André Oliveira

Ilustração por: Avgvstv.z

Entrevista por: João Miguel Fernandes (originalmente publicada em 2016)

Ocupação: Copywriter e argumentista de livros de banda desenhada

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1 – Fala-me de um momento da tua infância que te tenha marcado.

Em que sentido? Tive tantos, tão intensos e variados que falta indicar o propósito da pergunta… Até porque há muita coisa que não desejo partilhar. Acredito que a infância é fundamental para a personalidade de um indivíduo, mas sendo ela uma construção de momentos e episódios, julgo que vale essencialmente como um todo. Claro que há sempre este ou aquele acontecimento que pareceu determinante, para a minha formação enquanto criativo ou para sentir as coisas como sinto hoje, mas nomeá-los tornaria a minha resposta demasiado extensa. Apraz-me apenas lembrar o seguinte: tive uma professora de português que rejeitava os meus textos, achava-os aberrações. Oferecia este grau de resistência porque eu a desafiava, não escrevia as composições formatadas e genéricas que sabia de antemão que ela queria que eu escrevesse. Recusava-se a dar-me boas notas e esforçava-se para contrariar a minha “fuga da norma”. Tudo coisas que eu, mais tarde, enquanto professor e formador, me esforcei para incentivar e desenvolver nos meus alunos. Hoje em dia, pergunto-me o que diria ela se soubesse que me tornei profissional do ofício. Se manteria a mesma posição, voltando a fazer o mesmo, ou se admitiria ter estado errada. De certa forma não importa. Na vida, nem sempre fui fiel à minha vontade e aos meus princípios, mas orgulho-me de o ter sido aí. E não há dúvida que ganhei.

2 – Em que momento da tua vida é que achaste “Pá, vou tentar viver da minha arte”? E como é que realmente isso aconteceu ao início?

Esse momento nunca aconteceu. E, de qualquer forma, não sei bem o que significa “a minha arte”.
Se for a escrita, posso dizer que vivo dela mas nem sempre a utilizo de forma artística ou expressamente criativa. Profissionalmente sou copywriter numa agência de design e publicidade e, como tal, tenho de escrever todo o tipo de textos e de guiões comerciais, desde os mais criativos aos mais técnicos. É isso que me dá dinheiro para viver e pagar as contas, como tal, é aí que tem de estar o foco principal da minha atenção. No entanto, se “a minha arte” for contar histórias, fazer banda desenhada ou os projectos paralelos que tenho abraçado desde sempre, então de facto essa tomada de decisão de que falas, esse instante crucial, nunca existiu. Houve uma altura em que fui freelancer e podia dar-me ao luxo de apostar mais nos álbuns de BD ou em trabalhos pessoais, mas até aí tinha de fazer coisas que não gostava tanto como design ou ilustração. Conheço muitos artistas, por exemplo, que deram esse “leap of faith” e hoje podem falar sobre isso. Mas a minha história tem sido bem menos romântica.

3 – A ilustração e os comics têm crescido a olhos vistos em Portugal nos últimos tempos. Do teu ponto de vista, a que se deve esse crescimento?

Julgo que nos últimos anos se tornou mais fácil e viável produzir livros, tanto do ponto de vista económico como no que diz respeito às soluções existentes no mercado. Hoje em dia, qualquer pessoa pode muito simplesmente mandar fazer algumas centenas de álbuns numa gráfica, chegar a acordo para a distribuição ou colocar nas lojas pessoalmente. Eu comecei a publicar BD na Zona (uma antologia nacional de artes visuais) e já nessa altura havia uma casa de impressão em Espanha que nos permitia concretizar o nosso projecto de forma rentável, para que se sustentasse a si próprio (as vendas pagavam os números seguintes). Agora, esse modelo é muito comum por cá e isso pode explicar o aumento generalizado de publicações, sendo que as pessoas já não estão tão dependentes das editoras. E isto além da net e das plataformas digitais, claro.

Quanto ao aumento dos ilustradores, já não sei bem a que se deve. Na realidade, nem sei se isso é verdade ou se apenas não havia tanto conhecimento do que por cá se fazia nessa área antigamente. A internet veio estreitar relações, dar visibilidade a toda a gente e minorar as dificuldades de produção. Talvez seja por isso que agora se vê mais coisas a aparecer, apesar do público com interesse não ter crescido proporcionalmente, na minha opinião.

4 –De que forma é que Lisboa contribuiu para o teu desenvolvimento enquanto artista?

É a cidade onde cresci e onde morei até há bem pouco tempo. É onde trabalho, onde passo a maior parte do meu tempo e isso cimenta o imaginário de quem cria personagens e narrativas. Além disso, é onde fica a Faculdade de Belas Artes, onde me licenciei e onde aprendi a desenvolver o meu processo criativo. Mas julgo que ficamos por aí, não penso que a minha imaginação esteja demasiado condicionada por um ou outro ponto geográfico. Lisboa está presente no “Hawk” (com algumas localizações que foram importantes para mim), no “Vil – A Tragédia de Diogo Alves” (onde é, por si só, uma personagem) e numa série de trabalhos mais curtos. Mas é sempre possível identificar mil outras referências em todas as minhas obras.

“A crise pode ter obrigado a pensar de forma diferente e a correr alguns riscos mas penso que isso acaba também por ser um reflexo dos tempos. O nosso potencial é enorme, porque desde cedo que contactamos com muitas culturas diferentes e porque somos, por natureza, um povo criativo e com propensão para ter talento. E o sucesso que temos nas mais variadas áreas acaba por ser um reflexo disso mesmo.”

5 – Como funciona o teu processo criativo? Existe algum padrão?

Se existisse um padrão eu juro que desconfiaria.
Tudo no meu processo criativo é imprevisível, instável e, de certa forma, movido a angústia e insegurança. Tanto que muitas vezes tenho de me afastar e tentar ver aquilo que fiz de uma perspectiva mais isenta, porque senão não faço mais nada a não ser autocensurar-me. No entanto, e apesar de muitas vezes acabar por contrariar esse mesmo “sistema”, forço-me a respeitar uma série de fases no que diz respeito à escrita de narrativas. Tento fechar primeiro uma sinopse (como começa, decorre e acaba a minha história), para depois passar à descrição de personagens e ambientes. Só quanto isto está definido é que passo para o guião propriamente dito e também aí há passos que gosto de seguir para que a sequência das cenas seja construída de forma mais sólida. Primeiro a planificação prancha a prancha, em traços muito gerais, e apenas depois a escrita do argumento acompanhado dos layouts esboçados (rascunhos que muitas vezes nem mostro aos ilustradores). Enfim, dentro do caos há uma certa ordem mas nada é estanque, estou sempre disponível a ouvir opiniões caso contribuam para melhorar o resultado final. A meu ver, a imaginação é uma forma de liberdade. Padronizá-la demasiado seria limitar-lhe a progressão.

6 – Qual foi a pessoa(s) que mais te influenciou/marcou na tua vida?

Já o disse muitas vezes: o meu avô.
Às vezes acho que toda a minha vida é um misto de homenagem e de perseguição à dele, seguindo-lhe os passos, tomando-lhe o exemplo e admirando, ainda e sempre, a sua capacidade extraordinária de contar histórias. Não havia dia que não soubesse uma diferente para me adormecer, num talento muito mais brilhante e inesgotável do que algum que eu possa ter. Quando era jovem estudou na Escola António Arroio e eu cresci em contacto com os seus textos, poemas, aguarelas, retratos a grafite e boa disposição contagiante. Teve uma profissão muito pouco criativa, foi empregado bancário, mas como companheiro de todas as horas nunca me disse que não lhe apetecia brincar, que tinha algo mais importante para fazer do que estar comigo. Sendo eu filho único, era ele o meu amigo mais presente, participando nos meus mundos de fantasia e colaborando com a minha vontade precoce em fazer livros de BD a partir de blocos de papel de rascunho agrafados.

A importância que o meu avô teve no meu crescimento e na minha identidade enquanto criador é imensurável. É a minha bússola e uma inspiração constante. Mas de qualquer forma também não seria justo deixar de reconhecer a importância que os meus pais tiveram por nunca tentarem condicionar as minhas escolhas e decisões profissionais. Sempre me apoiaram e confiaram em mim para seguir o meu caminho, e, gostando deles como gosto, posso dizer que foi fundamental esse voto de confiança.

 

7 –O que é que leva Portugal, um país “em crise”, a conseguir neste momento catapultar-se a nível internacional em tantas áreas?

 

Acho que ninguém tem dúvidas de que temos mais valor do que pensamos. De certa forma, e apesar de sentir uma dormência geral extremamente preocupante nas camadas mais jovens, julgo que esta instabilidade financeira e a preocupação que paira sobre nós motivou muita gente a superar-se naquilo que gosta mais de fazer. A crise pode ter obrigado a pensar de forma diferente e a correr alguns riscos mas penso que isso acaba também por ser um reflexo dos tempos. O nosso potencial é enorme, porque desde cedo que contactamos com muitas culturas diferentes e porque somos, por natureza, um povo criativo e com propensão para ter talento. E o sucesso que temos nas mais variadas áreas acaba por ser um reflexo disso mesmo.

8 – Existem alguns ilustradores portugueses a trabalhar para grandes editoras como a Marvel, mas as bandas desenhadas produzidas em Portugal ainda não têm grande destaque lá fora. No teu entender qual é a razão disto acontecer?

 

Sobretudo porque em Portugal, no que diz respeito à banda desenhada, tudo é micro. Temos um micro-mercado, temos micro-público, temos micro-tiragens e, consequentemente, temos micro-vendas. Isto numa vertente mais mainstream, se pudermos chamar assim. Já no meio mais independente, o universo dos zines e da BD de autor, penso que é um pouco diferente. Há mais sinergias, mais portugueses conhecidos e respeitados além-fronteiras, mas como é um nicho ainda mais pequeno não é uma informação que seja divulgada por aí além. Claro que assistimos a um acréscimo das publicações de banda desenhada em Portugal, de várias temáticas e para vários públicos, o que é óptimo, mas ainda falta às editoras (sobretudo às de dimensão reduzida porque são essas que mais apostam nos produtos e autores nacionais de qualidade) terem contactos e poder negocial suficiente para colocarem as nossas obras lá fora. Tem-se conseguido bons avanços nesse campo, nomeadamente com a edições noutras línguas distribuídas no estrangeiro, e isso é sinal de que estamos a avançar na direcção certa. Agora é continuar a desbravar caminho.

9 – Diz-me um ilustrador com que nunca tenhas trabalhado e que adorasses trabalhar. E porquê?

 

Nuno Saraiva. Foi dele o primeiro livro de banda desenhada portuguesa que tive (sem contar com os chamados “clássicos”, dos quais, para ser sincero, nunca gostei), livro esse que li e reli vezes sem conta. O álbum chamava-se “Zé Inocêncio – As Aventuras Extra Ordinárias de um Falo Barato” e era cómico até dizer chega. No entanto, o Nuno, que mais tarde veio a ser meu colega no The Lisbon Studio, é um artista com um alcance muito mais vasto do que o universo do humor, com uma capacidade para contar histórias e um storytelling exímios. Além disso, é um artista e formador bastante dinâmico, com um trabalho reconhecido internacionalmente, sempre baseado não só no seu talento mas também na sua produtividade. Gostava de fazer uma BD com ele, já lhe disse isso várias vezes, mas ainda não foi possível por falta de disponibilidade. Acho que vou continuar a tentar até ele ceder.

“Para mim, é fundamental que o ilustrador se identifique com o meu guião e que se sinta entusiasmado. Só assim o resultado final poderá ficar a ganhar. E isso, ao contrário de qualquer ego ou teimosia criativa, é sempre o que mais me interessa.”

10 – As tuas narrativas têm uma forte componente visual, daí resultarem tão bem em banda desenhada. Nunca pensaste colaborar com alguém de vídeo ou de outra arte?

 

Nunca aconteceu. A linguagem da BD é muito específica e aquela com que me sinto mais à vontade. Gosto de escrever textos para outros universos mas ainda não se proporcionou vê-los interpretados visualmente por qualquer outra linguagem que não seja a da banda desenhada. Nunca me convidaram e eu nunca vi necessidade de desafiar ninguém para realizar essa experiência. E, se não chegar a acontecer, julgo que não vou sentir falta.

11 – Têm surgido várias editoras independentes em Portugal nos últimos anos. O que mudou no panorama nacional para que estas editoras pudessem subsistir?

 

Quais editoras? A Kingpin, a Polvo, a Devir, a Mnnnrrrg e a El Pep existem há bastantes anos já. Fora isso não estou a ver nada de novo a aparecer. Se estiveres a referir-te, por exemplo, à minha Ave Rara, não é uma editora. É apenas uma chancela editorial a partir da qual eu publico obras com características muito próprias (como o “Living Will” ou o “Gentleman”) e se calhar é o facto de existirem outras do género que leva a essa confusão. De resto, se olharmos mais para trás vemos muitos selos que deixaram de existir: Vitamina BD, Círculo de Abuso, Baleia Azul e Witloof são alguns deles. O que acontece é que as pequenas editoras que referi ainda há pouco têm mostrado um dinamismo e uma capacidade de produção assinaláveis. Nesse sentido, até parece que são mais mas, infelizmente, não é o caso.

12 – Quais os artistas nacionais que pouca gente conhece que achas que vão despoletar futuramente?

 

Não sei bem o que significa “despoletar”, muito menos num contexto como o nosso, mas aconselho a conhecerem o fantástico trabalho do Darsy (cargocollective.com/darsyman), da Mosi (mosidraws.tumblr.com) e do Afonso Ferreira (cargocollective.com/afonsoferreira). Felizmente, poderia nomear ainda alguns outros mas mais vale não sobrecarregar a paciência de quem lê esta entrevista. Num mundo ideal, estes três autores teriam um futuro brilhante e sólido à sua frente e eu espero sinceramente que isso se concretize, seja cá ou fora.

13 – Na tua perspectiva, qual é a melhor forma de um artista evoluir? Aconselhas fortemente a vertente académica ou achas que o empenho e dedicação são suficientes?

 

Uma vez mais, não acredito que haja uma fórmula. E também depende de que tipo de artista estamos a falar. Penso que a um pintor fará mais falta conhecer determinados processos para criar o seu próprio estilo do que a mim, ter contacto com regras narrativas ou técnicas de escrita, para criar as minhas histórias. Há ofícios que simplesmente não podem ir beber tanto ao senso comum e ao conhecimento adquirido. O segredo estará em descobrir a fórmula certa para se cumprir objectivos, seja qual for a área em que queiramos actuar. De qualquer maneira, o tal empenho e a dedicação têm de existir em larga escala. E trabalho. Horas e horas de muito trabalho.

14 – Ao longo dos últimos anos tens colaborado com alguns dos melhores ilustradores nacionais. Como é que te adaptas a cada um deles? Como tem sido essa experiência?

 

É um grande privilégio e sinto-me muito agradecido por ter tido a oportunidade de trabalhar com todos. Desde que comecei a escrever argumentos para BD que tem sido assim, colaboração após colaboração, e isso fez com que me tenha habituado a conviver com diferentes formas de entender a banda desenhada e as minhas histórias. Com aqueles que quiseram verdadeiramente trabalhar (porque muitas colaborações também se perderam por falta de resposta do “lado de lá”) nunca tive problemas com ninguém. Faço sempre o meu trabalho de casa, analiso o trabalho do artista no que diz respeito aos temas, às preferências pessoais e ao nível de domínio do storytelling, e crio sempre a partir daí. Para mim, é fundamental que o ilustrador se identifique com o meu guião e que se sinta entusiasmado. Só assim o resultado final poderá ficar a ganhar. E isso, ao contrário de qualquer ego ou teimosia criativa, é sempre o que mais me interessa.

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