Ben Monteiro

Ilustração por: Sèrgio Neves

Entrevista por: João Miguel Fernandes (originalmente publicada em 2014)

Ocupação: Músico e Produtor

Clica aqui para leres a entrevista em Inglês


1 – Das pessoas que conheceste quem é que mais te influenciou na tua vida?

Eu tive um professor de acrobacia que se tornou um dos meus melhores professores não necessariamente pela disciplina que ele leccionava, mas sim pela forma como ele dava as aulas e às verdades universais que estavam por detrás de tudo o que nos ensinava. Quem o teve como professor não o esquece e é interessante porque ele foi atleta de competição quando foi mais novo, depois esteve no exército, foi pára-quedista, mas nunca foi o cliché de nenhum dos dois. Ele reteve as coisas boas de cada mundo, algo que aliou à sua personalidade. Por exemplo, tu consegues ir sempre muito mais além do que pensas e as coisas não têm que ser perfeitas, mas tens que dar 100%, embora sejam relativos, desde que estejas a dar o máximo daquilo que tu consegues. Ele ajudou-me numa altura em que me apetecia desistir do curso, porque eu tinha o problema da perfeição e ele mostrou-me na prática que não tem que ser assim e acabei por ter a melhor nota até. Há grandes princípios que aprendi com esta pessoa que não têm a ver necessariamente com a ginástica. Acabámos por ficar amigos. Já agora, chama-se João Martins.

2 – Fala-me de um momento da tua infância que te tenha marcado.

Há um momento que eu nunca me esqueço que está relacionado com o que faço agora. Eu tinha um walkmen, com cassetes e rádio, mas tinha um botão em particular que dizia “mono/stereo” e eu não sabia para o que é que servia, isto tinha eu uns sete anos. E um dia, estou no autocarro a vir da Ajuda e estava a ouvir o walkmen bastante alto em mono. De repente passo para stereo e percebi imediatamente para que é que servia. Foi um sentimento de espanto, porque a música não era só a parte melódica mas sim a parte como tudo estava disposto, a música ganhou mais profundidade, parecia que a música estava em 3-D. Depois disso fazia de propósito e mudava várias vezes de mono para stereo para sentir a diferença. Ainda sei em que rua é que isso aconteceu. Há pouco tempo passei lá com o Alex, íamos a casa do Miguel que nos misturou o disco, e eu disse-lhe, “olha, aqui foi onde eu descobri o stereo”, e ele ficou à nora. E eu disse-lhe para esquecer a conversa.

3 – No momento actual de crise se mandasses no país o que é que farias?

Eu acabava com várias coisas que não têm sentido, como reformas vitalícias, pessoas que trabalham quatro anos e ficam a receber uma vida inteira. Cortava despesas desnecessárias em que quem está confortável deixa de estar tão confortável para que os mais pobres não estejam a sofrer. Há muito dinheiro mal gasto. Por exemplo, a Suécia é um país que apesar de ter alguns exageros é bastante funcional. Quando fui tocar à Suécia perguntava sempre qual era o ordenado mínimo, era sempre o mesmo. Em relação à reforma era sempre igual, se tivesses uma reforma de oitocentos euros eles aumentavam-te para mil, se passasse eles tiravam-te aquele ‘x’ a mais e recebias os mil. Podias ter uma conta de reforma para ter mais, mas no fundo havia um princípio de igualdade. Por isso é que não há sem abrigo, não há tantos pobres, não há a cultura da celebridade, isso é algo a que eles torcem o nariz, é visto com maus olhos. Embora seja difícil porque somos um país latino, era fixe conseguirmos adoptar alguns desses princípios. O exemplo tem que vir de cima, do norte da Europa, nos nórdicos os deputados não recebem ordenado, se queres trabalhar no governo tu trabalhas porque queres melhorar o teu país, não tens ganho financeiro imediato.

 

4 – Mesmo nesta altura de crise têm surgido cada vez mais músicos e artistas, também devido à internet. Achas que a crise obriga as pessoas a sairem fora da caixa e a esforçarem-se mais?

Recentemente vi uma entrevista à Ana Miró/Sequin, e alguém disse que Sequin era tudo ela. E ela disse que sim, que estava há algum tempo sem fazer nada e que decidiu mexer-se. Eu acho que neste momento é possível fazer música ou arte. Nestes últimos anos a cultura tem estado a crescer porque não tens nada a perder, há uma série de intermediários que se perderam, esperamos que desapareçam mesmo. Nós em D’Alva temos várias pessoas a trabalhar connosco, mas há outras estruturas que não têm sentido. Por um lado é bom ter uma grande editora a trabalhar com um músico, mas por outro não sei se é tão fulcral tê-los. Quando o dinheiro está fora da equação tu fazes as coisas com mais paixão e liberdade. Já fiz discos a pensar “não, vamos ser inteligentes e aproveitar alguma atenção para fazer algum dinheiro”, e depois não funcionava, enquanto em D’Alva não tivemos essa preocupação e as coisas estão a correr mesmo muito bem. E o nosso disco foi feito sem grandes segundos planos. Há estudos noutros países em que a criatividade aumenta em momentos de crise. Há um conjunto de factores que fazem com que isso aconteça. Os músicos portugueses estão a acordar um bocado para a realidade. Tens é que fazer coisas que são boas, sem pensares especificamente para o quê.

“Há uma questão que é quando dizem “ah, ele é um bom filho, um bom amigo”, mas isso é o que todos nós somos, ou pelo menos deveríamos ser, é o mínimo. O difícil é sermos bons para quem cheira mal, para quem não acredita nas mesmas coisas que tu.”

5 – Achas que, principalmente nas artes, é mais importante aprender a prática, através dos cursos técnico-profissionais, do que a teoria que é ensinada na maioria das faculdades?

Eu sei que no mundo das artes um diploma não é sinónimo de ser bem sucedido, de todo. E uma coisa que acontece não só nas artes mas na maioria dos cursos superiores é que tu percebes que as ferramentas que tu vais precisar só as vais aprender realmente quando começares a trabalhar, e logo aí há um desfasamento enorme entre o que um profissional precisa e o que um profissional recebe. Num curso profissional tens uma teoria aplicada, não perdes tanto tempo em teoria desnecessária. Eu tive excelentes professores no meu curso e havia uma característica importante, os professores tinham que ser profissionais no activo e logo aí a qualidade é bastante diferente. Há um exemplo do qual nunca me vou esquecer, que foi quando tive a aprender a conduzir, o instrutor disse-me “agora que eu já te ensinei como se deve conduzir para passares no exame, vou-te ensinar como se conduz a sério”, e aí tu percebes a diferença. Nas artes é possível que metade dos artistas portugueses que são bem sucedidos não tenham qualquer tipo de ensino superior, desde a street art, que está a subir a nível recorde em Portugal. E a verdade é que consegues viver sem um curso superior. A educação hoje em dia é autodidacta, com a ajuda da internet.

Eu não tirei um curso superior por duas razões, primeiro porque seria mesmo muito difícil financeiramente para a minha família na altura em que estávamos; em segundo porque sei que chegaria a meio e gostaria de estar a aprender outra coisa, isto porque eu adoro aprender, gostava de ter mais vidas para aprender outras coisas. Gostava de estudar psicologia, design, história de arte, música ainda é algo que ando a equacionar, isto porque não sou formado em música e gostava de explorar o jazz. Enquanto produtor percebo que há toda uma sensibilidade que fui desenvolvendo para a música que alguns amigos meus formados em música não têm, o que é bastante interessante. Tenho muito orgulho no curso que tirei.

6 – Achas que Portugal apoia as artes?

Claro que não. Tens o caso do Paulo Furtado que esteve em Berlim com o apoio francês. E eu tenho amigos meus alemães que vivem da música e quando vêm a Portugal pedem sempre um documento de uma entidade municipal dos sítios onde vão tocar, isto porque se apresentarem esses documentos na Alemanha, recebem seiscentos euros do estado alemão. Portanto nem precisam do dinheiro de cachet. Em cinco datas receberam seiscentos euros de cada, além dos cachets. Isso chega para todos os custos que têm. Tiveram nos Estados Unidos com o apoio do estado alemão. Este ano receberam uma carta da Angela Merekl a agradecer-lhes o que estão a fazer pela cultura do seu país, e estou a falar de uma banda alternativa que nem é assim tão grande. Portanto, claro que Portugal não apoia as artes.

Eu fiz uma tour de duas semanas pela Alemanha em que as nossas carrinhas eram da camara municipal das cidades. Tivemos num prédio em Nuremberga que tinha salas de ensaio gratuitas, duas salas para concertos de vários géneros e uma creche para deixares lá o teu filho, isto porque ser músico na Alemanha é profissão, então têm que garantir o bom funcionamento da profissão. Em Portugal isto seria impossível, alias nem temos ministério da cultura.
Cada vez mais se percebe que a cultura é vital para um país. A Alemanha é um país excelente, apesar de viver numa realidade completamente diferente. Em Portugal os instrumentos são muito mais caros do que no resto da Europa. Eu estive em Nashville com uns amigos e lá eles não compram uma guitarra sem experimentar bem antes, eles não têm quase nada de origem, trocam tudo uns entre os outros, e aqui não, compramos tudo novo sem ter noção do som.

 

7 – Como foi a tua experiência em Triplet em Portugal e no estrangeiro?

 

Eu juntei-me a eles sem ser objectivamente fã do género de música que eles faziam, mas criou-se uma grande relação e fui aprendendo a gostar do que estava a fazer. Penso que se ainda estivéssemos a tocar estaríamos a tocar algo que nos deixaria orgulhosos. Nunca houve grandes expectativas, tudo o que acontecia era positivo e bem vindo.

A primeira vez que tocámos fora de Portugal foi logo em Londres. Acho que é o sítio mais difícil para se tocar. Tivemos também em Itália, um país lindíssimo, apesar dos italianos serem piores do que nós no facto de sermos latinos. Também tocámos muito na Alemanha, Áustria, Polónia, foram uns dez países. O meu pai não é de cá, a minha mãe também não nasceu cá, mas dois membros da nossa banda eram mesmo portugueses e ver as pessoas que eles eram no início e no que se tornaram depois consegues ver o que viajar te faz. Eles expandiram bastantes horizontes. Por exemplo, quando tocámos em D’Alva no Alive, o Alex não sabia o que era tocar para tanta gente, eu felizmente já tinha tido essa experiência em Triplet. Tocar todos os dias e ter um road manager a filmar tudo e a mostrar-nos tudo nos dias seguintes fez com que conseguíssemos evoluir bastante, a banda torna-se uma máquina. Em D’Alva quando demos o concerto no Alive eles estavam todos contentes, que tinha sido o melhor concerto que já tínhamos dado. Eu disse-lhes que não tinha corrido tão bem, peguei nos vídeos do concerto e disse-lhes para sacarem do bloco de notas e começaram a apontar os erros. Depois acabaram por ver que tinha razão. Eu quero que D’Alva chegue mesmo à perfeição.

Andar em tour pela Europa durante muito tempo é algo incrível, dá-te vontade de não voltar para o teu país. Não sei quantas vezes andei de avião em tour, foram muitas vezes e isso é uma grande experiência de vida, ganhei muitos amigos dessas viagens.

8 – Em que momento é que olhaste para o Alex e achaste que ele tinha potencial?

 

O Alex era o fã número um de Triplet. Houve um concerto na Moita que nos fizemos com os One Hundred Steps e a banda dele. Nesse concerto estava lá o Tiago Cavaco e o Samuel Úria, que ainda não era conhecido. Eu vi o Alex a tocar aí e pensei “bem, este miúdo tem tomates”. Depois houve outro concerto organizado por ele na Moita que era só a banda dele e a minha. Nós fizemos esse concerto só porque foi ele a pedir, ele era especial para nós.

O Alex um dia chegou ao pé de mim depois de um concerto e disse “olha, pode parecer um bocado estranho, mas se não fosse ouvir o vosso disco eu já não estava cá e eu quero tatuar a capa”. Eu disse-lhe para se sentar e contar-me tudo, que não era preciso tatuar a capa. A partir daí criou-se uma grande ligação. Depois, nesse concerto na Moita, vi que ele tinha uma atitude incrível. Ele sempre foi calmo e tímido, mas em palco, com um fato todo branco, estava com uma atitude inacreditável. Na altura o Alex fazia uns vídeos na net e havia pessoal que gozava, menos o Úria, que dizia que era um grande fã, porque o Alex tinha coragem de fazer coisas que ninguém tinha. O pessoal podia gozar mas ninguém tinha coragem de fazer aquelas coisas sem ser ele. Ele pode estar à frente de qualquer público que continua a ser ele mesmo. Consegui ver que ele só precisava de ser orientado, eu nunca quis fazê-lo à minha imagem, nunca. Durante muito tempo tive que fazer com que o Alex confiasse em mim e percebesse que tinha que descobrir quem era e não seguir quem adorava. Toda a gente queria um bocadinho da parte especial do Alex, mas isso iria desvirtuar o Alex. O Alex tem a mais do que toda a gente. Não há ninguém como o Alex em Portugal, nunca houve ninguém como o Alex na música em Portugal e ele ainda está a metade do seu potencial. Cada vez que ele acha que já chegou ao seu limite eu digo-lhe sempre que ainda há mais a descobrir. Somos praticamente irmãos. Ele no início olhava bastante para mim de baixo para cima e eu nunca quis que isso acontecesse, então tentei sempre alterar isso. Não há nenhuma decisão em D’Alva que não seja tomada de igual pelos dois. Ele era um miúdo super tímido à procura da aprovação de toda a gente e eu quis provar-lhe que ele não precisava de fazer nada para as pessoas gostarem, mas sim para ele gostar. O miúdo é único!

O Alex é bastante humilde, ele faz questão de dizer em entrevistas que trabalha num call-center e que está bastante feliz porque ao menos tem um trabalho. É preciso ter noção da realidade, trabalhamos, damos o máximo, já tivemos alturas em que contámos trocos para comprar uma sopa enquanto estávamos a acabar o disco, graças a Deus isso já não está a acontecer.

9 – Nota-se bastante que os músicos que cresceram junto do seio da Igreja Baptista têm muito o espírito de entreajuda e humildade. Até que ponto é que a própria Igreja lhes transmite essas ideias.

 

Nós acima de tudo podemos dizer que somos cristãos. Depois há uma diferença entre os católicos romanos e os protestantes, onde existem vários grupos com algumas diferenças. O Tiago Cavaco é Baptista, eu já frequentei a Igreja Baptista, mas basicamente são Igrejas protestantes ou evangélicas, a diferença é que nós lemos a bíblia, não há uma lavagem cerebral. O meu pai estudou teologia e já esteve à frente de uma Igreja, e nós somos incitados desde crianças a sermos bem educados dentro da fé, a questionarmos o que acreditamos, é uma escolha pessoal, não é por obrigação dos nossos pais. Eu li sobre várias religiões que me interessavam e voltei à fé cristã.
Há duas coisas importantes, a humildade, que é cultivada. Esta noção de igualdade é cristã e está na bíblia, a noção de todos os homens serem iguais perante Deus, o amor de Deus é igual para toda a gente. Não há ninguém mais especial; a segunda é a excelência, tudo o que tu fazes tem que ser com excelência porque esta ideia de tudo o que fazemos de bem vem de Deus faz-nos com que queiramos dar o máximo. Nós desde pequenos somos habituados a dar o máximo à nossa família, aos nossos amigos não de uma forma taxativa. Esta coisa dos pecados mortais não é bíblico, é algo que os católicos inventaram não se sabe bem porquê.

Acho que existe dentro da nossa fé um exemplo pela positiva. Neste mundo é normal sentirmos que somos especiais, mas a verdade é que não sou só eu, Deus criou-me assim mas também te criou a ti assim, especial. Isto dá-te uma visão de respeito em relação a quem te rodeia. Uma vez lembro-me de estar com um amigo meu cristão num concerto de Triplet, e aí havia uma assistente que nos ajudava a tudo. Ela chega ao pé de nós e pergunta se queremos beber ou comer alguma coisa. E o meu amigo disse que queria qualquer coisa. Eu disse-lhe, “epá, deixa lá estar a miúda, estão aqui coisas, não tem sentido estar a dar-lhe trabalho”, ao qual ele me respondeu “tens que aprender que há alturas para tu te servires e seres servido, tens que aceitar isso”, e é verdade. Há grandes princípios de direitos humanos que se influenciaram na bíblia, não tens que seguir uma religião.

Noto que existe uma humildade natural entre os músicos que pertencem ou estão ligados à Igreja Baptista, mas eu acredito que não é apenas um código de conduta moral, mas sim algo sobrenatural que me afecta e me transforma e a verdade é que vejo isso nas outras pessoas que acreditam no mesmo que eu.
Há uma questão que é quando dizem “ah, ele é um bom filho, um bom amigo”, mas isso é o que todos nós somos, ou pelo menos deveríamos ser, é o mínimo. O difícil é sermos bons para quem cheira mal, para quem não acredita nas mesmas coisas que tu. Há uma coisa que os cristãos têm que as vezes pode parecer um estigma fanático, que é o “eu descobri qualquer coisa e quero que o mundo todo saiba”, é natural nós querermos espalhar a nossa fé, mas não obrigamos ninguém, nunca.
Há gente que pensa que Deus é um banco, que vamos a Fátima pagar promessas e que isso tem sentido. Deus não é um banco, Deus não obriga ninguém.

“Quero muito que Portugal perceba que não temos que ser menores em nada, temos qualidade para sermos os melhores e nisso penso bastante em Linda Martini, uma banda que dá tudo, têm tudo ali.”

10 – Tens origens brasileiras e de Cabo Verde, de que forma é que isso te influenciou na música que fazes?

 

Influenciou bastante. O meu pai tocava guitarra, apesar de nunca ter aprendido com ele. Quando aprendi a tocar guitarra aprendi um estilo brasileiro muito específico e quis tocar esse género. Há claramente uma influência dos meus pais em tudo o que eu faço. Tenho poucas coisas editadas em que toco guitarra, mas sei que toco bem, apesar de ter uma maneira rítmica numa mistura brasileira/africana. A polirritmia é algo que me fascina, daí ter aprendido a tocar samba na bateria.

11 – Que músicas é que começaste a explorar quando eras mais novo?

 

Eu só ouvia praticamente rádio, porque durante algum tempo não tínhamos muito dinheiro, os meus pais casaram mas o meu avô não era a favor do casamento dos meus pais, então nunca tivemos apoio da nossa família. Tinha um radiodespertador e ouvia-o várias vezes, Michael Jackson, Madonna, etc. Também ouvia a música de Cabo Verde, do meu pai. Eu estagiei com um músico de Cabo Verde, António Monteiro, que toca cavaquinho com o Tito Paris, e é para esquecer, é tão complicado tocar música africana, é completamente diferente do que se faz cá. A minha mãe sempre ouviu música brasileira ligeira, Roberto Carlos, por aí. Daí ganhei a escrita, a maneira como acentuas as coisas. O português que tens em D’Alva flui bastante bem em cima de géneros que não têm a ver com a música portuguesa. Nós já temos essa propensão de forma natural e temos também uma grande preocupação em fazê-lo.
O primeiro disco que comprei foi no círculo dos leitores, porque a minha mãe era assinante. Sempre ouvi muita rádio, por isso é que o formato pop sai tão bem.

12 – Se pudesses escolher uma banda para realizar um videoclip quem seria?

 

Seria para o Samuel Úria, que é naturalmente alguém que me diz algo. Lá fora o Kanye West, porque a música dele é muito visual, muito forte. O James Blake também, porque transmite muito sentimento.
Com o videoclip D’Alva da homologação sei que aquela estrutura ajudou muito a espalhar a música.
Há uma pessoa em quem confio na realização, o John Filipe é um deles de certeza absoluta.
Um videoclip tem que ter qualquer coisa, um propósito, não pode ser vazio, e o John sabe construir muito bem uma narrativa.

13 – Costumas planear muito a tua carreira?

 

Eu sei onde é que quero estar para o ano. Há três anos atrás sabia que tinha que agarrar o meu futuro pelos cornos. Andava sempre a desdobrar-me no design, realização, etc, e isso é cansativo. Então decidi em investir a sério em quem eu sou. Não lido muito bem com a cultura da celebridade, mas percebi que tinha que lidar com isso. Actualmente estamos a ter muita atenção com D’Alva e isso é muito estranho. Então há três anos atrás senti que tinha mesmo que bater com a mão na mesa. Tentei mostrar a mim próprio que tinha valor e que podia realmente ir longe.

Há um ano e tal, quando fiz o videoclip da homologação, estava numa altura complicada, eu sofro de depressão e a minha depressão tinha atingido um pico como nunca. E nessa altura, por estares tão mal, não consegues trabalhar, então um amigo meu, que é coach, veio falar comigo e ofereceu-me várias sessões de borla porque achou que tinha bastante talento e que era grave que as pessoas estivessem sem contacto com o meu talento. No fim das sessões cheguei à conclusão que queria fazer música e vídeo quando me apetecesse. Então no final do ano passado decidi que queria mesmo fazer música, que é algo que está a acontecer agora.
No final dessas sessões ele deu-me um trabalho de casa que era para ver o que é que podia fazer para atingir a meta ‘x’. No dia seguinte fiz isso e foi tudo tão fácil, as coisas começaram a correr bem. Na semana seguinte tive logo uma proposta para realizar um grande videoclip, uma proposta da Universal para produzir um disco, e pronto, segui esse caminho. Sei que é difícil dizer isto sem soar a convencido, mas é verdade que sinto que tenho uma sensibilidade especial.

Estou agora a trabalhar com a Ana Cláudia e sei que está a ficar excelente, com D’Alva também aconteceu isso. Eu e o Alex somos muito parecidos, acho que daqui a uns anos ele vai estar a produzir outras pessoas e eu a ensiná-lo.
O pessoal acomoda-se bastante, principalmente na pop, daí o nosso disco estar a ter tanto sucesso.
Aprendi com o Tiago Cavaco que less is more e com isso aprendi a fazer mais com menos, o que é bastante importante.
Quero muito que Portugal perceba que não temos que ser menores em nada, temos qualidade para sermos os melhores e nisso penso bastante em Linda Martini, uma banda que dá tudo, têm tudo ali.

Se eu creio num Deus que é criador por excelência, que é algo que está no nosso código genético, nós temos que criar. Basta olhar à nossa volta, a complexidade e beleza de tudo está à nossa volta.

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