessoas a terem oportunidade de mudar estas coisas. A aposta na cultura também é muito importante para que um país cresça verdadeiramente e não apenas algumas pessoas. Isto é algo a longo prazo, não pode ser já amanhã. A televisão está cada vez pior, os programas da tarde são vergonhosos, tudo o que se faz aí culturalmente.

“Convivi com muita gente da geração anterior, eu tinha uns vinte anos e o resto tinha cinquenta e tal, era o puto novo. Havia tempo e gente que se dedicava às casas de fado até às quatro da manhã. “

5 – Como vê o actual panorama cultural em Portugal?

Acho que, apesar de tudo, existe muito boa gente a fazer cultura em Portugal. Há gente com muita honestidade e criatividade. Apesar de tudo continua a haver teatro e cinema, cada vez com menos dinheiro, mas com grande qualidade na mesma. Só falta mais apoio, principalmente ao cinema e ao teatro ,também à música.

6 – Actuou no estrangeiro. Como é que acha que lá fora recebem um estilo tão próprio como o Fado?

Quando era miúdo já ouvia musica cantada em ingles, francês, italiano, mais tarde ouvia outros estilos também. A minha primeira língua foi o francês, só depois é que tive aulas de inglês no liceu. Muitas vezes não percebia, mas sempre me tocou a música cantada noutras línguas. São culturas completamente diferentes e nunca me impediu de gostar. Adorava o Gainsbourg e o Jacques Brel. Na altura lembro-me de ser miúdo e não perceber o que se cantava, algo que nunca me fez impressão. Achava que se conseguisse sentir algo a música já tinha sentido. Um pouco à parte, tenho um grupo de fãs na Polónia que aprendeu a falar português para interpretarem a minha música. Outros fãs não precisam de aprender a língua, identificam-se com a sonoridade. Aqui há tempos ouvi uma cantora na China, em que a artista cantou várias músicas em mandarim e cantonês, que foram as que mais gostei e não percebi nada, até me arrepiei. E é isso que penso em relação à minha música. A barreira da língua é ultrapassável.

 

7 – Colaborou inúmeras vezes com o José Mário Branco. O que pode dizer sobre o homem e o artista? Alguma história curiosa que tenham vivido?

 

Foi o Carlos do Carmo que me apresentou o José Mário Branco. Eu ia a sair do faia e encontrei-os aos dois. Devia ter uns vinte anos. Nunca mais vi o José Mário durante vários anos, mas um dia fui convidado ao teatro da comuna, a umas noites de fado e as pessoas começaram a interiorizar o fado de outra forma. Nessa altura ia muita gente às casas de fado ver-me cantar, pessoas fora do fado, escritores, outros músicos, que iam para me ouvir. No teatro da comuna, um dia, o José Mário foi assistir. Eu queria encontrar alguém para criar uma identidade, porque na altura cantavam tudo da mesma forma, e o José Mário ajudou-me nisso, na procura de algo que me definisse, a nível da interpretação, registo emocional. Claro que eram coisas que já tinha, mas o José Mário ajudou-me a melhorar, guiou-me, mostrou-me um caminho e eu achei que era o melhor para mim. E isto ajudou-me a crescer bastante enquanto artista.

8 – Em 2011 colaborou com os Dead Combo. Como vê o estado da música actual em Portugal?

 

Tenho acompanhado sempre o percurso dos Dead Combo. O Pedro Gonçalves já tinha tocado para mim há muitos anos , numa tour em que o Carlos Bica não pôde participar. Já o tinha inclusive conhecido antes, tinha ele para aí uns 17 anos. E tive com o Tó Trips na tropa, ele tomava conta de mim. Quando fiz os Humanos o Tó Trips é que fez os desenhos da capa, a parte gráfica, esteve sempre muito integrado. Eles têm um talento incrível, sempre gostei muito da onda deles. Ouve aquela primeira participação em que cantámos o vendaval. Sempre que eles fazem qualquer coisa especial convidam-me, eu também costumo fazer isso. Já tive uma participação em que declamei um poema do Sérgio Godinho. Eles criam um grande ambiente, uma mistura entre a musica popular lisboeta e uma grande influência do fado e da musica blues americana. Têm uma grande originalidade, uma imagem fantástica. São uma referencia.

9 – Qual é para si a principal diferença entre cantar pop e fado?

 

Nunca me preocupei muito com isso nos Humanos. Havia um lado muito português, popular, principalmente na linguagem, apesar de também ter o lado pop. Na altura até pensei em não participar, porque ia ser muito badalado e não queria que as pessoas pensassem que ia seguir por aí. Não queria que as pessoas me associassem só áquilo. Os meus discos vendiam cerca de 18 mil, 20 mil cópias. Mais tarde, quando acabaram os Humanos fiz uma tour e vi que fui buscar um público mais jovem, que conheceu o meu trabalho fora do fado e foi óptimo ter gente jovem nos meus concertos.

“O fado é tentar ir pelo caminho mais difícil, que é agarrar as pessoas pela criatividade. É aí que se encontra um estilo próprio, não é a repetir as coisas dos outros.”

10 – Li numa entrevista sua que na sua juventude sentia que havia um desdém face ao fado. Actualmente o fado está na moda e é cada vez mais popular no público jovem. A que se deve esta mudança? Apenas ao 25 de Abril?

 

Comecei a ir cantar para as casas de fado com 17, 18 anos. Já lá vão trinta e um anos a cantar fado. Lembro-me que na altura era muito complicado, chegava as casas de fado, de fatinho e depois ao fim da noite mudava de roupa. Saía à uma da manhã, duas da manhã e ia para o bairro alto até às tantas. O bairro alto há trinta anos atras não tinha nada a ver com o que tem hoje. O fado era uma coisa que existia ali naquelas casas de fado, que eram praticamente todas no bairro alto, com algumas excepções, como o Silvino na lapa, a Pereirinha em alfama, a Riela na rua das taipas, entre outras. Nessa altura tive a sorte de começar a cantar num restaurante que tinha fados ao fim de semana, com uns guitarristas velhotes que artisticamente eram muito avançados para a época. E tive a sorte de aprender com eles.

Convivi com muita gente da geração anterior, eu tinha uns vinte anos e o resto tinha cinquenta e tal, era o puto novo. Havia tempo e gente que se dedicava às casas de fado até às quatro da manhã. As casas de fado que hoje em dia são mais comerciais eram as casas em que ficávamos a tocar até às tantas. Havia sempre uma mesa que não arrumávamos e ficávamos a cantar e a falar até as cinco, seis da manhã. Lembro-me de uma vez cantar três músicas de seguida e os turistas nem baterem palmas, porque eles estavam ali para ver o folclore e havia artistas para isso, mas quando havia alguém a cantar genuinamente fado eles não percebiam. Às vezes diziam-me que tinha que cantar um fado mais alegre, por causa dos turistas. Lembro-me de uma vez estar a cantar e quatro turistas japoneses estarem a dormir de boca aberta. E gente a bater nos talheres também era comum. O meu trabalho era educar as pessoas. Um dia destes uma amiga minha estava a cantar e caíram coisas para o chão, partiram-se coisas e ela continuou ali, igual, tal como eu sempre fiz, pode custar muito, mas tem que ser, e ela lá conseguiu agarrar o público naquelas condições adversas. A grande diferença é que ela estava a cantar com microfone e eu na minha altura não.

11 – Como foi conhecer a Amália Rodrigues?

 

Sim, uma vez fui a uma festa de homenagem ao cancioneiro e a Amália estava com o Carlos Conde, um poeta da altura fantástico que escrevia muito bem. Fui cantar e a Amália ouviu, achou muita graça, demos um beijinho e foi isso. Uma vez também fui cantar a uma festa de homenagem a ela, onde o Nuno Gama fez a festa, os fadistas com os fatos da Amália. Ela gostou imenso de me ouvir cantar e foi umas duas vezes ver a peça do Filipe la Féria para me ver cantar. Uma noite de natal ligou ao David Ferreira a dizer que me deviam contratar para a EMI e passado dois dias foram ter comigo ao teatro da comuna, onde fazia os domingos, em 1994. E a partir daí fomo-nos encontrando, até temos uns episódios engraçados, eu sempre fui muito tímido.

Uma vez fui jantar com a Amália e a Maluda, numa homenagem à Amália. Estávamos a jantar os três juntos e eu sempre muito calado, a ouvir tudo. E ela disse para eu ir cantar, onde havia três cadeiras para os músicos e um cadeirão para Amália no palco, e ela esteve sentada durante as minhas canções. Eu já tinha medo e assim ainda fiquei pior. Cada vez que acabava de cantar um tema ela chamava-me e dava opiniões. Cantei o fado “tem” que ela canta o cansaço, um poema do Luís Macedo. Depois havia uma frase que ataquei com uma volta e ela disse-me “essa voltinha é minha”. Depois no fim da noite ela disse que havia gente que ia lá ter e que iam a casa dela, se eu não queria também ir. E eu estupidamente, não sei como fiz aquilo, disse “Amália, desculpe, mas eu tenho a minha mulher à espera, não posso ir”.

Uma vez tive outra gaffe engraçada, fui assistir ao lançamento do disco “O segredo”, da Amália, e tive imenso tempo à espera, porque estava toda a gente a tirar fotos com ela. Quando cheguei lá disse-lhe que gostava imenso dela e ela diz-me “todos gostam”, mas eu fiquei a olhar para ela com cara de maluco e ela disse “não é o seu caso, não é o seu caso”. Fiquei tão perturbado com o que ela me disse que fiz uma cara qualquer de maluco e ela assustou-se tanto que disse que não era o meu caso. Não gosto de bajular ninguém, obviamente que ela teve uma grande importância na minha carreira, se não fosse ela não tinha gravado com aquela editora. O Carlos do Carmo e o João Braga também tiveram uma grande importância. À partida, aqueles muito bons apoiaram-me sempre.

12 – Se tivesse que musicar um filme, qual seria?

 

“O Padrinho” é dos filmes que mais gosto, mas já tem uma musica do caraças. Musicava um ou dois filmes do Woody Allen. Adoro o Casablanca, o “Deus sabe quanto te amo”. Há uma serie de filmes que adorava musicar. Há um filme muito engraçado do Leitão de Barros, a “Maria do Mar”, aquelas expressões faciais, aquelas pessoas que não são actores, com toda a influência do cinema soviético. O cinema português estava no topo do cinema europeu. Aqui há tempos vi um filme sobre fados, a preto e branco e mudo. Adorava musicar isso.

13 – Apesar da crise estamos a viver um boom de artistas nacionais. Acha que esse boom se deve apenas à evolução tecnológica. Acha que a qualidade tem aumentado?

 

Acho que não tem a ver com aumento de qualidade. Apressam mais as coisas, é tudo mais imediato e instantâneo, consegues chegar a um público de forma mais rápida e tudo acontece mais depressa. A musica é algo que cresce com a vida e às vezes as coisas demasiado depressa não dá para as pessoas crescerem e isso pode ser prejudicial. Hoje em dia é mais fácil gravar um disco.

Eu adoro vinyl, um dos discos que tenho foi quase por imposição minha que saísse em vinyl. A questão é o lado da concepção. Em estúdio é mais fácil, com os mecanismos digitais, mas a verdade é que às vezes a dinâmica perde-se. Às vezes é o lado técnico que ultrapassa algumas lacunas e não dá hipótese ao artista de perceber o que está a fazer de mal. O artista tem que arriscar em algo mais orgânico. Se faço uma musica e não gosto muito dela, de repente o técnico faz alguma magia, eu volto a ouvir e já me parece bem, mas na verdade isso está bem porque o avanço tecnológico assim o permite, mas como criação a musica não está boa. É no palco que realmente o artista cresce, apesar do trabalho em estúdio ser importante. Eu gosto de ir para estúdio com o trabalho já muito bem trabalhado.

14 – Como é que se convive com a fama? Ainda por cima sendo tímido.

 

Já lidei melhor, mas quando não tinha assim tanta. Quando saio à noite à rua toda a gente quer é fotografias, selfies, às vezes preciso de ir para um sitio que não seja assim. Às vezes é porreiro, mas por vezes um tipo não está bem disposto ou não está nos melhores dias. Eu pensava que ia gostar disso, mas a verdade é que com o tempo as coisas vão mudando. Lida-se bem porque é uma consequência do nosso trabalho, temos o reconhecimento do nosso trabalho. Às vezes no bairro as pessoas gritavam “Camané”, depois viravam a cara ou fugiam quando eu olhava, isto entre 96 e 00. Agora nos últimos anos é só fotografias e selfies. É porreiro, sei que as pessoas gostam e reconhecem, por isso é óptimo, dizerem-me que os fiz gostar de fado. Foi bom começar a ouvir isto das pessoas.

15 – Que conselho daria a quem está agora a começar no fado?

 

Que tenha vontade de aprender, humildade, vontade de ouvir os outros. E acima de tudo não ter pressa e construir algo seu, não estar sempre a procura do que está feito. Cantar fado não é cantar fados da Amália, não é cantar outras versões da mesma música. O fado é tentar ir pelo caminho mais difícil, que é agarrar as pessoas pela criatividade. É aí que se encontra um estilo próprio, não é a repetir as coisas dos outros.

16 – Quais as principais diferenças entre o Camané fadista e o Carlos Manuel fora dos espectáculos?

 

Acho que há um lado artístico que consegui fazer crescer, porque precisava de fazer crescer a minha carreira, aprendi a lidar com a insegurança, porque em palco antes tinha muito medo. Sempre fui tímido. Com o tempo fui tentanto controlar a insegurança e os medos. Acho que as coisas mais cedo ou mais tarde acabam por encontrar um certo equilíbrio.

Back

This is a unique website which will require a more modern browser to work!

Please upgrade today!

Share